quinta-feira, 25 de outubro de 2012

A primavera bruta dos meus anos


Foi com esse verso, da belíssima canção de Pablo Milanês, que saí de Aracaju, ele martelando como o sambinha que cola de manhã na memória e só sai de noite, quando perdemos os sentidos para o sono. É que remete à minha aurora bruta e faz a ponte com os tempos cansados que este atual senhorzinho experimenta. Estou numa viagem de férias que funciona como prescrição médica. Nada de baladas ou boleros, sacolejos do corpo ou da alma. Depois de um ano e quatro meses lidando com problemas reais, precisei abrir o suspiro, para a máquina não parar. Falhar, já falha. Hoje de manhã vivi um dos raros momentos de medo que conheço na vida: uma luta que cada vez mais perco contra a claustrofobia, um monstro escondido que só quem sofre na pele, nas pulsações e no desespero sabe.

A agência FlyTour de Aracaju me vende um bilhete sem dizer um detalhe que faria eu pagar o dobro, o triplo que eu pudesse para evitá-lo. Depois de uma semana em Madrid, retomo o que seria, no dizer da agência, um trecho internacional. Aí me deparo com o monstro: às oito da manhã estou em Barajas entrando num aviãozinho de duas fileiras de cadeiras duplas da Air Europa, suando no frio e com o coração disparado. Ninguém jamais compreenderá a dor e a agonia de um momento desses, só quem carrega no prontuário um pânico desse tipo. A aeromoça e um conhecido que se encontrava próximo fizeram de tudo pra ajudar, mas isso nem chega perto do remédio.

Quando o coração ameaçava saltar pela boca, engoli uma bomba das de donaAfra, um Lexotan de 2 mg, aquele que te conduz aos melhores paraísos artificiais, dá um sono perfeito (olha o tesouro: falando de sono em casa de insone!), uma espantada na depressão e uma simpática demência que nos tira do mundo salvaje e faz agüentar os trancos da tigrada sem reclamar. Como uma bela puta das melhores burguesias, cobra caro. No meu resto de dia em Lisboa sou um zumbi ambulante. Só em meia hora em que parei num café do Rossio para esperar uma amiga aracajuana, dei quatro estupendos cochilos, destes de perder a cabeça e ter de sair procurando depois. Agora, a uma e dez da manhã, Lisboa me brinda com o maior encanto de uma cidade na noite: o silêncio. Em compensação, o estado de grogue me tirou o programa do fado no Chiado.

O pior é o monstro que range por baixo da cama e se insinua nas sombras do quarto quando tento uma esmola de sono: daqui a seis dias encaro novamente as duas fileiras do desavergonhado aviãozinho e da incauta agência de viagem. Hoje, triste, pensei que minha carreira de viajeiro está caminhando para um fim. E como os atletas decadentes, pendurarei minhas chuteiras num oceano de melancolia.  Por fim, me rendo: estoy me poniendo viejo! A primavera bruta dos meus anos, já dobrou a esquina, lá atrás.

De Lisboa, 25/10/2012. 01:20h.

5 comentários:

Anônimo disse...

Ai, tio, que triste, não sabia que tinha sido assim.
Eu peguei exatamente o mesmo vôo Barajas/Lisboa da Air Europa, com o mesmo aviãozinho e achei as poltronas tão boas que dormi antes de decolar (tudo bem que eu já vinha de umas 18 horas rodando por aí).
Não sei se é porque não consigo entender mesmo como é a claustrofobia, mas fico com muito pesar de te ouvir falar em velhice e pior: em fim de carreira de viajeiro... :(

Carol

Anônimo disse...

No tiene porque sentirse viejo...
É mais uma esquina que ao dobrar se dará conta de tantas outras habilidades ainda a serem criadas e exploradas... São outras viagens... agora mais sensível pra ver e enxergar, tocar e sentir,que sabe aproveitar a calma do corpo pra se jogar com leveza em outras, e tantas, e boas, aventuras da vida... Beijinhos. Débora

Sales Neto disse...

Meu irmão, queria estar aí com vc. Um abraço.

Netaço

Lívia Carvalho disse...

Correia, cara! Estamos tidos vibrando com suas vitórias - férias na Europa não é pra qualquer um e vc não é qualquer um. Aproveite os dias que te restam no velho mundo. Não pense na volta nem nas desventuras da volta... Aguardamos boas notícias ! Prometo uma recepção em nossa casa!
Dona Lívia (a chata)

Aglacy Mary disse...

Donde había una llama, ahora hay una luz. Não é consolo. Somente agora, boas décadas depois da meninice, adquirimos condição de organizar nosso making off. Daqui para a frente, quem não der conta da produção de mais um longa-metragem investe nuns curtas.
Como já disse no face, o texto é belo apesar de nos deixar suspensa a respiração. Parece mesmo que até na dor há beleza. O nome disso é arte, não?