quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Vargas Llosa e o beijo roubado em Simão Dias



Não sei porque tanta gente gosta da literatura de Garcia Márquez e não também de Mario Vargas Llosa. Aliás, conhecendo a espécie humana, como começo a conhecer, sei bem as razões: um é escritor de esquerda e outro de direita. A rigor, as duas afirmações são praticamente falsas, mas não cabe agora a discussão. Interessa apenas isso: pelos infinitos preconceitos que travam a mente na ideologia, um é queridinho e outro é execrado. Como não paga imposto nem é proibido, gosto dos dois, mas sempre tive um xodó mais íntimo com a fantástica obra do peruano, um tarado total, que comeu e casou com a tia (porra, vá que fosse com a sobrinha) e carrega a vaidade de um pavão.

Acontece que Llosa é desses homens a quem cabe o pecado da vaidade, com sua inteligência fina, texto acurado e encantador. Li vários, mas seuPeixe na água” é primoroso, mesclando sua riquíssima história pessoal com a própria História contemporânea do Peru, percorrendo principalmente a quadra dos terríveis anos 80. Na época, a América Latina se livrava dos golpes militares, para cair nas mãos corruptas dos neoliberais mais descarados que se tem notícia: Carlos Menem, na Argentina, Carlos Andrés Perez, na Venezuela, um tal Fernandinho dos Marajás, da almadiçoada Alagoas e Alberto Fujimori no Peru.

Em 1989, em trânsito para Havana, passei dois dias perambulando na bela Lima. O país fervia com os ataques do Sendero Luminoso e com uma campanha presidencial que opunha, justamente, Fujimori e Llosa. O resultado, o mundo conhece: ao perigo de eleger umdireitistaconservador (como um homem que casa com a tia pode ser conservador? Ahahah), preferiu-se a aventura de um ladrãozinho sem estilo até para roubar. Como se ainda restasse um pouco do que chamam de justiça, dorme hoje caladinho numa cela do xilindró.

EXÍLIO          

Vargas Llosa desencantou-se com o povo e o lugar e foi embora para Madrid, até porque, enquanto durou a ditadura legal do japonês, havia ordem judicial para prendê-lo, caso voltasse ao país – a Justiça, sempre eficaz nos serviços mais sujos e na conspurcação da democracia. Com a volta de alguma normalidade, passou a freqüentar Lima e sua linda Arequipa novamente, embora aquele amor imenso, confessado tantas vezes nos seus livros, não fosse o mesmo. Na temporada européia, produziu maravilhas como “A festa do bode”, que narra a trama para assassinar o ditador dominicano Rafael Leónidas Trujillo, onde traça um rico quadro daquele país sob a mão de ferro do general. A publicação mais recente é o único que não gosto e que considero o mais fraco: “Travessuras de uma menina má”, que, me parece, feito para cumprir o contrato com as editoras. Ainda assim, em se tratando de um Vargas Llosa, dá para ler com prazer.

Sua eleição para o Nobel de Literatura de 2010 é justa, afinal, o que é julgado é o conjunto da obra de um autor latinoamericano, com produção magnífica, dessas que colocam as coisas da aldeia para girar na órbita do mundo. E nisto é tão bom, que o faz com maestria até quando trata da aldeia dos outros, como fez em “A guerra do fim do mundo”, antológica história romanceada da saga de Antônio Conselheiro em Canudos. É incrível imaginar que um livro tão rico, tão detalhista em pequenas passagens, foi escrito por um estrangeiro. Mas engana-se quem pensa que, para chegar ao resultado alcançado, o autor empregou basicamente o talento: ali, mais que inspiração, está empregada a transpiração de um obcecado pesquisador da história. Llosa passou meses subindo e descendo ruas de cidades e povoados do sertão nordestino, garimpando fontes, registros, relatos.

Sergipe estava no roteiro, evidentemente. Em Simão Dias, hospedado numa pensão familiar, o belo e atlético escritor com cara de europeu, que despertava suspiros por onde passava, foi pego numa cena de programa de TV. Ao encontrá-lo na tal pensão, uma senhora casada, em idade de ter juízo, não resistiu à beleza do também maduro escritor e, ao aproximar-se, do nada, sapecou-lhe um tremendo beijo na boca. Perplexo, Vargas Llosa corou de vergonha, afinal, mesmo para um sujeito esquisito, tarado na tia, um chupão assim inesperado deixa qualquer galã nocauteado.    

Um comentário:

Sérgio Morenno disse...

Luciano, enviei esse texto para o meu twitter. Gostei.

Sérgio Moreno (Sérgio Santos)