terça-feira, 7 de maio de 2019

Nosso "jornalismo esportivo" ainda perde em qualidade para o nosso futebol


Mas que diabos o Jornal do Dia, do meu querido amigo Gilvan Manoel, tem contra o Itabaiana? Na reta final do campeonato desse ano, o jornal chegou a ser exaustivo na tentativa de promover a anulação da partida entre Itabaiana X Dorense,que poderia ter mudado o finalista que disputaria contra o Frei Paulistano. O problema não era só a insistência num tema de forma intempestiva, mas o mérito da questão, já que os motivos alegados para a anulação da partida eram uma lambança só, uma coisa vergonhosa patrocinada pelo Dorense e que alguns jornalistas-torcedores, no exercício de suas paixões, resolveram alimentar. A FSF, alertada da insanidade em marcha, não deu sequência àquilo que seria uma estupenda vergonha e injustiça cometida contra o time serrano. E o resultado todos sabem: o tricolor perdeu o campeonato por falta de qualidade técnica e o Frei Paulistano venceu, por ter um pouquinho mais de arrumação.

Hoje, ao noticiar uma bela vitória do time serrano na sua estréia na Série D, eis que o autor da "reportagem" (reportagem ou crônica?), despreza totalmente a brilhante partida jogada pelo Itabaiana e foca no placar de 1 X 0. A má vontade é tamanha que o texto se esforça para piorar cada detalhe. Por exemplo: o gol serrano foi aos 42 minutos, mas o jornal diz que foi aos 43. O que muda isso? Nada. É uma discussão ridícula, mas ridícula, primeiramente, da parte de quem distorce até o tempo em que o gol foi marcado para induzir ao que pretende a manchete, que o Itabaiana só conseguiu a vitória no apagar das luzes, quase chegando a sugerir que por um golpe de sorte, uma fatalidade do futebol. Que triste!

segunda-feira, 22 de abril de 2019

A França é dos franceses. A conta é nossa

Desde a noite do incêndio na Notre Dame, fiquei pensando na rápida mobilização para levantar fundos para sua recuperação. Na manhã seguinte já haviam arrecadado 400 milhões e hoje já passa de um bilhão de euros. É incrível que o mundo se mobilize pela arte e pela cultura (e tem que mobilizar, sim), mas naturalize a fome e a violência que transformou a vida dos pobres em inferno em qualquer lugar do mundo. Fiquei indignado em ver o Macron pedir uma campanha mundial de arrecadação de fundos. E mais perplexo em ver a adesão imediata. A França pedindo ajuda financeira? E o mundo - no qual se inclui gente de países pobres - levantando dinheiro para ajudar a França??!! O incêndio da Notre Dame nos comove e entristece, mas, sem pieguismos regionalistas, dói tanto quanto ver que a igreja de Monte Santo, na Bahia, tão importante para nossa história e cultura (o Conselheiro pregou ali e na região), queimou sob nossa indiferença. Fico pensando: Macron e praticamente toda a geração atual de dirigentes europeus são violentamente contra imigrantes e cada vez mais impõem restrições à imigração. Seu mantra é: a França é dos franceses. Mas na hora de socorrer a catedral, a Notre Dame é do mundo.

sexta-feira, 12 de abril de 2019

Futebol e identidade

Causa surpresa que numa terra regida sob o bafo da mediocridade - que campeia em todas as áreas, de A a Z - iniciativas assim ainda aconteçam. E fico feliz em ver esse clip com o hino versão rock de minha gloriosa e querida Associação Olímpica de Itabaiana. Não se trata só de um arroubo de torcedor apaixonado. É preciso dizer antes o que digo há décadas, que o futebol local é um dos bastiões locais da cultura, um dos raros (e últimos) redutos onde guardamos nossa identidade. É tão bom que existam Sergipe, Confiança e seus torcedores encrenqueiros; é tão bom ver o velho Lagarto, de torcida igualmente apaixonada, retomando seu tamanho e valor! Clubes de futebol são como marcas de cidades, da mesma forma que o Santiago Bernabéu está para Madrid como o Camp Nou em Barcelona. Todo mundo que vai ao Rio quer ver o Maracanã. Campos de futebol - as tais estranhas catedrais de que nos falava Chico Buarque - tão emblemáticas quanto os times que aí jogam. E o extraordinário protagonismo adquirido pelo futebol no mundo inteiro só reforça a ideia de que o futebol está inscrito na cultura. Assim, futebol local diz respeito ao sentimento de alteridade, nosso lugar de fala com os outros através de pelejas atrás de uma bola. É com o meu Itabaiana que dialogo com o mundo, quando, nos tempos de Rio Grande, lembrava aos amigos gaúchos da derrota que impomos ao Inter em pleno Beira Rio. É nele que me reconheço sergipano e de... ops, quase de Itabaiana, porque vim de Macambira, que está no entorno. Como quando fui parado na Porta do Sol, em Madrid, nos anos de doutorado, por um torcedor do Real Madrid simplesmente embevecido com a camisa do Tremendão, com as três cores da revolução francesa, e eu explicando que não se tratava ainda de um time da série A... nem B... nem C. Um clube que já jogou na A algumas vezes, mas hoje se bate na série D por um lugarzinho ao sol. Viva o futebol local e todos os seus defensores, principalmente o torcedor que vai a campo e que, como eu, paga seu ingresso. Que insistem em ser Confiança (O Proletário) ou Sergipe (O Mais Querido), e não só insistem, como se orgulham. Viva ainda os resistentes lutadores, como Estanciano (Canarinho do Piauitinga), Maruinense (que um dia se chamou Socialista, e a ditadura mandou mudar o nome), como queria ver ainda vivos o Santa Cruz de Estância, pentacampeão nos anos 60; o Mequinha de Propriá; o Propriá (O Avoengo) e o mais saudoso de todos, o simpático Cotinguiba, o Decano da Fundição.

quarta-feira, 20 de março de 2019

A Corrida de Aracaju ficou melhor


A Corrida Cidade de Aracaju, antes 17 de Março, porque comemorada na data de aniversário da nossa capital, cresceu e exigiu providências que sua importância impõe. Primeiro, saiu da data do 17 de Março, pois isto significava que ela ocorria em qualquer dia da semana. Como cada vez mais tem se tornado uma competição incorporada ao calendário nacional de corridas, tinha que levar em conta as centenas de competidores de outros estados – e até de outros países – que a cada ano se incorporam a esta maratona que leva o nome de Aracaju para o país. Agora ela tem data determinada: será sempre no sábado próximo ao 17 de março. Outra grande mudança é sua mudança de patamar, de maratona estritamente esportiva, para o foco do evento que atrai turistas, competidores e familiares, portanto, gerador de renda. Hoje a Corrida de Aracaju está relacionada com a cadeia produtiva que movimenta hotéis, passeios, transporte, locadoras, restaurantes e o comércio em geral, com a prefeitura cumprindo assim o papel de alavancar negócios e fortalecer a economia sergipana.

terça-feira, 19 de março de 2019

Jornalismo contra fake news (I)





Na nossa terra é assim, o sujeito encoberto pelo anonimato liga para uma emissora e diz: “meu nome é Zé”. Pronto, está técnica e eticamente habilitado para dizer o que quiser, desde cíticas procedentes até ilações sem fundamento, maldades, pegadinhas políticas e coisas que tais. O espantoso é o descompromisso de quem põe no ar sem checar, sequer, se o tal Zé é Zé mesmo. Zé de onde?, o que faz? etc. Se vai transformar o Zé anônimo em ator empoderado no jogo midiático, tem que ter a responsabilidade de fichá-lo, no sentido de saber a quem está dando a palavra. Comunicação é serviço público. O resto é jabá. Ou interesses políticos inconfessos.

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Fake News contra a democracia

Fake News contra a democracia

[*] Luciano Correia
Embora até então não tenha publicado nada a respeito, comento sempre, em conversas, que o senador Antonio Carlos Valadares, derrotado na tentativa de reeleição, é um dos pioneiros no uso das fake news em Sergipe.
Ser pioneiro de tamanha desgraça é um demérito, evidentemente, além do que o uso e abuso dessa prática que ganhou nome em inglês, longe de quaisquer vínculos com a modernidade, é um antigo e péssimo costume, associado à fofoca, à mentira, à leviandade e à dissimulação.
Ou seja, não há nenhum verniz de novidade num velho político que usa o Twitter para distorcer fatos objetivos ou criar narrativas falaciosas a partir dos próprios interesses. A política, mesmo ela, não é um oceano de subjetividade, no qual verdades e mentiras navegam ao sabor do dono da palavra.
A menção ao político aposentado pelo povo em 7 de outubro é porque hoje mesmo a campanha de seu filho, que funciona à sua imagem e semelhança, afirma que seu governo - se eleito fosse – não faria perseguição aos sertanejos do Estado.
A manchete, por si, já denuncia a primeira fraude: à qual perseguição se refere o jovem velho candidato do PSB ao Governo? Alguém aí tem notícia de alguma perversidade praticada contra algum contingente da população, especificamente moradores da região do sertão?
Para fazer tal afirmação, a fábrica de fake news mobilizada pelo inspirador do marketing pessebista teria que, pelo menos, dar conta de uma série de aberrações e injustiças cometidas. Mas não o faz, porque, como se sabe, rigorosamente, elas não existem.
Passando da manchete ao texto da não-notícia divulgada por esse espécie de (aí, sim) marketing do mal, chegamos na pior parte. Imaginem vocês que, num quadro de violência generalizada e de atos criminosos explodindo em todas as regiões do país, o candidato, no afã de conquistar uma meia dúzia de infratores, protesta contra a apreensão de motos pelo poder público e - ainda mais patético - contra a cobrança para a necessária regularização desses veículos.
Definitivamente, invertemos todas as lógicas, com o errado no lugar do certo. Aquilo que os tempos atuais já não permitem, graças à eficácia dos poderes públicos e de seus órgãos fiscalizadores, virou programa de campanha de um candidato que se define como “novidade” e “mudança”. A novidade seria o desprezo público, anunciado em matéria jornalística, pela prevalência do império da lei?
Para comprovar as afirmações feitas aqui, mais um fato revelador da prática do embuste como forma de distorcer os fatos e auferir vantagens eleitorais. Me refiro à divulgação de um lamentável episódio vivido pelo candidato Belivaldo Chagas na TV Atalaia, quando foi instado de forma grosseira e desrespeitosa, ainda fora do ar, pelo apresentador do telejornal Balanço Geral.
Aqui, atentem bem, não se está discutindo o direito de exercer o jornalismo e a opinião. Muito pelo contrário, o que se verificou foi o abandono completo dos protocolos do jornalismo, ferramenta e conquista da sociedade justamente para promover o esclarecimento (uma herança do Iluminismo).
Se alguém atentou contra o jornalismo e a liberdade de expressão neste caso foi o profissional encarregado de defendê-los, ao promover a espetacularização de uma notícia e a submissão do governador-candidato a uma abordagem inquisitória. Seja o entrevistado o governador ou o mais humilde dos cidadãos, merecem o respeito de quem entrevista, sem adjetivações.
Novamente, partidários do candidato Valadares Filho deixaram de lado quaisquer escrúpulos e, em nova forçação de barra, viralizaram nas redes trechos da gravação do episódio, buscando criar novo contexto para o que, a rigor, foi uma injustiça perpetrada contra Belivaldo - o próprio apresentador implora literalmente o perdão de seu interlocutor.
Claro que há aí alguns mistérios não esclarecidos, como a gravação do áspero diálogo, mesmo durante o intervalo do programa e, o mais grave, seu vazamento. Mas essa já é outra história. Nos contentemos (mesmo?), por ora, com a fabricação dos fake news e seus estragos na democracia.
[*] É jornalista.

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

É o que venho dizendo há algum tempo - já o fiz no meu último livro, de 2015. O modelo de negócio da radiodifusão (sobretudo a Televisão) vem num declínio constante desde a consolidação da convergência dos meios. O que é este momento da consolidação? Trata-se do instante em que novos contingentes de consumidores/usuários migram para outras plataformas: o computador, tablets e, sobretudo, o celular. Um sintoma disso: grande parte das gerações mais jovens, dos 20 anos para trás, consome conteúdos audiovisuais via essas novas plataformas. Mudou a forma, mudou o conteúdo. Neste novo ambiente, é inimaginável que essa garotada criada sob novas gramáticas (eles mudam até a forma de escrever e subvertem, ao seu modo, a chamada língua culta), esteja interessada, por exemplo, em telenovelas. Novela é do tempo de minha mãe, dos dramalhões radiofônicos do Direito de Nascer, importados de Cuba e México. A Globo dominou a forma com Glória Magadan e construiu uma estética brasileira para o produto, que acabou virando referência e sucesso no mundo inteiro. Era o tão referido Padrão Globo de Qualidade. Mas o mundo mudou e nossos heróis obsolesceram sentados no trono de um apartamento com as bocas escancaradas cheias de dentes e ofuscados pelo próprio brilho. Mudou a tecnologia para produzir e consumir essa cultura pop que alimenta o circo/círculo da indústria cultural, como assim também mudaram os repertórios. A TV como conhecemos, assistida na grade de programação linear, que um dia foi uma revolução no entretenimento, já começou a morrer faz tempo. A notícia em questão é só sintoma. A causa é a agonia do modelo de negócio e a crise (e morte) das velhas narrativas televisivas.





Pela 1ª vez em 14 anos, Globo fica de fora do Emmy Internacional

 
Juliana Paes na pele da Bibi Perigosa de A Força do Querer: novela aclamada não concorre a prêmio. Foto: ESTEVAM AVELLAR/TV GLOBO
Luciano Guaraldo do site Notícias da TV informa que, pela primeira vez em 14 anos, a Globo não terá nenhum produto original na disputa pelo Emmy Internacional. Os indicados foram anunciados na manhã desta quinta-feira (27) e, apesar de o Brasil concorrer em seis categorias, a liderança ficou com a série 1 Contra Todos, da Fox. GNT e HBO também foram lembradas pelos votantes do prêmio.
Fenômeno de audiência e de crítica, A Força do Querer não foi aclamada. Isso marca a primeira vez desde 2010 que o Brasil não emplaca uma obra no quesito melhor telenovela, categoria no qual o país levou seis dos dez troféus já entregues.
Outro sucesso no Ibope, O Outro Lado do Paraíso não pôde concorrer à premiação deste ano, que contempla produções transmitidas entre 1º de janeiro e 31 de dezembro de 2017. Apesar de ter estreado em 23 de outubro, a novela de Walcyr Carrasco exibiu a maior parte de seus capítulos em 2018 _por isso, só competirá no Emmy Internacional do ano que vem.
A Globo só será representada na premiação na categoria telefilme ou minissérie, com José Aldo – Mais Forte que o Mundo. A obra, no entanto, é uma produção da Globo Filmes para o cinema, que foi reeditada como uma minissérie para a televisão.

segunda-feira, 25 de junho de 2018

Crônica pebolística

Como se vê aí no vídeo, acertei o placar, portanto, entendo de futebol. E ao entendê-lo, vou analisá-lo. A partida de hoje contra a Costa Cêra me fez gritar um gol do Brasil depois de longos anos, pelo sofrimento e pela injustiça de um provável 0 x 0. Comecemos pela rebeldia inútil de Neymar, que, aos 48, logo após o gol de P. Coutinho, resolveu dar um banho-de-cuia no defensor adversário, quando o razoável era cobrar um escanteio como os homens cobram e tentar o segundo gol. Mesmo ele precisando se reabilitar, depois dos 180 minutos de Copa mais pífios de sua história, ainda comete uma irresponsabilidade dessas. Daí temos que falar de Tite, que arrumou o time desde há dois anos e vem de resultados extremamente favoráveis. Um jogador que faz aquilo é jogador que se governa, que não acata a autoridade de ninguém. E treinador tem que ser um cientista do futebol, um paizão psicólogo e um delegado-capataz de sua equipe.

Ontem, a charge de um jornal dava conta dessa frouxidão de comando, digamos, espiritual , do escrete canarinho. Mostrava os jogadores, todos eles, diante de um espelho, cada um fazendo seu penteado, um cocó, uma trança, black power, o diabo. Uma charge disse tudo. A entrada de Neymar no jogo contra a Suíça, com aquele penteado pra chamar nossa atenção, dá conta do clima de pode tudo. Neymar é um pobre menino rico.... e de um tremendo mau gosto. Se tivesse gente aprumada no entorno, diria: corte esse cabelo, moleque, que tá parecendo uma mistura de Clodovil com Dercy Gonçalves. Parecer com um ou com outra, já era demasiado. Imaginem a mistura.

Se eu fosse treinador de um time, não tinha conversa: era máquina zero em todos. Cabeça pelada pra evitar excesso de frescura dentro e fora das quatro linhas. Vão dizer que isto é bobagem. Não é. Ainda mais num país em que a crônica esportiva (se fosse jornalismo não se chamava crônica) considera mandinga um elemento importante nas suas análises e não raro apela a pais de santo para complementar suas abalizadas opiniões. Tenho dito.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

A incrível história do gato Tom (Uma historinha para a internet em cinco capítulos)

Capítulo 1
Era começo de dezembro de 2015. Eu chegava em casa no final do dia e, ao me dirigir à porta principal, dou com uma algaravia de gatos em estado de extrema excitação, entre miados, grunhidos, papos e sopapos, enfim, uma incontornável divergência instalada entre os bichanos. Eram uns dez, pelo menos. Enquanto tangia a gataria com ameaças de tapas e pontapés, um bebê de poucos dias afastou-se da bagunça e conseguiu entrar comigo em casa. Eu, que jamais prestara atenção no focinho de um gato, constatei: era lindo! Bonito e manso, o desprotegido filhote que, a ver pela indiferença dele em relação ao bando, e vice-versa, estava no mundo sem pai nem mãe. O ambiente era tão hostil que, vá lá, o pobre gatinho viu na minha carranca a possibilidade de um abrigo, quiçá, num verdadeiro milagre, um pires de leite.
Foi o que fiz. Comovido com tamanho abandono, e já tocado pela ternura do pobrezinho, arrumei um vasinho de leite para o sem terra, sem lar e sem família. Para quem vinha de uma guerra civil de gatos, tava no lucro, de modo que não deu outra: resolveu ficar. Antes de seguirmos adiante, preciso dizer de minha anterior relação com animais, ou, para ser justo, a ausência dessa. Como meus pais jamais gostaram de chamego com gatos ou cachorros, fomos criados sem a presença desses bichos, situação que favorece até uma certa repulsa, se não a indiferença. Adulto, já dono dos meus terreiros, passei a vida lutando contra a invasão dos gatos do meu condomínio à minha casa, santuário da racionalidade e lugar de todas as práticas humanas, menos as animais.
Capítulo 2
Ficou célebre meu combate às centenas de gatos que sempre provoaram o condomínio, improvisando armas que foram desde o uso de baleadeiras, cujas balas eram as castanhas dos pequenos cajus desta celebridade aracajuana que vem a ser meu cajueiro, tão famoso que só falta ganhar um nome. Um chicote, que no tempo de menino chamavam de “macaca”. E fogos, muitos e variados fogos. Em geral, os traques “bebés” ou o antigo Peido de Véio, mas umas vezes eu comprei aquelas pistolas com vários tiros, até que, num dia de batalha cerrada contra os invasores, detonei um foguete e mirei pelo lado errado. Como estava praticamente encostado à parede, as bombas bateram na parede e explodiram sobre este ex-quase-criminoso. Até hoje carrego uma cicatriz no braço esquerdo, graças à minha imperícia na elementar operação para soltar uma pistola.
Desisti das bombas, mantive o traque Bebé, mas, volta e meia, experimentava a cara feia de algum vizinho, incomodado pelos papocos que eles - não eu, claro – julgavam impróprios para certos horários. Daí apelei para o Chumbinho, veneno falsamente proibido, posto que o que mais se ouve quando estamos no Mercado de Aracaju são as ofertas de “chumbinho para matar ratos”. Chumbinho para matar gatos, pensei eu, de dentro de minha maldade. Cheguei a comprar três vezes, e em todas elas o carregamento foi jogado fora. Numa das vezes, instalou-se em casa uma verdadeira discussão filosófica entre mim e a eterna “funcionária” Geudice (não é assim que a classe média se refere às “trabalhadoras do lar”? – ops, outro eufemismo!) Geudice, do alto de sua incontestável autoridade, tipo mais moral que o dono da casa, disse logo: “Eu não boto. Matar gato dá sete anos de azar”. Eram nove, na época, os bichanos cujas almas eu encomendara ao diabo. Tentei negociar: “Mas você será só a executora. São quatro anos de azar para o mandante e três para o executor”. Ela fez as contas: três vezes nove, 27 anos só pra ela. “Sem comércio!”, bradou a poderosa Geudice, encerrando a questão. Como meu coração mole não sobreviveria ao sofrimento dos gatos, dispensei a arma química para sempre.
Capítulo 3
Noutro tempo, um vizinho meio psicopata, policial federal, tinha muito mais aversão aos gatos do que eu. Na verdade, tinha verdadeira obsessão. Certa vez, gastávamos um sábado entre os vapores do álcool na sua varanda quando uns gatos se aproximaram para ximar uns restos de churrasco. Ele imediatamente foi tomado pela cólera e, nem sei de onde, sacou de dentro de suas roupas um pequeno e brilhante revólver que minha completa ignorância em armas supunha ser um 22. Se eu já estava incrédulo, fiquei sem palavras quando ele apontou o revólver e disparou uns cinco ou seis tiros no infeliz animalzinho, na verdade um sortudo, porque a péssima pontaria do policial (péssima pontaria do policial: olhe eu aí de novo com minhas aliterações) fez com que nenhum disparo o atingisse.
O susto serviu para que eu encerrasse essa beligerante relação com os bichanos, embora ainda seguíssemos cada qual no seu quadrado. Até que... até que o Tom entrasse em minha vida. Sim, porque vocês viram que rolou um clima, tipo amor à primeira vista. Tom não só dormiu aquela primeira noite, como nas noites seguintes, salvo as trágicas vezes em que o destino nos afastou – mas essa é uma história para os capítulos finais. Fui me afeiçoando pelo órfão, certo de que ele me havia tomado por pai e mãe. Logo, dei-lhe o nome: Tom, desenho animado de minha adolescência, o herói mau caráter que o mundo inteiro curtiu.
Ora, se eu não entendia xongas de gatos, porque diabos ia saber que existem gatos machos e gatas fêmeas? Pois meu novo amigo, ou filho, era uma gata, com tetinhas e xibiu. Animal extremamente popular no Sol e Mar III, logo vieram me notificar de sua condição feminina. Mas aí Inês já era morta. Ficou Tom, Tom Souza Correia, e pronto. Mesmo porque, nesse mundo politicamente correto, com a geração trans incorporando direitos e conquistas, qual a importância de uma inocente gatinha se chamar Tom? Na UFS, tenho alunos que vestem saias longas, com penteados cocó, batom vermelho e unhas pintadas de roxo. Pela fidelidade ao conjunto da obra, imagino que também vestem calcinhas. Mas deixemos meus alunos em paz, que não quero confusão com essas pestes briguentas...
Capítulo 4
A partir daí nosso amor foi crescendo, fazendo com que eu sentisse saudade quando passava um dia sem vê-lo. Nos fins de semana, quando vou visitar a avó de Tom em Itabaiana, Dona Afra, ele fica entregue à vida mundana. Na volta, vejo logo as manias feias que aprende com os gatos de rua. Coisa imprópria para um gato aristocrático, de pelagem rara e olhar luminoso, digno de capa da National Geographic. Tom é um gato de personalidade, temperamento forte e opiniões definitivas. Vem dele as poucas críticas dirigidas à mulher que manda lá em casa, Aline, a popular Bebê. Bebê é uma santa, em paciência e virtudes, mas, mesmo assim, o gato Tom sempre acha alguma coisinha para reclamar. Eu, obediente e fiel, faço cara de paisagem.
Mas, mesmo nas histórias sobre animaizinhos, a felicidade não dura para sempre. A minha durou até o domingo fatídico em que a família do caseiro de uma propriedade em frente o achou muito engraçadinho e resolveu roubá-lo. Desde que demos pelo sumiço, eu e a Bebê ficamos inconsoláveis. Contratei os serviços dos detetives Miúdo, Dija, Tonho e Nô, amigos funcionários do condomínio, que empreenderam minuciosa caçada pelas redondezas, até que eu mesmo desse com os costados na casa dos amigos do alheio. Já ia armando um barraco, mas, quando vi a filha do caseiro nervosa explicando porque levara o gatinho, desarmei o espírito. E o dito ficou pelo não dito.
Capítulo 5
A segunda agonia veio em novembro passado, quando eu decidira, depois de muitos anos sem saber o que são 30 dias de férias, passar todo o mês na Europa, perambulando pelos meus botecos e cafés de Espanha, Portugal e Andorra. Na terceira semana, com a metade de minha programação ainda por cumprir, sou fulminado pela notícia de um novo sumiço. A Bebê já ligou aos soluços, para que tenham uma ideia da tragédia que se abateu sobre aquele lar que um dia se chamou felicidade. Foi um alvoroço, conforme denunciado aqui na delegacia policial do Feicebuque. Quando, três dias depois, Tom reapareceu do nada, assustado e faminto, eu já gastara o resto do meu dinheiro com uma nova passagem, já que a remarcação da volta resultaria mais caro. A propósito, um anti-comercial: a pior companhia aérea do mundo atende pelo nome de Air Europa.
Dias depois vivemos novo infortúnio, com a suspeita de que nosso Tom estivesse com raiva. Após gastar outra pequena fortuna na clínica da Pio X, só depois de alguns maços de reais os veterinários de plantão concluíram que, na verdade, Tom estava no cio. Os “doutores”, como os pais, esqueceram que Tom era uma fêmea na fina flor dos maus pensamentos.
Desde então, Tom segue sendo a alegria do lar, ora exigindo o luxo que nem os pais ostentam, ora armando crises de ciúme, outras vezes querendo impor suas vontades a todo custo. Um gato maduro, de um ano e dois meses, senhor de si, o rei do pedaço.
The end


sábado, 7 de janeiro de 2017

A bruma leve da aurora de nossas vidas


Éramos três, os três mosqueteiros, no dizer do “seu” Siqueira, o festeiro e gentil senhor que vinha a ser o pai de Berlange, Solange, Sirlange, Blanar, Bismarck, Berilo e Shirleide. Seu Siqueira era um classe média de minha adolescência em Itabaiana, funcionário do SESP, sócio dos clubes da cidade, animador de carnaval, bom de bico e de frevo. Nossas famílias eram amigas, laços fortalecidos pelo fato de Solange ser colega de sala de minha irmã mais velha, Marise e eu por ser colega de Blanar nos seis dos sete anos que estudamos no Murilo Braga. Ele foi meu primeiro amigo de Itabaiana. Lembro que deixamos Macambira em novembro de 1971 e viemos morar em Itabaiana justamente para que eu e meus cinco irmãos pudéssemos estudar.

Naquelas tardes tristonhas de dezembro de 71 eu perambulava pelos vários campinhos de grama e areia que circundavam o estádio Presidente Médici em busca de uma pelada de meninos mais fracos que me aceitassem “na linha”, porque pra jogar de goleiro eu preferia não jogar. Foi ali que conheci um menino introspectivo, tão inteligente quanto esquisito para sua pouca idade, meses mais velho do que eu. Desde a primeira pelada, ficamos amigos para sempre, uma amizade de irmãos que assistiu crescermos acompanhando a vida um do outro, desde as primeiras paqueras, casamento, filhos, viagens e aventuras. E música, muita música pontilhando desde sempre, inclusive com incursões por bandas, que naquela época chamavam de “Conjunto”. Foi numa dessas que minha total falta de ridículo me fez subir no palco da Associação Atlética para tocar um tambor. A música era “Black Côco”, uma cujo refrão cantava “Black coco/Black coco tá”.

Blanar desenhava como ninguém mais da minha geração, só perseguido por outro garoto com cara de cientista maluco, Vicente de Cajuzinha. Desenhou réplicas de todos os carros de Fórmula 1 da temporada de 1972 para jogarmos uma espécie de ludo montado numa pista de corrida, gastando as tardes que deveriam ser de estudo entre o ronco dos motores, produzido pelas nossas gargantas, com direito a narração minha. Eu, nacionalista que sempre fui, torcia pelo Emerson Fittipaldi, enquanto ele, amante da música estrangeira, era fã de Jackie Stewart, o escocês voador, nome que ele emprestou para pôr no filho mais velho. Depois veio o Ajax, o timinho da turma do Murilo, um time “de camisa”, como se dizia na época, com números e escudos pintados pelo nosso pintor oficial. Blanar também chegou na fase de pintar quadros, alguns muito bonitos, e de ilustrações que lembravam, mesmo naquela isolada Itabaiana dos 70, as imagens de Salvador Dali, que só conheceríamos muitos anos depois.

Daí veio o terceiro mosqueteiro, o menino Marcos, vindo de Aracaju, o rico – para os padrões locais – filho do seu Edmundo da Padaria. Marcos, intelectual precoce, de raciocínio rápido e ousado, montou alguns dos mirabolantes planos que executamos naquela aurora de nossas vidas. Como num sábado em que fomos para um casamento em Penedo e, por não termos gostado da festa, voltamos na mesma noite para alcançarmos o baile da Atlética. O Opala vermelho do pai de Marcos travou a marcha na terceira (acho que chamavam esse defeito de “encavalou”, algo assim, sei lá...) e viemos na terceira desde a bela cidade histórica alagoana, inclusive para subir e descer da balsa. Chegamos na serra ainda a tempo de tomar umas tabocas, como se chamava então a recusa das meninas em ir dançar com cavalheiros de nossa estirpe. De Alagoas a Sergipe, Opala voando guiado por um jovem motorista de ... 15 anos.

Noutra feita, em pleno carnaval de 1978, fomos “tomar cachaça” em Frei Paulo, famosa na época pela beleza das mulheres, que nossa juventude maldosa e boca suja dizia ser as mais safadas da região. Contávamos todos, eu, Blanar, Marcos, Tonho de Zé Meu Mano, Jorge Madalena e Francisco, 17 anos, mais ou menos. Nessa época Frei Paulo tinha um delegado maluco, um doente mental com fama de valente e arbitrário. Logo estávamos bem instalados num bar de esquina da aprazível Frei Paulo, cada um empunhando um instrumento, eu apanhando de um tamborim. Minhas habilidades com baquetas vinha desde a banda marcial do Murilo Braga, três anos consecutivos tocando caixa, que, na hierarquia das bandas de música, vinha a ser muito superior aos simplórios tocadores da marcação.

Eis que o vigor com que cantamos o refrão chamou a atenção do delegado psicopata, que, para nosso incrível azar, passava nessa hora pela porta do boteco. “Bota a mão nas cadeiras/Oba/ Bota a mão nas coxinhas/ Oba / Bota a mão no lê lê lê / Cadê você? Olhe eu aí/ Cadê você? Olhe eu aí”. Não tivemos tempo de ir além da mão no “lê lê lê”, porque o brutamontes invadiu o bar bradando impropérios e safanões. Meu castigo veio do meu próprio instrumento: tomou-me as baquetas e em seguida me surrou violentamente. Depois, mais calmo – se é que um homem desses tinha momentos de lucidez – parou com a pancadaria, mas cumpriu sua promessa: levou Blanar preso. Imaginem minha dificuldade em explicar ao seu Siqueira que seu filho estava preso na cadeia de Frei Paulo.

Desse tempo ainda guardo as tardes e noites perdidas para preenchermos, anualmente, a importante lista das meninas mais bonitas de Itabaiana. Era uma lista minuciosa, cheia de critérios técnicos e estéticos, num refinamento que fez Blanar, achando pouco a lista das mais mais, criar uma espécie de Segundona, o time B das minas mais guapas da serra. No total davam umas cem garotas, que, à falta do nome correto, a gente nomeava com designativos interessantes, nomes como "A menina da praça" ou "A garota da bicicleta vermelha". Foi nesse mesmo tempo que criamos, no Murilo Braga, o jornal Cebolão, em mimeógrafo, que chegou a tirar 1.200 exemplares e nos rendia alguns trocados. Foi com essa renda que comprei, para desgraça da música, meu primeiro e único violão (o segundo, e atual, foi roubado de Paulo Lobo, que o roubou do saudoso Neri, mas essa já é outra história).

Nesse pequeno violão Giannini eu aprendi algo como umas 50 músicas, a obra de Belchior, algumas de Caetano, coisas que o canalha do tempo me fez esquecer, para sorte dos ouvidos próximos. Com a mesma mijorna amealhada com a venda de jornais também fomos a passeios a Propriá, terra natal de Blanar e, no nosso arroubo mais arrojado, a Maceió, para marcar nossa primeira saída do estado de Sergipe.
Blanar depois enveredou pelas filmagens, um dos primeiros que fez isso em Aracaju nos anos 80, inclusive ganhado um dinheirinho, para reforçar a renda de funcionário do Banco do Brasil. Em 1985, na formatura de Papai em Letras pela UFS, enquanto eu e toda a família nos emocionávamos com aquela imagem de um pai quase sessentão vestindo beca, Blanar irrompeu na quadra do ginásio Constâncio Vieira para documentar essa que foi, sem dúvidas, uma das datas mais memoráveis da família de João Correia.

São muitas histórias e lembranças que eu não teria condições de trazê-las aqui, como do tempo em que, nas noites de São João, por não termos nenhum programa mais interessante, percorríamos as ruas de Itabaiana, do centro à periferia, vendo as festas e fogueiras das famílias (festas e fogueiras das famílias? Estou copiando o mestre Cabrera Infante, rei absoluto das aliterações?). Programa bobo, simples e sem nada mais marcante, além da alegria das pessoas em volta das fogueiras. E para que essa história aí não termine tão insossa, surge, num dos anos em que repetimos a peregrinação junina, a figura do viado Zé Baixinho. Escrevo assim porque, naquele tempo, sem a incorporação do politicamente correto ao cotidiano, era comum as pessoas se referirem assim aos célebres homossexuais que alegravam suas cidades. Pois num desses nossos passeios Blanar, que, como eu, tinha o hoje feio costume de cuspir e escarrar, escarrou justo na hora em que passávamos pelo temperamental Zé Baixinho, um homossexual  forte e valente, acostumado a bater em muito homem, quebrando, portanto, a crença no afeminado molenga. Pois não deu pra ninguém. Zé não teve tempo ou coragem de resolver a parada na hora, mas em outra ocasião, ao me encontrar na rua, não se furtou de advertir, na sua forte gagueira: “Diga àquele filho de Siqueira que eu quebro ele todo da próxima vez que ele cuspir quando eu passar”.

Blanar foi trabalhar pela última vez em 29 de dezembro passado, dia de sua aposentadoria no Banco do Brasil, onde deixou incontáveis amigos. Só conseguiu cumprir parte da jornada, porque não se sentia bem. Viajou com a esposa Edilene no reveilon e, novamente, teve problemas de saúde. Foi para um hospital e, ao chegar, foi logo transferido para a UTI. Na manhã de ontem, sexta feira, 6 de janeiro, não resistiu à virulência de um linfoma e foi embora com estas e outras histórias minhas. Não tenho a menor dúvida de que também comecei a morrer a partir de ontem.