quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Tapas (6)

A fobia dos aeroportos

Minha simpatia pelos árabes foi maior do que a atual. No momento prefiro as delícias de sua culinária a me alinhar com a clássica posição de esquerda que abomina, a priori, Estados Unidos, Israel e o ocidente, em favor de toda e qualquer causa identificada com os interesses árabes. Primeiro, porque, em matéria de geopolítica, o buraco é mais embaixo e fundo. Nãopara, num lance de bravata, escolher o lado como quem escolhe um time pra torcer no futebol. Depois, uma coisa, embora pareça prosaica: depois dos atentados de Nova Iorque, Londres e Madrid, coisas simples como viajar de avião se tornam cada dia mais pesarosas. Sem querer abrir um debate sobre isso, uma coisa tem a ver com a outra.
Semana passada, viajando para Berlim e levando apenas uma pequena mochila, nem por isso deixo de ser molestado pelos policiais do controle do aeroporto de Barajas. Na boa, me tomaram um desodorante, porque o frasco, em vez dos permitidos 100 ml, continha o volume de 150 ml. Quem manda eu não saber o óbvio, que 100 ml de desodorante não fazem nem cosquinha, mas a poderosa carga de 150 pode derrubar um A330? E se foi meu patrimônio. Como diria seu Samuel Blaustein, da Escolinha do Professor Raimundo: 5 euros menos na bolsa do papai aqui.

Cigaro, e

Outro dia falei aqui no blog sobre o quanto se fuma neste país e atribuí a uma tese minha, fruto da observação do meu instituto de pesquisa caseiro, o DataCorreia, ao frio infame que invade este continente a partir de setembro ou outubro e se espraia até maio ou junho. Mas meus argumentos foram desmascarados pela civilidade dos alemães, que fumam infinitamente menos e, quando fazem, não invadem o espaço alheio, como vemos aqui. No entanto, Berlim é mais fria e úmida que a capital do norte da África, Madrid.
A propósito, no mesmo aeroporto de Barajas tem umserviçoque diz bem da estupidez espanhola: trata-se de uma “sala para fumantesem pleno meio das alas de embarque, onde os que não podem ficar duas horas sem fumar se deliciam à custa da saúde de todos, incluindo crianças. É óbvio que essa idéia de jerico não funciona, até porque a sala, um aquário de vidro, fica o tempo todo com a porta aberta.

Um Kiarostami europeu

A morte do jornalista Juarez Conrado, importante figura da imprensa em Aracaju durante décadas, motivou comentário de um ex-aluno, nas redes, lembrando a projeção que realizei em sala de aula da minissérie “A última semana de Lampião”, baseada em livro de Juarez. O ex-aluno, hoje brilhante colega, diz que nunca esqueceu a série, pelas intermináveistomadas iranianas”, referindo-se aos longos planos seqüências (a filmagem de uma ação contínua num único plano) que viraram marca do “novocinema iraniano.
Novidades à parte, resulta que o Irã tem um dos poucos diretores que mantém o frescor e a força de um cinema inovador, criativo e belo. Abbas Kiarostami, com uma longa filmografia no currículo, fez sua primeira incursão fora da terra do simpático Armadinejad.
É uma produção franco-italiana, rodado na Itália, com minha queridinha Juliette Binoche, que em espanhol se chamaCópia certificada”, um filme interessante, que brinca com a dualidade da relação falso/verdadeiro, tão cara aos nossos dias. Não tem os tais planos de dez minutos, como brincou meu ex-aluno, mas traz os delicados silêncios, pausas e mistérios que anunciam a mão talentosa de Kiarostami.
Ah, para as mulheres, em especial, sugiro verDez” (havia na locadora de Ana Valença, mas creio que fechou), que é um dos melhores filmes que vi na vida. Simples, barato e ... genial. E com aquelas mulheres lindas de Teerã.

2 comentários:

Sérgio Morenno disse...

Luciano, ótimo encontrar seu blog. Comecei a mandar alguns textos seus para o twitter. Aproveitando, sei que gostará, mando aí o endereço de um blog interessante,para colorir os olhos do passado:

http://carissimascatrevagens.blogspot.com

(Sérgio Santos)

Sérgio Morenno disse...

No momento que vi seu blog o adicionei. As meninas não mais me provocam tsunamis sentimentais. A solução foi parar de chorar. Sem dilúvio de lágrimas não há tsunamis no coração.
Nunca mais tive notícias do BOBão .rsrsrsr!