sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

A incrível história do gato Tom (Uma historinha para a internet em cinco capítulos)

Capítulo 1
Era começo de dezembro de 2015. Eu chegava em casa no final do dia e, ao me dirigir à porta principal, dou com uma algaravia de gatos em estado de extrema excitação, entre miados, grunhidos, papos e sopapos, enfim, uma incontornável divergência instalada entre os bichanos. Eram uns dez, pelo menos. Enquanto tangia a gataria com ameaças de tapas e pontapés, um bebê de poucos dias afastou-se da bagunça e conseguiu entrar comigo em casa. Eu, que jamais prestara atenção no focinho de um gato, constatei: era lindo! Bonito e manso, o desprotegido filhote que, a ver pela indiferença dele em relação ao bando, e vice-versa, estava no mundo sem pai nem mãe. O ambiente era tão hostil que, vá lá, o pobre gatinho viu na minha carranca a possibilidade de um abrigo, quiçá, num verdadeiro milagre, um pires de leite.
Foi o que fiz. Comovido com tamanho abandono, e já tocado pela ternura do pobrezinho, arrumei um vasinho de leite para o sem terra, sem lar e sem família. Para quem vinha de uma guerra civil de gatos, tava no lucro, de modo que não deu outra: resolveu ficar. Antes de seguirmos adiante, preciso dizer de minha anterior relação com animais, ou, para ser justo, a ausência dessa. Como meus pais jamais gostaram de chamego com gatos ou cachorros, fomos criados sem a presença desses bichos, situação que favorece até uma certa repulsa, se não a indiferença. Adulto, já dono dos meus terreiros, passei a vida lutando contra a invasão dos gatos do meu condomínio à minha casa, santuário da racionalidade e lugar de todas as práticas humanas, menos as animais.
Capítulo 2
Ficou célebre meu combate às centenas de gatos que sempre provoaram o condomínio, improvisando armas que foram desde o uso de baleadeiras, cujas balas eram as castanhas dos pequenos cajus desta celebridade aracajuana que vem a ser meu cajueiro, tão famoso que só falta ganhar um nome. Um chicote, que no tempo de menino chamavam de “macaca”. E fogos, muitos e variados fogos. Em geral, os traques “bebés” ou o antigo Peido de Véio, mas umas vezes eu comprei aquelas pistolas com vários tiros, até que, num dia de batalha cerrada contra os invasores, detonei um foguete e mirei pelo lado errado. Como estava praticamente encostado à parede, as bombas bateram na parede e explodiram sobre este ex-quase-criminoso. Até hoje carrego uma cicatriz no braço esquerdo, graças à minha imperícia na elementar operação para soltar uma pistola.
Desisti das bombas, mantive o traque Bebé, mas, volta e meia, experimentava a cara feia de algum vizinho, incomodado pelos papocos que eles - não eu, claro – julgavam impróprios para certos horários. Daí apelei para o Chumbinho, veneno falsamente proibido, posto que o que mais se ouve quando estamos no Mercado de Aracaju são as ofertas de “chumbinho para matar ratos”. Chumbinho para matar gatos, pensei eu, de dentro de minha maldade. Cheguei a comprar três vezes, e em todas elas o carregamento foi jogado fora. Numa das vezes, instalou-se em casa uma verdadeira discussão filosófica entre mim e a eterna “funcionária” Geudice (não é assim que a classe média se refere às “trabalhadoras do lar”? – ops, outro eufemismo!) Geudice, do alto de sua incontestável autoridade, tipo mais moral que o dono da casa, disse logo: “Eu não boto. Matar gato dá sete anos de azar”. Eram nove, na época, os bichanos cujas almas eu encomendara ao diabo. Tentei negociar: “Mas você será só a executora. São quatro anos de azar para o mandante e três para o executor”. Ela fez as contas: três vezes nove, 27 anos só pra ela. “Sem comércio!”, bradou a poderosa Geudice, encerrando a questão. Como meu coração mole não sobreviveria ao sofrimento dos gatos, dispensei a arma química para sempre.
Capítulo 3
Noutro tempo, um vizinho meio psicopata, policial federal, tinha muito mais aversão aos gatos do que eu. Na verdade, tinha verdadeira obsessão. Certa vez, gastávamos um sábado entre os vapores do álcool na sua varanda quando uns gatos se aproximaram para ximar uns restos de churrasco. Ele imediatamente foi tomado pela cólera e, nem sei de onde, sacou de dentro de suas roupas um pequeno e brilhante revólver que minha completa ignorância em armas supunha ser um 22. Se eu já estava incrédulo, fiquei sem palavras quando ele apontou o revólver e disparou uns cinco ou seis tiros no infeliz animalzinho, na verdade um sortudo, porque a péssima pontaria do policial (péssima pontaria do policial: olhe eu aí de novo com minhas aliterações) fez com que nenhum disparo o atingisse.
O susto serviu para que eu encerrasse essa beligerante relação com os bichanos, embora ainda seguíssemos cada qual no seu quadrado. Até que... até que o Tom entrasse em minha vida. Sim, porque vocês viram que rolou um clima, tipo amor à primeira vista. Tom não só dormiu aquela primeira noite, como nas noites seguintes, salvo as trágicas vezes em que o destino nos afastou – mas essa é uma história para os capítulos finais. Fui me afeiçoando pelo órfão, certo de que ele me havia tomado por pai e mãe. Logo, dei-lhe o nome: Tom, desenho animado de minha adolescência, o herói mau caráter que o mundo inteiro curtiu.
Ora, se eu não entendia xongas de gatos, porque diabos ia saber que existem gatos machos e gatas fêmeas? Pois meu novo amigo, ou filho, era uma gata, com tetinhas e xibiu. Animal extremamente popular no Sol e Mar III, logo vieram me notificar de sua condição feminina. Mas aí Inês já era morta. Ficou Tom, Tom Souza Correia, e pronto. Mesmo porque, nesse mundo politicamente correto, com a geração trans incorporando direitos e conquistas, qual a importância de uma inocente gatinha se chamar Tom? Na UFS, tenho alunos que vestem saias longas, com penteados cocó, batom vermelho e unhas pintadas de roxo. Pela fidelidade ao conjunto da obra, imagino que também vestem calcinhas. Mas deixemos meus alunos em paz, que não quero confusão com essas pestes briguentas...
Capítulo 4
A partir daí nosso amor foi crescendo, fazendo com que eu sentisse saudade quando passava um dia sem vê-lo. Nos fins de semana, quando vou visitar a avó de Tom em Itabaiana, Dona Afra, ele fica entregue à vida mundana. Na volta, vejo logo as manias feias que aprende com os gatos de rua. Coisa imprópria para um gato aristocrático, de pelagem rara e olhar luminoso, digno de capa da National Geographic. Tom é um gato de personalidade, temperamento forte e opiniões definitivas. Vem dele as poucas críticas dirigidas à mulher que manda lá em casa, Aline, a popular Bebê. Bebê é uma santa, em paciência e virtudes, mas, mesmo assim, o gato Tom sempre acha alguma coisinha para reclamar. Eu, obediente e fiel, faço cara de paisagem.
Mas, mesmo nas histórias sobre animaizinhos, a felicidade não dura para sempre. A minha durou até o domingo fatídico em que a família do caseiro de uma propriedade em frente o achou muito engraçadinho e resolveu roubá-lo. Desde que demos pelo sumiço, eu e a Bebê ficamos inconsoláveis. Contratei os serviços dos detetives Miúdo, Dija, Tonho e Nô, amigos funcionários do condomínio, que empreenderam minuciosa caçada pelas redondezas, até que eu mesmo desse com os costados na casa dos amigos do alheio. Já ia armando um barraco, mas, quando vi a filha do caseiro nervosa explicando porque levara o gatinho, desarmei o espírito. E o dito ficou pelo não dito.
Capítulo 5
A segunda agonia veio em novembro passado, quando eu decidira, depois de muitos anos sem saber o que são 30 dias de férias, passar todo o mês na Europa, perambulando pelos meus botecos e cafés de Espanha, Portugal e Andorra. Na terceira semana, com a metade de minha programação ainda por cumprir, sou fulminado pela notícia de um novo sumiço. A Bebê já ligou aos soluços, para que tenham uma ideia da tragédia que se abateu sobre aquele lar que um dia se chamou felicidade. Foi um alvoroço, conforme denunciado aqui na delegacia policial do Feicebuque. Quando, três dias depois, Tom reapareceu do nada, assustado e faminto, eu já gastara o resto do meu dinheiro com uma nova passagem, já que a remarcação da volta resultaria mais caro. A propósito, um anti-comercial: a pior companhia aérea do mundo atende pelo nome de Air Europa.
Dias depois vivemos novo infortúnio, com a suspeita de que nosso Tom estivesse com raiva. Após gastar outra pequena fortuna na clínica da Pio X, só depois de alguns maços de reais os veterinários de plantão concluíram que, na verdade, Tom estava no cio. Os “doutores”, como os pais, esqueceram que Tom era uma fêmea na fina flor dos maus pensamentos.
Desde então, Tom segue sendo a alegria do lar, ora exigindo o luxo que nem os pais ostentam, ora armando crises de ciúme, outras vezes querendo impor suas vontades a todo custo. Um gato maduro, de um ano e dois meses, senhor de si, o rei do pedaço.
The end


sábado, 7 de janeiro de 2017

A bruma leve da aurora de nossas vidas


Éramos três, os três mosqueteiros, no dizer do “seu” Siqueira, o festeiro e gentil senhor que vinha a ser o pai de Berlange, Solange, Sirlange, Blanar, Bismarck, Berilo e Shirleide. Seu Siqueira era um classe média de minha adolescência em Itabaiana, funcionário do SESP, sócio dos clubes da cidade, animador de carnaval, bom de bico e de frevo. Nossas famílias eram amigas, laços fortalecidos pelo fato de Solange ser colega de sala de minha irmã mais velha, Marise e eu por ser colega de Blanar nos seis dos sete anos que estudamos no Murilo Braga. Ele foi meu primeiro amigo de Itabaiana. Lembro que deixamos Macambira em novembro de 1971 e viemos morar em Itabaiana justamente para que eu e meus cinco irmãos pudéssemos estudar.

Naquelas tardes tristonhas de dezembro de 71 eu perambulava pelos vários campinhos de grama e areia que circundavam o estádio Presidente Médici em busca de uma pelada de meninos mais fracos que me aceitassem “na linha”, porque pra jogar de goleiro eu preferia não jogar. Foi ali que conheci um menino introspectivo, tão inteligente quanto esquisito para sua pouca idade, meses mais velho do que eu. Desde a primeira pelada, ficamos amigos para sempre, uma amizade de irmãos que assistiu crescermos acompanhando a vida um do outro, desde as primeiras paqueras, casamento, filhos, viagens e aventuras. E música, muita música pontilhando desde sempre, inclusive com incursões por bandas, que naquela época chamavam de “Conjunto”. Foi numa dessas que minha total falta de ridículo me fez subir no palco da Associação Atlética para tocar um tambor. A música era “Black Côco”, uma cujo refrão cantava “Black coco/Black coco tá”.

Blanar desenhava como ninguém mais da minha geração, só perseguido por outro garoto com cara de cientista maluco, Vicente de Cajuzinha. Desenhou réplicas de todos os carros de Fórmula 1 da temporada de 1972 para jogarmos uma espécie de ludo montado numa pista de corrida, gastando as tardes que deveriam ser de estudo entre o ronco dos motores, produzido pelas nossas gargantas, com direito a narração minha. Eu, nacionalista que sempre fui, torcia pelo Emerson Fittipaldi, enquanto ele, amante da música estrangeira, era fã de Jackie Stewart, o escocês voador, nome que ele emprestou para pôr no filho mais velho. Depois veio o Ajax, o timinho da turma do Murilo, um time “de camisa”, como se dizia na época, com números e escudos pintados pelo nosso pintor oficial. Blanar também chegou na fase de pintar quadros, alguns muito bonitos, e de ilustrações que lembravam, mesmo naquela isolada Itabaiana dos 70, as imagens de Salvador Dali, que só conheceríamos muitos anos depois.

Daí veio o terceiro mosqueteiro, o menino Marcos, vindo de Aracaju, o rico – para os padrões locais – filho do seu Edmundo da Padaria. Marcos, intelectual precoce, de raciocínio rápido e ousado, montou alguns dos mirabolantes planos que executamos naquela aurora de nossas vidas. Como num sábado em que fomos para um casamento em Penedo e, por não termos gostado da festa, voltamos na mesma noite para alcançarmos o baile da Atlética. O Opala vermelho do pai de Marcos travou a marcha na terceira (acho que chamavam esse defeito de “encavalou”, algo assim, sei lá...) e viemos na terceira desde a bela cidade histórica alagoana, inclusive para subir e descer da balsa. Chegamos na serra ainda a tempo de tomar umas tabocas, como se chamava então a recusa das meninas em ir dançar com cavalheiros de nossa estirpe. De Alagoas a Sergipe, Opala voando guiado por um jovem motorista de ... 15 anos.

Noutra feita, em pleno carnaval de 1978, fomos “tomar cachaça” em Frei Paulo, famosa na época pela beleza das mulheres, que nossa juventude maldosa e boca suja dizia ser as mais safadas da região. Contávamos todos, eu, Blanar, Marcos, Tonho de Zé Meu Mano, Jorge Madalena e Francisco, 17 anos, mais ou menos. Nessa época Frei Paulo tinha um delegado maluco, um doente mental com fama de valente e arbitrário. Logo estávamos bem instalados num bar de esquina da aprazível Frei Paulo, cada um empunhando um instrumento, eu apanhando de um tamborim. Minhas habilidades com baquetas vinha desde a banda marcial do Murilo Braga, três anos consecutivos tocando caixa, que, na hierarquia das bandas de música, vinha a ser muito superior aos simplórios tocadores da marcação.

Eis que o vigor com que cantamos o refrão chamou a atenção do delegado psicopata, que, para nosso incrível azar, passava nessa hora pela porta do boteco. “Bota a mão nas cadeiras/Oba/ Bota a mão nas coxinhas/ Oba / Bota a mão no lê lê lê / Cadê você? Olhe eu aí/ Cadê você? Olhe eu aí”. Não tivemos tempo de ir além da mão no “lê lê lê”, porque o brutamontes invadiu o bar bradando impropérios e safanões. Meu castigo veio do meu próprio instrumento: tomou-me as baquetas e em seguida me surrou violentamente. Depois, mais calmo – se é que um homem desses tinha momentos de lucidez – parou com a pancadaria, mas cumpriu sua promessa: levou Blanar preso. Imaginem minha dificuldade em explicar ao seu Siqueira que seu filho estava preso na cadeia de Frei Paulo.

Desse tempo ainda guardo as tardes e noites perdidas para preenchermos, anualmente, a importante lista das meninas mais bonitas de Itabaiana. Era uma lista minuciosa, cheia de critérios técnicos e estéticos, num refinamento que fez Blanar, achando pouco a lista das mais mais, criar uma espécie de Segundona, o time B das minas mais guapas da serra. No total davam umas cem garotas, que, à falta do nome correto, a gente nomeava com designativos interessantes, nomes como "A menina da praça" ou "A garota da bicicleta vermelha". Foi nesse mesmo tempo que criamos, no Murilo Braga, o jornal Cebolão, em mimeógrafo, que chegou a tirar 1.200 exemplares e nos rendia alguns trocados. Foi com essa renda que comprei, para desgraça da música, meu primeiro e único violão (o segundo, e atual, foi roubado de Paulo Lobo, que o roubou do saudoso Neri, mas essa já é outra história).

Nesse pequeno violão Giannini eu aprendi algo como umas 50 músicas, a obra de Belchior, algumas de Caetano, coisas que o canalha do tempo me fez esquecer, para sorte dos ouvidos próximos. Com a mesma mijorna amealhada com a venda de jornais também fomos a passeios a Propriá, terra natal de Blanar e, no nosso arroubo mais arrojado, a Maceió, para marcar nossa primeira saída do estado de Sergipe.
Blanar depois enveredou pelas filmagens, um dos primeiros que fez isso em Aracaju nos anos 80, inclusive ganhado um dinheirinho, para reforçar a renda de funcionário do Banco do Brasil. Em 1985, na formatura de Papai em Letras pela UFS, enquanto eu e toda a família nos emocionávamos com aquela imagem de um pai quase sessentão vestindo beca, Blanar irrompeu na quadra do ginásio Constâncio Vieira para documentar essa que foi, sem dúvidas, uma das datas mais memoráveis da família de João Correia.

São muitas histórias e lembranças que eu não teria condições de trazê-las aqui, como do tempo em que, nas noites de São João, por não termos nenhum programa mais interessante, percorríamos as ruas de Itabaiana, do centro à periferia, vendo as festas e fogueiras das famílias (festas e fogueiras das famílias? Estou copiando o mestre Cabrera Infante, rei absoluto das aliterações?). Programa bobo, simples e sem nada mais marcante, além da alegria das pessoas em volta das fogueiras. E para que essa história aí não termine tão insossa, surge, num dos anos em que repetimos a peregrinação junina, a figura do viado Zé Baixinho. Escrevo assim porque, naquele tempo, sem a incorporação do politicamente correto ao cotidiano, era comum as pessoas se referirem assim aos célebres homossexuais que alegravam suas cidades. Pois num desses nossos passeios Blanar, que, como eu, tinha o hoje feio costume de cuspir e escarrar, escarrou justo na hora em que passávamos pelo temperamental Zé Baixinho, um homossexual  forte e valente, acostumado a bater em muito homem, quebrando, portanto, a crença no afeminado molenga. Pois não deu pra ninguém. Zé não teve tempo ou coragem de resolver a parada na hora, mas em outra ocasião, ao me encontrar na rua, não se furtou de advertir, na sua forte gagueira: “Diga àquele filho de Siqueira que eu quebro ele todo da próxima vez que ele cuspir quando eu passar”.

Blanar foi trabalhar pela última vez em 29 de dezembro passado, dia de sua aposentadoria no Banco do Brasil, onde deixou incontáveis amigos. Só conseguiu cumprir parte da jornada, porque não se sentia bem. Viajou com a esposa Edilene no reveilon e, novamente, teve problemas de saúde. Foi para um hospital e, ao chegar, foi logo transferido para a UTI. Na manhã de ontem, sexta feira, 6 de janeiro, não resistiu à virulência de um linfoma e foi embora com estas e outras histórias minhas. Não tenho a menor dúvida de que também comecei a morrer a partir de ontem.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

O grotesco debate sobre a chegada do Uber em Aracaju

Sergipe é um estado autista, com respeito aos portadores desse problema, no sentido de um isolamento burro e renitente em relação ao mundo, afinal, não há nada meritório em remar contra as marés. Hoje pela manhã, a bizarra esfera pública formada pelos programas de rádio locais empreendeu uma vigorosa resistência à implantação do serviço do Uber em Aracaju. A narrativa dos âncoras, os comentários dos selecionados participantes e os depoimentos das servis autoridades ilustraram um espetáculo lastimável, digno da saudosa Sucupira de Dias Gomes.


Nas emissoras, taxistas e representantes deles desfilaram todo tipo de violência verbal e, pelo menos em um caso, ameaça física de invasão e depredação do prédio da Câmara de Vereadores. Violência mesmo, até agora, cometeu a Câmara de Aracaju e seus 21 omissos vereadores, que, no ano passado, na contramão do que acontece no mundo civilizado, aprovaram a proibição do Uber, ou quaisquer aplicativos equivalentes, de servir à população com um serviço comprovadamente melhor e muito mais barato. Se tivéssemos uma imprensa minimamente independente, cabia perguntar a troco de quê tais vereadores, incluindo os que se dizem progressistas, votaram a favor dos mesquinhos interesses corporativos, contra os da maioria da população.


Mas o capítulo mais grotesco foi protagonizado justamente pelo órgão municipal de trânsito, a SMTT. Antes, um parêntese: nos últimos quatro anos Aracaju viveu a pior gestão dos últimos 50 anos, uma verdadeira tragédia social que deixou acéfala a prestação de serviços básicos nas áreas de saúde, manutenção da malha viária, fiscalização e funcionamento de feiras, limpeza das ruas, iluminação pública, vigilância sanitária etc. Nunca houve tamanho abandono, omissão e conivência como na deletéria administração prefeito João Alves, isso pra dizer o mínimo. Mas foi justamente no enfrentamento de um dos maiores problemas das cidades, o da mobilidade, que esse governo irresponsável abusou da incompetência e má fé. Desde o primeiro dia, e numa proporção que avançou desgraçadamente rumo ao caos completo, a SMTT não cumpriu sua principal função, de fiscalizar o funcionamento do trânsito e coibir infratores. Em Aracaju impera o caos e a impunidade, contra um sistema que, malandra e maldosamente, só cuidou, nos quatro terríveis anos, de otimizar a aplicação e cobrança de sanções, a velha conhecida indústria de multas.


Pois partiu da SMTT, na voz de sua risível assessoria, ir a público brandir ameaças de prisão e multas aos motoristas do Uber, qualificando-os ainda de criminosos (claro: se há uma lei da Câmara proibindo o serviço, logicamente a insistência resulta em crime), numa insólita e repentina manifestação de legalismo, justamente por quem se omitiu de cumprir as mais elementares leis do trânsito por quatro anos. Por fim, para piorar o que piorado estava, pediu o apoio da população para denunciar a presença do Uber na cidade. Ora, eis aí a melhor e irrefutável prova do descolamento da administração municipal e os desejos da população. Apoio! O povo quer é o Uber, quer quebrar a panelinha corporativista dos taxistas que prestam um péssimo serviço, a preços de primeiro mundo.


Se alguém tivesse de quebrar qualquer coisa nessa hora, se fosse civilizado quebrá-las, seriam justamente os exploradores do Uber e uma população desejosa de respeito, quebrar as indecentes panelinhas de uma omissa, cúmplice e atrasada Câmara Municipal. Esta, senhores e senhoras autoridades do trânsito e excelências da Câmara, é uma causa perdida desde ontem, quando, só nas primeiras horas, mais de 20 mil se inscreveram para explorar o novo serviço. Nunca é demais citar aquela imagem do carro alegre da História, que atropela indiferente todo aquele que a negue.

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Uma nova esfera pública

"Depois do surgimento da web, na metade dos anos 1990, não houve grande mutação técnica, somente uma profusão de pequenas evoluções e progressos. No plano sociopolítico, o grande salto me parece ser a passagem de uma esfera pública dominada pelos jornais, pelo rádio e pela televisão para uma esfera pública centrada nas “wikis", nos blogs, nas redes sociais e nos sistemas de moderação de conteúdos onde todo mundo pode se exprimir. Isso significa o começo do fim do monopólio intelectual dos jornalistas, dos editores, dos políticos e dos professores. Um novo equilíbrio ainda não foi alcançado, mas o velho sistema dominante está em franca erosão."
Pierre Lévy, filósofo francês estudioso da cultura virtual contemporânea, em entrevista ao Fronteiras do Pensamento


quinta-feira, 24 de março de 2016

Não existe o lado bom e o lado mau na crise brasileira

O golpe começa, primeiramente, pela Globo

A manchete do Bom Dia Brasil: "STF reage à declaração de Dilma de que o impeachment é golpe".
A matéria. Duas falas, duas tão somente, de Dias Tóffoli e de Carmen Lúcia. Ambas as falas são pontuais: impeachment é previsto em lei, portanto, não é golpe.

A declaração da Dilma, na véspera: o impeachment, na forma sistemática com que tem sido referida, sem acusações formais e concretas, é um golpe.
O que fez a Globo. Omitiu nas entrevistas com os ministros do STF as observações da presidente, fundamentais ao contexto, resultando em perguntas secas, descontextualizadas. Algo como: "a presidente disse que impeachment é golpe. O que o sr. (ou sra.) acha disso?" Isto, sim, é golpe. É falseamento da realidade, omissão deliberada e criminosa. Manipulação, desonestidade, parcialidade. Violação da democracia.

Não fui à manifestação do dia 18 porque, como se viu nas fotos, as comissões de frente são parte do problema. Minha atitude é clara: defender a democracia. Mas os desmandos, roubalheira e incompetência devem ser punidos, sem perdão. Os partidos envolvidos na trama deverão sucumbir, primeiramente, pelo voto do eleitor, afinal, o voto é a base da democracia. Ou não? Ou só vale a "minha" ideia de democracia? As ações na justiça devem prosseguir e justiçar os responsáveis, mas de forma limpa e honesta, simétrica e não seletiva. Não é o que ocorre. Assim, enquanto isso não for reparado, O GOLPE TAMBÉM É DA JUSTIÇA!

Votei em Dilma porque não havia nome menos pior. Já sabia da barafunda que se avizinhava. Fui num ato público de apoio em Aracaju às vésperas do segundo turno. Não que o personalismo, a energia e a oratória de uma pessoa indistintamente sejam fundamentais à capacidade de governar. Mas governar é exercer liderança com sutil habilidade, coisa que a postura dispersiva e vazia da presidente deixava a desejar. Como disse, votei na alternativa possível, meu voto útil para não favorecer a bandalheira de sempre, os 40 mil vezes 40 ladrões liderados pela iniquidade que atende pelo nome de Aécio Neves. Agora eu, como outros 54 milhões de eleitores, teremos de aguentar este governo inepto, vacilante, covarde. Os 48% que votaram em Aécio terão que aguardar, porque este número é minoria, embora apertada. Desconsiderar isto é golpe. É quebrar as regras, se o Brasil quiser funcionando dentro das regras e ser considerado, ainda, um país civilizado.

O impeachment com denúncia procedente está previsto em Lei - e nem precisa perguntar a ninguém, porque está na letra da Lei. Se houver indícios, que se apure e se cumpram os ritos, até a decisão final. Sem isto, é golpe! E para um golpe só a energia das ruas para decidir.

Dilma não tem mais condição de governar com o governo que montou, porque sem apoio e legitimidade. Mas a renúncia só agravaria a crise institucional. A solução é um governo de coalizão. Juntar os cacos que sobraram dessa frágil democracia, invocar a governabilidade e, aí sim, fazer um governo pensando nos 48% insatisfeitos. Todas as alternativas anteriores à solução só vão aprofundar a divisão do país, com riscos imprevisíveis.

A saída é política e com os políticos. O Congresso está apodrecido, mas tem que ser de dentro dele a solução. Negar o Congresso porque é podre é uma mentira. TODOS os setores da sociedade brasileira, TODOS ELES, até os clubes de mães e das meninas virgens de 15 anos estão apodrecidos. NINGUÉM tem autoridade política ou moral para atirar mais lama nos políticos brasileiros. Como dizia o poeta Cazuza, "somos todos iguais em desgraça".


quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Especial TV Alese sobre José Carlos Teixeira

Especial sobre o ex-prefeito de Aracaju, ex-deputado e ex-vice-governador José Carlos Teixeira na TV Alese


https://www.youtube.com/watch?v=p7TuSHvgLKU

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Entrevista com Tom Zé

Em 2003, fiz essa entrevista com o cantor/compositor Tom Zé para a Rádio UFS On Line (ainda um projeto da atual emissora, só na net), por telefone. Tom Zé se preparava para uma apresentação em Aracaju, por ocasião dos 35 anos da UFS. A entrevista também foi publicada no jornal Cinform.


Luciano – Tom, como está a saúde?

Tom Zé – (Solta uma longa risada). Contente de ouvir esta voz nordestina... Ah, (a saúde) tá ótima. O coração ficou perfeito.

Luciano – Tom, aqui é o Luciano Correia, da Rádio UFS On Line, de Aracaju. Você inclusive vai estar aqui nos dias 9 e 10 de dezembro...

Tom – Por isso a alegria é dupla: finalmente eu vou a Aracaju.

Luciano – Uma coisa curiosa: você primeiro encantou lá fora, depois de ter passado cerca de 20 anos praticamente no ostracismo, por fazer uma música considerada difícil. Como é que você encara esta extraordinária que seu trabalho alcançou aqui, somente depois de reconhecido lá fora?

Tom – Tem um episódio que explica um pouco o que você tá perguntando e que aconteceu aí vizinho de vocês no Recife, no “Abril Pro Rock” de 1998, uma coisa curiosa. Eu ainda era considerado um compositor “de elite”, meio difícil e tal... Foi no encerramento... Eu, um artista de elite, vou cantar, entro no palco. Não deu tempo tirar as 8.500 pessoas que estavam lá para botar 8.500 intelectuais, não sei nem se tinha isso no Recife. O fato é que eu cantei pra o mesmo público de todo mundo. E aí, na hora em que eu fiz um sucesso danado  e que o público não queria que eu saísse do palco e que não deixava outra banda subir e o diabo, como a imprensa toda do Brasil estava presente lá, nessa noite acabou-se o mito do artista difícil e nasceu um cantor popular que tá agora falando aqui na Rádio UFS de Sergipe e de Aracaju para o Luciano, graças a Deus.

Luciano – Mas você ainda não realizou um sonho, que é cantar nas rodoviárias e nos cabarés... (ele interrompe com uma gargalhada, surpreso com a citação aos cabarés, presente em algumas das matérias e releases que divulgam sua obra na internet)

Tom – Tá bom, tá bom, nos cabarés eu não tinha botado, não, mas é uma ótima idéia. Quando eu era pequeno frequentava cabarés em Irará e – ave Maria! – tocar lá seria uma glória.

Luciano – Aliás, como foi essa história de só ter conhecido uma lâmpada aos 13 anos de idade?

Tom – Bom, querido, aí em Aracaju naturalmente são capital e são muito mais jovens que eu. Eu nasci em 1936 e nessa época Irará era a Idade Média, cidade muito pequena do interior da Bahia. Eram 13 mil almas vivendo ali, sem nenhum automóvel, nenhum motor, nenhum caminhão, nenhum barulho que fosse da civilização. Então todas as relações, de trabalho, familiares, aquilo era uma Idade Média em todos os sentidos. E um belo dia uma família rica de Feira de Santana construiu três casas em Irará, antes de chegar a energia elétrica, em 1950. Isso foi em 47, 48. E então eles puseram luz elétrica e um dia, na casa do farmacêutico, minha mãe e eu íamos descendo para casa e a mulher do farmacêutico chamou a gente e nos sentou naquela varanda. E acendeu uma lâmpada pra gente ver a luz elétrica: nossa senhora! Realmente, uma lâmpada daquela, límpida, absolutamente clara, sem nada que manchasse a clareza da luz quem parecia que vinha do próprio Paraíso. Parece que naquela hora morreram a mula sem cabeça, o lobisomem, a caipora, todos os monstros de assombração da minha infância, porque naquele tempo a noite era o sítio do medo, era a hora de ter medo para as crianças.

Luciano – E isso não te provocou também um desencanto?

Tom – Cada elemento da civilização, o cinema, a torneira... A torneira ainda é uma coisa mais fantástica. Você é acostumado a pegar água a três, quatro quilômetros da cidade e o pessoal com jegues ia lá com quatro barris e traziam pra minha casa, que era uma casa grande, botava numa talha  e então tínhamos água para beber a semana toda. Por que a água pra tomar banho e lavar roupa era de uma cisterna cavada no fundo da casa. Então um belo dia eu fui numa casa em Salvador e aí minha tia disse: “lave o rosto ali”. Eu olhei pra aquela pia vazia e pensei “como é que vou lavar o rosto ali?” Ela mandou abrir a torneira e eu vi aquele negócio com aquele biquinho lá em cima, mas não podia imaginar que aquilo é o que se chama de torneira. Quando ela abriu que aquilo saiu água de dentro, era como se a fonte da nação tivesse andado até dentro de minha casa... um verdadeiro milagre. E na hora que eu acabei ela disse: “Feche, feche a torneira”. Aí eu já me arrisquei e fechei totalmente e vi que a fonte desapareceu. Que coisa mais mágica! Coisa de conto de fadas. Assim foi tudo da civilização na minha vida, tudo, o mar, as ruas, o calçamento das ruas... o próprio alfabeto. Nossa senhora!, o alfabeto pra entrar na minha vida foi uma coisa fantástica. Aliás, aí perto de vocês, em Sergipe... ou Alagoas, tem um dos melhores escritores do Brasil que é  o ... (demora a lembrar o nome)

Luciano – Graciliano Ramos...

Tom – O Graciliano, que fala também da infância dele de maneira maravilhosa. Ele é de Aracaju ou de...

Luciano – Não, ele é Quebrangulo, na época povoado pertencente a Palmeira dos Índios, Alagoas, onde foi prefeito...

Tom –  É, isso mesmo. O contato dele com o alfabeto também foi uma coisa fantástica... Eu estou contando isso para os jovens procurarem ler o livro dele sobre isso, que é uma maravilha. Agora, eu também estou lançando um livro, o “Tropicalista Lenta Luta”, que fala de como eu, na infância, me metendo a fazer música, me deparei com uma realidade trágica: o fato de eu não ser bom compositor, como não sou até hoje; não ser bom cantor, como não sou até hoje; e não ser bom instrumentista, como não sou até hoje. Foram dessas deficiências que eu construí o caminho que tá me permitindo falar agora na Rádio UFS...

Luciano – Agora, você encontrou um Rio ou São Paulo supostamente modernizado, já com a torneira e a luz há muito tempo. Mas musicalmente esse “Sul maravilha” vivia na Idade Média também... (ele corta e diz que não). Mas o tropicalismo não é também um rompimento com essa Idade Média, não é a luz que acende...

Tom – É, você pode considerar isso, porque aqui estava chegando a terceira revolução industrial, tava chegando a automação do computador e dessa multiplicação da força humana já diferente da multiplicação que as máquinas permitiam, que foram as 1as e 2as revoluções industriais. Mas na terceira revolução realmente o computador ainda estava chegando aqui. Em 1968, para caber os computadores que existiam em São Paulo era preciso fazer uma sala enorme para entrar aquele monstro...

Luciano – Era o “cérebro eletrônico”...

Luciano – Sim, isso, o cérebro eletrônico. Mas o Tropicalismo realmente colaborou para criar uma disposição, uma aceitação do mundo novo, isto criou. Mas no que se referia à minha saída da Idade Média pra música que fiz até 1960, era realmente um rompimento de espaços transoceânicos, no sentido de trans-seculares, de espaços trans-seculares. Mas a partir de Salvador, em 1949, quando eu fui estudar lá, era uma cidade de 400 mil habitantes. Hoje você sabe que tem 2  ou 3 milhões...

Luciano – Três milhões, é a terceira cidade brasileira hoje...

Tom – Você vê que loucura... Então era uma cidade provinciana. Quando passava um automóvel na rua você dizia “lá vai o doutor Fulano”. Os automóveis eram conhecidos pelos donos. Hoje nem cidade do interior mais goza dessa coisa bucólica.

Luciano – Você diz que não se considera bom compositor nem cantor até hoje ... (ele corta)

Tom – Ora, (com ênfase) eu não sou! Eu não me considero: eu não sou! Eu construí um caminho e um sucesso, principalmente no exterior, fora da estrada que era palmilhada pela boa música, pela boa voz, pelo bom instrumentista.

Luciano – Você tem uma voz belíssima, Tom.

Tom – Bom, hoje em dia já pode admitir, é claro, que eu aprendi um pouco a cantar, mas quando eu era jovem, pode perguntar às pessoas mais velhas da cidade (Irará) que anos 40 cantar não era o que  eu faço...  Cantar era uma coisa expressionista que necessitava de toda potência da voz, porque precisava ter potência de voz, e fazer aquela coisa superdramática e tal... Cantar não era o que é hoje.

Luciano – Mas eu ouvi hoje um dos seus primeiros discos e achei uma coisa linda, afinadíssima...

Tom – Hoje em dia, no universo que vivemos, esse tipo de coisa que eu faço pode ser chamada de cantar. Mas como eu tenho 67 anos e comecei a tentar fazer isso em 1950, naquele tempo o que eu faço hoje não era cantar. O verbo cantar não era pra essa atitude. Era a chamada voz de taquara rachada.

Luciano – E então a que você atribui sua explosão no mundo. O disco “The Best of Tom Zé” é considerado um dos 10 melhores do mundo, numa relação onde, em 150, nenhum outro brasileiro é citado...

Tom – É curioso isso. Eu passei por um ostracismo, por uma fase de completo esquecimento de1973 a 1990, quando este disco que você tem na mão foi lançado. Ele foi feito em 1990 e lançado pelo David Bowie nos Estados Unidos, mas os discos que contêm nele, dessa compilação, foram feitos em 1973 , chamava-se “Tom Zé Todos os olhos”, aquele que tem o ânus na capa (sic) e o outro chamou-se “Estudando o samba”, de 1976. Imagine que no Brasil, em 73 e 76 se fizeram dois discos que em 90 foram lançados juntos nos Estados Unidos. Esses dois discos juntos, feitos no Brasil na década de 70, na década de 90 foram escolhidos como um dos melhores 15 discos do mundo. Nossa Senhora, como esse Brasil faz música boa...

Luciano – Pois é, e nós temos Tom Jobim, temos tantos artistas que fazem sucesso lá fora e você tá muito à frente... (corta)

Tom – Não, eu não tou à frente. No caso de Jobim ele é realmente “um rei da bola”. Agora no exterior minha música circula com grande divulgação, com tapete vermelho e tal.

Luciano – Agora, a alegria de ser redescoberto no exterior não causou também uma certa tristeza por ter sido lá fora e não aqui?

Tom – Não, não. Quando você acha um colo materno, uma mãe para lhe acolher, isso pode ser do outro lado do mundo, no Japão, na China, na Cochinchina, em qualquer lugar você tá acolhido por uma mãe. Claro que quando eu voltei a poder  tocar no Brasil, a circular aqui, isso me deu uma alegria renovada. Mas na hora que você  está abandonado, que você está exposto, como se fala na Bíblia, isso vale como se fosse eternamente uma bênção.
 
Luciano – E agora a mãe Brasil tá lhe acolhendo muito bem, né?

Tom – Sem dúvida, o que é uma grande alegria, porque, afinal de contas, eu faço minha música para o Brasil. Todos os elementos da minha música são brasileiros, eu sou (com ênfase) sambista! Eu faço samba! Claro que é um samba bastante estranho, mas é samba. O curioso é isso: eu não faço rock, nem iê-iê-iê, nem diabo nem porra nenhuma. Eu faço samba e baião e tá acabado. E outra coisa: as pessoas que amam minha música no exterior amam uma música cantada em português, português da Bahia. Porque o pessoal pode pensar que a música vai pra lá traduzida. Não. Vai uma tradução na contracapa do disco, mas as músicas são em português. Eles amam a língua portuguesa através da gente.

Luciano – Em “Defeito de fabricação” (Cd lançado em 1998) você diz “A burrice está na mesa”. Isso tem a ver um pouco com esse Brasil de hoje? Você acha que há uma burrice até sendo majoritária em relação à inteligência que poderia trazer as soluções para os nossos problemas?

Tom – O Brasil é um país que tem  vocação para a pesquisa, para a descoberta, mas é muito pouco o dinheiro que as universidades recebem para a pesquisa séria. Entretanto, de vez em quando aparece um mulatinho aí no “Jornal Nacional” com o nome de Ferreira da Silva, José dos Santos, Maria das Dores, que acabaram de descobrir uma colaboração para a pesquisa que o mundo tá fazendo agora no genoma humano ou na engenharia genética. Então o Brasil tem vocação pra pesquisa. Mas existe uma intenção de lobotizar a população brasileira e isso agora é  mais obra da força do dinheiro internacional. Porque para se erradicar o analfabetismo aí no nosso Nordeste é muito difícil, porque o dinheiro que às vezes o próprio governo manda fica nas mãos dos coronéis. Então nós estamos acostumados com esses vícios. Enquanto os grandes interesses capitalistas ou empresas internacionais querem populações miseráveis, que não saibam nada, pra poder ter emprego miserável e ganhar uma miséria, nós também lutamos: nossa música, nossas emissoras de rádio, nossa imprensa... Muitas vezes até nossos governos lutam na direção contrária.

Luciano – E por falar na ascensão dos Silvas, esse Inácio da Silva que chegou no Palácio do Planalto, como é que você  está vendo o governo dele?

Tom – Eu costumo dizer que agora não sou mais pedra, sou governo. Porque eles acham que, como eu critico muito, sou um eterno anti-PT. Mentira, na verdade eu critico quando vejo que tem coisa que pode melhorar. Mas toda vida eu sou pelo lado mais ético, mais civilizado, mais responsável da política nacional, que naturalmente é o PT. Então agora eu não posso nem criticar mais. Quando o PT não era governo eu podia criticar até o próprio PT. Agora não.

Luciano – O período que você passou no ostracismo, passou dificuldades, não foi?

Tom – Ah, sim, claro. Não passei fome, mas dificuldades muitas. Minha mulher trabalhava como secretária e acabava que, na divisão (do sustento) da casa, ela tinha de entrar com mais dinheiro do que eu. Mas aqui em São Paulo tem uma coisa gozada: a classe universitária é muito numerosa, aqui e no interior. E como eu era artista deles, os diretórios acadêmicos ligavam e eu ia lá cantar. E eu tinha um remediado dinheirozinho que  ia mantendo as coisas, até que em 1999 eu desisti disso. Nas vésperas do David Byrne me procurar eu ia pra Irará tomar conta do posto de gasolina do meu sobrinho, porque quando eu era pequeno meu pai tinha loja. Eu queria um trabalho desse gênero, não queria ficar aqui trabalhando em nada, porque não sou paulista nem do sul...

Luciano – Então, eu ia te perguntar isso: é séria essa história de que você pensou em tomar conta do posto do seu sobrinho em Irará? Ia ser frentista?

Tom -  É isso, trabalhar num posto de gasolina. Esta semana a televisão da Bahia, a ...

Luciano – A TV Educativa?

Tom – A  Educativa foi lá em Irará e eu botei gasolina em dois ou três carros e baixei o preço da gasolina, fiz uma promoção lá (dá uma gargalhada). No posto onde eu iria trabalhar, no posto do Dequinha, na entrada de Irará. O pessoal de Aracaju conhece Irará... (Muda de assunto e lembra a infância no interior da Bahia). Escuta, tinha uma praia, eu acho que já era do lado de Sergipe, chamada Jorro... (se  refere ao município de Caldas do Jorro, no sertão baiano, a cerca de 400 km de Aracaju). Essa praia ainda é famosa? Meus pais foram uma vez, mas eu nunca fui...

Luciano – Não. Jorro é um balneário, Caldas do Jorro, perto de Caldas de Cipó. É distante do litoral, fica distante de Aracaju, mas é razoavelmente perto da fronteira de Sergipe com a Bahia...

Tom – Ah, então procure saber direito, pra quando eu for aí vocês me contarem, porque meus pais foram pelo menos uma vez e na minha infância eu lembro que era um lugar de sonho. Eu sonhava muito de ilha e tal. E eu nunca fui, porque a seca de Irará não deixava eu juntar dinheiro.

Luciano – Você já foi do Partido Comunista, não foi?

Tom – Metade de minha família era reacionária, metade era do Partido  Comunista. E eu tava sempre ali perto do partido, embora frequentei quando estava em Irará, em 1960, porque os caras do partido lá eram um puta barato. Bicho, o delegado de Irará era comunista: Raul Cruz, a gente chamava ele “O xerife”. O dono do jogo do bicho, João Pechincha, era comunista. Tertuliano Teixeira, um cara maravilhoso, que tinha uma fabricazinha de vinho de jurubeba. Eram companhias adoráveis, as mais finas de Irará. Eu ia nas reuniões do partido toda semana. No interior do Brasil tem essas idiossincrasias: às vezes o padre é que é comunista. Não eram intelectuais, mas eram pessoas vivas, sábias e eu gostava muito deles. Mas em Salvador nunca fui ao partido. Quando trabalhei no CPC (o Centro Popular de Cultura da UNE, nos anos 60) eu era considerado como se fosse do partido. Não tinha nada contra isso, porque ninguém me cobrava adesão 100 por cento nem me incomodava ser teoricamente do partido, do “Partidão”, né? Eu tinha muitos amigos no PC do B.. Porque eu nunca fiz distinção, nunca me interessou essas brigas bodas. Qualquer coisa que fosse de esquerda era digna da minha atenção.

Luciano – Você já cantou  em Irará?

Tom – Em Irará eu cantei em 1968, quando ganhei o Festival da Record me levaram para cantar num cinema. Foi um show horroroso, uma esculhambação. Depois, um dia, alguns comerciantes de lá pagaram uma cota e me levaram pra cantar num lugar aberto. Também foi muito difícil, eles não podiam levar a banda e eu tive que cantar sozinho. (Diz, enfático) Em Irará eu não sou um artista, em Irará sou um fracasso!

Luciano – Você não tem vontade de refazer essa história, consertar essas coisas?

Tom – Ah, se tivesse dinheiro eu levava uma banda, mandava montar um palco com o melhor som do mundo e fazia um puta show de arrasar em Irará, desses que eu faço na Europa. (risos)

Luciano – E o último disco, “Imprensa cantada”...

Tom – Eu vou vender aí tanto o disco, quanto o livro, quanto o DVD, a preços muito mais baratos.

Luciano – Seu livro seria um contraponto ao “Verdade tropical” de Caetano Veloso?

Tom – Talvez possa ser. Hoje mesmo li uma crítica de um jornalista da “Folha de S. Paulo”, aconselhando a comprar o livro, ele dizendo que o Caetano escreveu como o autor de um ensaio e que eu escrevi simplesmente como um artista... (ele interrompe: “rapaz, tá armando uma chuva aqui formidável, aqui em São Paulo tá precisando de chuva). Enfim, escrevo de uma maneira bem mais simples... (ele dispersa o raciocínio) ... outro dia me ligaram de Itabaiana pra saber se eu ia aí (Luciano interrompe e diz que é a cidade dele). Pois então, avise ao pessoal de Itabaiana que eu vou mesmo. Vão amigos de Recife me encontrar aí e de Alagoas... de Arapiraca também.

Luciano – O meu pai, que mora em Itabaiana e tem 77 anos, vem para o show, sabia?

Tom – (solta uma longa gargalhada). Diga a ele que vou cantar uma música pra ele, uma música bem antiga...

Luciano – O nome dele é João Correia.

Tom – Diga a ele que sem João não tem show em Aracaju.

Luciano – Obrigado, Tom, foi um prazer.

Tom – O prazer é meu. Eu tava sonhando para ir a Aracaju.Viva Aracaju e não se morre mais, na Rádio UFS...

Luciano – Viva Zé, o nome do Tom.




   


sábado, 31 de janeiro de 2015

Discurso de despedida da presidência da Fundação Aperipê de Sergipe, em 28 de janeiro de 2015

Meus parceiros da querida Fundação Aperipê,

Primeiramente quero dizer que o sentimento que me move agora, ao deixar a presidência da Fundação Aperipê, é de alegria, nunca de tristeza. Alegria, porque, lá atrás, ao tomar posse, marcamos no ski line do infinito algumas metas a serem encampadas. E hoje, três anos e meio depois, eu digo com segurança: se não cumprimos todas, mas avançamos muito, sobretudo nas questões fundamentais, como a digitalização, a qualificação da programação dos três veículos da casa, a implantação, pela primeira vez na sua história, da racionalização administrativa, financeira... A adoção do planejamento estratégico, outra figura desconhecida na casa e da consolidação de um padrão Aperipê próprio para as programações das rádios e da TV. Foi graças a este padrão que inserimos nossa FM no círculo da Arpub, a associação das rádios públicas brasileiras, e a TV Aperipê nas rotinas produtivas da TV Brasil. Seguramente, foi esse trabalho que nos fez respeitados na EBC, a Empresa Brasil de Comunicação, com quem dialogamos no mesmo nível, com a convicção de que dialogamos no mesmo plano dos grandes canais do eixo sul-sudeste-Brasília, com quem tivemos, durante todo o tempo, uma interlocução respeitosa e de reconhecimento mútuo. Para não me alongar, vou apontar apenas o exemplo do programa Estação Periferia, o primeiro programa da televisão sergipana exibido em rede nacional (27 estados, mais de 100 canais) e rede internacional, pela TV Brasil Internacional, em 68 países. Levamos para o Brasil e o mundo não só os modos de vida, a cultura e a beleza sergipanas, mas sobretudo um modo sergipano de fazer televisão. Dissemos ao mundo: nós somos capazes de produzir nossas próprias gramáticas audiovisuais para disputar a atenção do grande público presente na convergência digital.
Quando aqui cheguei, essa jóia da cultura e do povo sergipanos, que é a Fundação Aperipê, era o patinho feio da administração estadual. Era um dos poucos espaços que nem mesmo os políticos reclamavam para seus quadros. Na posse, prometi apenas uma coisa ao governador Marcelo Déda: vou honrar o cargo e dignificar minha gestão. Eu sabia que daria certo, por duas razões bem simples: 1) me sentia capacitado para tal; 2) montaria uma equipe que iria fazer, comigo, a passagem da velha para a nova Fundação Aperipê, digital, cumprindo a finalidade nobre da educação, cultura e do jornalismo cidadão. Sempre conferi ao exercício desse cargo uma importância que só eu sei, uma importância me enchia de orgulho e alegria, mas não uma importância banalizada num ato pueril como bater no peito e achar as nomenclaturas e os cargos nos bastam. Não. A Aperipê era importante porque eu a sabia instrumento de mudanças objetivas, concretas, da construção e reforço da identidade sergipana, de nossa interlocução com o mundo global no mesmo patamar de quem também se sabe dono de uma cultura superior, a cultura sergipana; de quem elabora suas próprias sintaxes, ferramenta para a produção do conteúdo local, justamente a matéria prima da cultura imaterial com a qual ingressamos no extenso universo multicultural das disputas simbólicas.
Os desafios eram os de sempre – e tão batidos, que nem vou referi-los. Mas não vim para choramingar pelos escassos recursos, materiais ou humanos. Vimos para realizar na adversidade. E foi nesse ambiente de eterna crise que renegociamos dentro do próprio governo a restauração da credibilidade perdida. Eu e Mônica peregrinamos por todos os Crafis e equivalentes da administração estadual, prometendo, tão somente, cumprir as regras, prazos, enfim, exercer nossa atividade precípua com competência e dentro dos cânones do serviço público, sem atalhos, remendos, sem fazer de uma repartição pública uma ação entre amigos, sem permitir a perniciosa prática dos variados tipos de assédio, que, lamentavelmente, é tão comum no nosso país; sem nepotismos ou outras modalidades de benefícios aos nossos; sem perseguições ou injustiças. Ainda temos muito que avançar, não só na consolidação do PCCV, mas, mais que isso, na valorização e reconhecimento da comunicação pública, desde o ambiente interno, do governo, até as demais esferas, sem esquecer que essa finalidade só se cumpre com a valorização daqueles que materializam as metas e os discursos, os trabalhadores que operam o milagre de colocar no ar, diariamente, duas emissoras de rádio e uma televisão, máquinas que funcionam com lógicas de mercado, mas com engrenagens do serviço público.
Fizemos tudo isso, nos permitam a imodéstia, com competência, racionalidade e transparência, um padrão raro na atual conjuntura do serviço público brasileiro. Otimizando o uso de cada real disponível, fazendo reengenharias diárias para o melhor aproveitamento dos recursos humanos. Certos de que os recursos do tesouro estadual, que já não eram generosos com nossa Fundação, são cada dia mais escassos, apostamos nas parcerias locais para viabilizarmos o apoio cultural para algumas produções. Focamos prioritariamente na prestação de serviços à EBC, através do contrato do jornalismo, vendendo conteúdo local à rede. Foi daí, economizando cada centavo, como uma dona de casa rege a economia doméstica, que juntamos os recursos para fazer a passagem de patamar tecnológico, de analógico para digital.
Assim, ao concluir essa etapa muito rica no currículo dos que compõem nossa equipe, gostaria de agradecer a todos e, na impossibilidade de citá-los um a um, me permitam os demais, homenageá-los nas figuras de Mônica Passos, diretora administrativa e financeira, com quem sofri diariamente as dificuldades, mas em quem encontrei talento e disposição para enfrentá-las e vencê-las: minha grande e fiel colaboradora, que ajudou a fazer uma Aperipê grande. Jefferson Andrade, esse touro de quem se dizia indomável, mas com uma inteligência maior do que o propalado temperamento: um lutador incansável, uma das maiores referências das telecomunicações do nosso estado. A Rosângela Dória, uma guerreira fazendo no seu cotidiano o milagre da multiplicação dos parcos recursos, para registrar as ações de governo, atender à TV Brasil e, principalmente, servir à sociedade civil sergipana, com um jornalismo politizado, mas sem partidarizar sua atuação, nem se submeter ao corporativismo daninho, uma praga que está destruindo o estado brasileiro. Por fim, ao meu provedor musical Alex Santana, cúmplice na formatação de um conceito de rádio que fez da Aperipê FM uma das melhores do Brasil. Porque criar um canal de música, mesmo que bem selecionada e antenada com as novas emergências, não significa necessariamente fazer uma rádio arejada, que passeia sua programação pelos vários públicos ouvintes, sem desprezar o jornalismo cidadão e a prestação de serviços.
Quero agradecer ao meu amigo Belivaldo Chagas, novamente vice-governador, mas que, como secretário de Educação do exercício anterior, portanto presidente do Conselho Deliberativo da Fundação Aperipê, foi parceiro da dor e da alegria na saborosa aventura de conduzir esta casa. Belivaldo sabe muito bem das dificuldades e, como presidente do Conselho, contribuiu enormemente para as realizações da Fundação Aperipê. Por fim, quero desejar as boas vindas a um amigo de longas datas, um companheiro de trabalho em vários veículos por onde passamos, um profissional ético e competente, cuja escolha acertada é garantia de continuidade dos avanços e conquistas. Messias Carvalho estava afastado do rádio, quando fui buscá-lo para encarnar o nosso jornalismo cidadão nas rádios Apeipê. E quando ele mal se acomodara no microfone, joguei no seu colo um novo desafio: fazer o programa também na TV. De modo, meu querido Messias, que a passagem para seu comando é a mais suave e tranqüila possível, sob todos os aspectos. De parabéns você e o governo que o terá como auxiliar dos mais importantes.
Mas quero agradecer, fundamentalmente, ao governador Marcelo Déda, que me convidou para – citando novamente Alex Santana – o melhor emprego do mundo (porque quando a gente gosta do que faz, o trabalho parece brincadeira). Ao governador Jackson Barreto, que assumiu efetivamente em 2013 e me confiou a direção da Fundação até este momento, me dando a raríssima oportunidade de trabalhar pela comunicação e cultura de Sergipe. Tudo o que nossa geração de combatentes irrequietos queria era justamente isso: a chance de realizar. E os governadores Marcela Déda e Jackson Barreto, ao me nomearem, disseram: faça! Nós fizemos e os frutos ficam agora para o julgamento dos que se interessarem por história. Muito obrigado!


quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Bonner e o conto da falsa entrevista



Quando vi as manifestações de protesto contra a postura de William Bonner na entrevista com Aécio, matei a charada: “isso é factóide pra pegar a Dilma”, pensei com meus botões. Bonner foi um pouco duro, para angariar credibilidade jornalística, produto muito escasso na Globo (nas organizações inteiras) há séculos, desde – e principalmente – quando vivia o Papa Roberto Marinho. Tudo combinado, com perguntas possivelmente discutidas antes com o candidato tucano, a ver pelo fato dele não demonstrar surpresa com a “dureza” das perguntas.
O mesmo procedimento, em menor grau, foi adotado na entrevista com o finado Eduardo Campos. Dilma, portanto, que preparasse o cangote. Não sei se preparou, embora todas as perguntas fossem previsíveis. Aliás, não havia nem como pensar em outro tipo de perguntas. Ela esperava as perguntas, mas, talvez, sem a agressividade demonstrada até pela abobalhada Patrícia Poeta.

Uma não entrevista

A rigor, Dilma não estava ali para ser entrevistada, mas confrontada, quiçá provocada mesmo. Tinha então que negar peremptoriamente a farsa da falsa entrevista. Se era debate, que fosse para o debate, com a agressividade necessária para não permitir que uma patricinha Poeta fizesse cara de nojo para a Presidente da República. Mas não. Faltou o que tem faltado ao governo dela, no campo do enfrentamento a essa direita traiçoeira/trapaceira. Ir pra cima, discutir critérios jornalísticos, informação como direito público, manipulação da verdade, sensacionalismo e outras desgraças que só ela, ordenadora de vultosas verbas para a mídia privada, tem conhecimento mais que nosotros.
A rigor, essa guerra vem sendo perdida há tempos, desde que o famigerado Escândalo do Mensalão foi transformado em novela diária, com capítulos e desdobramentos minimamente planejados no jornalismo da Globo, sem reação de uma política de comunicação pública, não para dar voz ao governo e seus acusados, mas fazer os contrapontos necessários e, principalmente, colocar na ordem do dia uma comunicação plural, com múltiplas versões, sem as torpezas emanadas do espírito torpe do “doutor Roberto”, desde o além, e seus capatazes, em terra.