terça-feira, 5 de abril de 2011

Revivendo a TV Sergipe

Os acontecimentos na TV Sergipe, que culminaram com a não exibição do “Bom Dia” de segunda, me fazem lembrar os anos de intensa movimentação sindical na luta dos jornalistas no estado. Uma greve geral convocada pela CUT, no final dos anos de 1980, paralisou todas as redações de jornais e assessorias. Parar a TV Sergipe era algo impensável. Mas estávamos: Marcos Cardoso, Bertulino Menezes, Benetti Nascimento, Nubem Bonfim, Dida Araújo, Fernando Sávio, Carlos França, eu e alguns mais. E paramos.
Eu editava o “Bom Dia” e me dividia ainda com a sucursal da Tribuna da Bahia, a brava Folha da Praia, a Secom da Prefeitura e a militância no sindicato. Era diretor de jornalismo um dos últimos profissionais locais a desempenhar esta função na TV Sergipe, Nilson Socorro, cuja carreira pública posterior, como secretário de Educação, acabou ofuscando o excelente jornalista experimentado em jornais e TVs. Nilson era um daqueles alvos costumeiros da esquerdinha em moda, que em todos pespegava desqualificações como “de direita”, ou “franquista”.

As tintas da TV Sergipe
Quando fui trabalhar no morro da Piçarra, uma aura de comunista rotulava alguns profissionais de nossa imprensa: eu, Cláudio Nunes, Adiberto Souza, Gilvan Manoel, Marcos Cardoso, Eugênio Nascimento, Milton Alves, José Araújo, Sebastião Figueiredo e outros que, pela capacidade profissional, trabalhavam em qualquer redação, mas com extremas reservas dos patrões. Nilson até hoje conta uma historinha sobre minha admissão, quando o então superintendente da TV, César Franco, resistiu veementemente: “Mas esse é um comunista”. O diretor de jornalismo, malandro escolado, usou as armas que tinha: “Deixe esse rapaz comigo, doutor César, que eu coloco tinta azul nas máquinas em que ele escrever o jornal”.
De fato, Nilson Socorro nunca levantou as bandeiras da esquerda e se aproximou delas quando o PT se coligou com ( não de direita, claro!) Albano Franco. Mas exibia, no seu trabalho, uma dignidade jamais vista naquelas barbichas que varavam madrugadas na “militância” do barGosto gostoso”. Entre diretor sindical e editor do Bom Dia, acertei com Nilson que íamos aderir à greve, quer dizer, acatá-la e, portanto, não haveria programa.

O “Bom Dia” da greve
De manhãzinha, com a frente do Canal 4 tomada pelas lideranças de então (lembro bem do ex-deputado Ismael Silva, do amigo José Araújo, de Nildomar (Nildão) Freire, Edvaldo Nogueira, Samarone, Paulão da CUT, entre outros), me empolguei com o movimento. Longe do olhar do meu chefe, traí o acordo e resolvi, por conta própria, fazer o programa. E fiz, umBom Diainteiro dedicado à greve, com um desfile das principais lideranças sindicais. A peraltice quase custou minha cabeça. Nilson novamente se desdobrou para me manter na função, contra a vontade do “doutor” César.
Consegui me equilibrar entre “a TV dos Franco” e a militância sindical, enfrentando, na redação, a fúria do colega Adalvo Fernandes, que subia em cadeiras para pronunciar verdadeiros discursos contra a esquerdização da emissora. Adalvo, este sim, era um direitoso assumido, barulhento na sua voz trovejante, mas afetuoso no trato. Fiquei no canal até 1990, quando parti para novo desafio na TV Difusora do Maranhão. A redação da TV Sergipe de ontem, com sua primavera de abril, mostrou que a história também se repete com beleza e bravura.
  

2 comentários:

Folha da disse...

Belo depoimento,resgatando a história do jornalismo digno que sempre se fez por aqui. Amaral

sonia pedrosa disse...

concordo com Amaral!