quinta-feira, 21 de abril de 2011

O feriado é aqui

A amiga virtual Eugênia Déda, interlocutora no Twitter, sempre com seus saques interessantes, dá vivas aos que não viajaram no feriadão, sugerindo, de passagem, a obrigação que a maioria das pessoas têm de viajar nestes períodos. É mesmo curioso: uns sobem, outros descem, lotam estradas, hotéis, restaurantes e, em conseqüência, esvaziam as cidades. mora o lado bom: as cidades se tornam transitáveis, com sessões tranqüilas nos cinemas (parece que os que viajam são aqueles que compram sacolões de pipoca com coca cola e infernizam seu filme até esvaziar a porção industrial do lanche). 
Descobri isso meio por acaso quando morei em Maringá e, nos feriadões, para não me suicidar por tédio no Fazendão Iluminado paranaense, fui curtir quatro ou cinco dias numa Sampaulo silenciosa, com metrô civilizado e teatros e cinemas tranqüilamente acessíveis. Desde então, fujo do fluxo e faço movimento na contramão: enquanto todos vão, eu fico. Nestes dias em que as pessoas sentem a obrigação de felicidade, embriaguez e consumo, eu dialogo com minha bicicleta nos arredores de casa. Tenho preguiça até de ir a Aracaju ver uma garrafa de vinho ou uma ripa de costela para um churrasco. Como moro na praiaquase 20 anos, alguns diriam que é fácil assim, ficar em casa no feriado, como quem diz: “mas você mora nas férias”. Mas minha reação às multidões que sujam as ruas, bares e os demais lugares por onde passo é esta mesma: um exílio no meu pequeníssimo cantinho de mar. Porque, nas quartas feiras de cinzas que sucedem a qualquer feriadão, fica a terrível impressão de que o diabo cagou no mundo.
Em compensação, pago menos pelas minhas viagens. Ir a Macchu Picchu ou Marrakech num “dia qualquer” é como viajar escondidinho, sossegado, pagando preços razoáveis, sem o inferno dos aeroportos e o assédio de vendedores mundo afora. Assim, se minhas outras rebeldias de jovem não serviram para nada, esta fica como último sinal de resistência: os feriadões não me movem a lugar nenhum

5 comentários:

ra.quel passos disse...

Sinto que ao viajar escondidinho, como vc bem colocou, vivo o lugar mais intensamente por justamente não acompanhar o fluxo da multidão. É como se eu tivesse o poder de descobridora do lugar em mãos.. disputar um espaço com o senso comum que corre da cidade para os locais mais óbvios quando se tem um tempo para estirar o esqueleto para mim não tem fundamento. Sou de contrariar esses fluxos também, Luc. E assino embaixo no seu texto delicioso e suculento. Um beijo no seu coração.

Jorge Carvalho disse...

Correia: Seu texto, como sempre, é brilhantíssimo... Quanto ao fundamento filosófico, vou com Chico Buarque: "Quero cheirar fumaça de óleo diesel e me embriagar até que alguém me esqueça..."

washington disse...

Como há muito não viajo e sim fico trabalhando na banca de revista sempre sentado no banco da banca, sem poder botar banca, rsrsrs, e dizer para meus amigos que eu estou viajando nesse feriado, posso presenciar sempre essa calmaria comentada e muito observada no seu texto. Ah!! Quem dera que as cidades grandes fossem assim calmas como em seus longos feriados.

liviasousa disse...

Luciano, concordo 100% com a idea de sair de casa quando nao ha correria dos milhoes no desespero de aproveitar os feriados. Como diziamos na nossa conversa hoje por telefone, na Europa em dias normais viajamos por 10 euros de Londres a Lisboa. Num periodo de ferias, sja de verao ou inverno, ou feriados como o Easter holiday, pagamos num ticket around 300 euros retorno. Somente precisamos nos organizar para irmos sempre qu tiver tickets baratos e deixar os feriados passados no sofa tomando um vinho frances ou at mesmo portugues comprado tambem muito mais barato do que se tivessemos em algum lugar de ferias neste periodo. Well, you know how the way to do it.

Luciano Correia disse...

Fico feliz com os comentários, e com estes, em particular. Fora da imprensa sergipana, exilado neste blog em nome daquilo que me foi (é!) negado na "grande" mídia da taba, este exercício aqui compensa toda a aridez, ainda mais com esta interação. E, por fim, concordo com todos, que, ademais, concordam com o texto (hahaha!!).