quinta-feira, 30 de julho de 2026

Papai faz 100 anos

 O ano deveria ser 1944 e, por nunca ter checado minuciosamente cada data e lugar, talvez cometa imprecisões sem maiores danos ao valor da história. O menino João, que trabalhava duro na roça sem nunca ter tido uma infância, cumpriu o destino da maioria dos nordestinos pobres daquele tempo: subir na carroceria de um caminhão e enfrentar uma longa estrada de barro até encontrar as promessas de uma São Paulo carente de gente que fosse pau pra toda obra.
Mas antes disso, um detalhe: no caso de João Correia, não se tratava de pobreza, mas de miséria mesmo. Com mais de 10 filhos, meu avô Alexandre ia caminhando desde Carira até Estância para trabalhar nas malhadas de gente melhor situada e voltar, algumas semanas depois, com um saco de farinha e nacos de carne seca tapeando a mistura. 
Acho que o Pai Lixandre, como os netos o chamávamos, na verdade, inventava uma forma de sair de casa com a esperança ou desculpa de ganhar alguns trocados, mas, no fundo, era uma boca a menos pra comer da rala colheita da seca malhada onde a vó Mãe Zifinha extraía o possível para amenizar a fome dos pequenos. O saco de farinha com pedaços de carne seca eram o pagamento. Papai contava com cerca de dez anos e chegou a acompanhar o pai nessas brutas expedições.
O sítio de seu Alexandre Correia ficava a uns dois quilômetros da sede do município. Os pequenos trabalhavam na roça e brincavam no terreiro de chão batido. Papai vestia uma espécie de chambre feito de saco de açúcar. Era a única peça de roupa que ele tinha e, quando minha vó pegava pra lavar, ele ficava nu no quintal, aguardando o saco secar na cerca de vara, sob o sol escaldante daquele sertão poeirento.
Era um menino tranquilo, de voz mansa, trabalhador e inteligente, cujo sonho era poder estudar, ir à escola um dia. Fez somente as primeiras letras, mas sem condições de seguir adiante, só foi reencontrar seu sonho aos 18 anos, quando desembarcou do tal caminhão de pau-de-arara. 
Primeiro, foi para Santos, cidade que até hoje abriga numerosa população de nordestinos. Nos primeiros três meses trabalhou como barbeiro, sabe-se lá como, porque imagino que até então mal conhecia essa ferramenta chamada tesoura. Mas assim ganhou a vida nos primeiros tempos de sudeste.
Trabalho duro e vida difícil não era problema pra quem vem de onde veio. O jovem João arranjou tempo para cursar à noite o antigo curso de Madureza, que permitia fazer o que hoje equivale aos ensinos fundamental e médio num tempo reduzido. Nessa época já tinha deixado de fazer “caminhos de rato” na cabeça de desavisados clientes da barbearia.
Já mudara para São Paulo e agora era cobrador de bonde da velha CMTC - a Companhia Municipal de Transportes Coletivos -, onde permaneceu por nove anos. Dessa época, guardou para sempre na salinha de seu escritório a foto de um bonde semelhante ao que trabalhava, publicada num jornal paulistano.
Como nas músicas de Luiz Gonzaga, fez o caminho de volta. A desculpa foi um concurso público para tabelião em Sergipe. Aprovado, assumiu o cartório do recém-criado município de Macambira, onde logo ganhou o apelido que carregou por toda a vida: João Tabelião. Ali ganhou também o coração de Afra, a Afinha de Seu Cecílio, primeiro prefeito da cidade. Instruído, ajudou na própria organização da Câmara Municipal nos seus primórdios, sendo também vereador e presidente daquela Casa.
Mas, igual ao vô Pai Cecílio, a política foi uma forma de ajudar, nunca de ser ajudado. Meu avô, comerciante de tecidos razoavelmente próspero, parceiro de viagem de Oviêdo Teixeira nas compras de estoque no Recife, entrou na política bem melhor do que quando saiu. Papai mudou de trabalho, depois de aprovado num outro concurso público, agora para a função que antes se chamava Exator – fiscal do Fisco -, assumindo a chefia da Exatoria local, atuando de forma discreta, competente e independente de influências políticas ou econômicas.
Daí veio a necessidade dos cinco filhos estudarem em Itabaiana, já que Macambira não tinha ginásio. Em Itabaiana, foi para a Exatoria, mas sem a chefia, moando numa casa modesta, diferente da nossa enorme casa, uma das melhores de Macambira, mas com a alegria de um recomeço numa cidade que era pujança não só na economia e nos negócios, mas na rica vida cultural, onde também começava a pontuar como potência estadual no esporte a nossa querida Associação Olímpica de Itabaiana.
Em 1976, quando eu passei do ginásio para o antigo Científico no Murilo Braga, Papai também voltou à sua maior paixão: as letras. Retomou o Científico inconcluso em São Paulo e fez vestibular junto comigo em 1979. Ele passou em Letras na UFS. Não é pra me gabar, mas foi em primeiro lugar. Eu, para Engenharia Química, mas para o segundo semestre, já na “rabada”.
O velho João Correia foi um dos melhores alunos de Letras na UFS. Até hoje recolho depoimentos que me comovem, de colegas e professores que relatam mais que sua dedicação, uma paixão mesma pela vida acadêmica. Fazia sentido: passei minha vida cercado de livros, pois ele sempre manteve um escritório para suas leituras em todas as casas que vivemos, com dezenas de livros com as marcações das leituras, que ele fazia simultaneamente de maneira sôfrega, cinco ou seis livros lidos ao mesmo tempo.
Formou-se em Letras num evento festivo que documentei em VHS, em 1985. Uma festa bonita, a mais linda da minha vida, com toda a família no ginásio Constâncio Vieira contemplando a glória daquele sertanejo danado. A essa altura, já numa idade madura, passou novamente em novo concurso público, dessa vez para Auditor Fiscal da Secretaria da Fazenda do Estado, onde se aposentou anos depois. 
Sua paixão pelos estudos se estendia ao desempenho dos filhos e netos, seu maior orgulho. Tive a infinita alegria de sua presença na defesa de minha dissertação de Mestrado na Unisinos, no Rio Grande do Sul, em 2007. Por pouco não assistiu à tese de Doutorado. Morreu em 2010, num dos dias mais tristes da minha vida, agravado pelo fato de que eu estava morando em Madrid, na Espanha, terminando o Doutorado, e de não poder estar presente em seu último adeus.
Para quem, como eu, que não acredita “nessas coisas invisíveis”, como cantava Belchior, João Correia foi meu Deus primeiro e único. Até hoje é difícil aguentar tanta saudade. Vivo me punindo por não ter perguntado mais, por não ter fuçado cada minuto de sua linda e gloriosa vida, quem sabe escrevendo-lhe uma biografia. 
Em Macambira, João Correia foi uma espécie de fundador daquela república municipal, após a cidade conquistar sua emancipação. Até hoje, não há sequer um nome de rua que reconheça seu papel histórico e cultural no município. Na prática, o povo já o fizera antes: ao lado da nossa extensa casa de esquina, que levava quase metade de um quarteirão, a ruazinha de terra batida que ligava a rua Frei Paulo à rua Simão Dias era batizada de “Beco de João Tabelião”. 
Tentei essa homenagem algumas vezes junto a meus parentes locais, no poder praticamente desde meu avô, mas sem sucesso. Menos mal em Itabaiana, que hoje ostenta seu nome uma bela avenida no bairro Chiara Lubich, uma nova fronteira de progresso aberta na locomotiva serrana, justamente numa área que aponta para o crescimento e o futuro. No último dia7 de julho, terça-feira da semana passada, debaixo de nossa imensa saudade, festejamos a memória desse raro ser humano que estaria fazendo 100 anos naquela data, o único Deus que me habita.

A locomotiva que inspira Sergipe

 Na semana passada fui a Itabaiana por dois dias, onde mato saudades, encontro a família e amigos, e passo em revista o crescimento da cidade. A rigor, nada deveria me surpreender, porque estou na serra mais ou menos a cada 15 dias, mas dessa vez tive mais tempo para caminhar pelo seu centro comercial e constatar algumas peculiaridades que fazem da experiência serrana um caso para pensar. 
O esvaziamento dos centros comerciais e históricos das grandes e médias cidades brasileiras é tema batido nas últimas décadas. Já vivi nos centros de Aracaju e Salvador e frequentei muito essas áreas centrais de Porto Alegre e São Paulo em diferentes épocas. De fato, o fenômeno de quase morte dessas regiões precarizadas pelo abandono do poder público e pela evasão de comerciantes que preferiram levar suas atividades para bairros densamente povoados, galerias e shoppings, se multiplicou pelo país inteiro.
Até se registram, aqui ou ali, tentativas de revitalização que tinham tudo para dar cento. A megalópole paulistana, por exemplo, com sua capacidade inventiva de identificar soluções imediatamente, mesmo com administrações ruins como a do prefeito Ricardo Nunes, tem conseguido responder com medidas efetivas. Em Aracaju, no final dos anos de 1990, a gestão do ex-prefeito João Augusto Gama também fez um esforço nesse sentido, mas esbarrou no projeto caótico e desastroso de uma arquiteta de triste memória para os aracajuanos.
 É aí que chegamos ao centro comercial de Itabaiana, município de economia pujante, cujo desenvolvimento se esparrama para outras regiões do estado, seja sob forma de investimentos mais pesados, seja pela difusão de uma marca que virou sinônimo de coisa positiva, com qualidade, eficiência e preço bom. Me refiro aqui às centenas de mercadinhos, bares, madeireiras, lojas de material de construção e outras variedades de comércio que ostentam na porta o que a cultura local dos sergipanos cravou como uma grife: Itabaiana. Eles estão espalhados no estado inteiro, dos bairros populares da capital aos distantes rincões do interior.
E, dentro dessa irrefreável fuga que deslocou a atividade comercial dos centros para bairros e shoppings, Itabaiana apresenta o que os publicitários, sempre com seus inglesismos de congressos, chamam de “case”. Pois Itabaiana é um case de sucesso nas duas pontas dos negócios: nas novas fronteiras abertas nos últimos anos, sobretudo a partir da chegada de Valmir de Francisquinho à prefeitura, e na manutenção de um centro comercial vivo e extremamente ativo.
Os inúmeros negócios abertos em bairros como o Chiaria Lubich, por exemplo, dão mostras de uma cidade moderna, que pratica a inovação na natureza de suas próprias atividades e numa arquitetura de vanguarda, contemporânea e futurista. Na maioria das cidades onde esse processo de deslocamento da atividade econômica ocorreu, a explosão de crescimento nas novas fronteiras significou a ruína dos antigos espaços. Menos em Itabaiana.
É aí que retomo meu périplo a pé desde sua gigantesca feira até a casa de Mamãe, na avenida Luís Magalhães. A rua 7 de Setembro, antes povoada de oficinas mecânicas e outros pequenos negócios, é hoje uma via repleta de lojas de variedades, belíssimos centros médicos e empresariais e modernos escritórios de advocacia, além de restaurantes e lanchonetes que fazem com que a vida permaneça ativa mesmo após o fim do expediente. O sucesso de uma rua, evidentemente, não ocorre isoladamente. No seu entorno, várias artérias secundárias ostentam boutiques, lojas de material esportivo e produtos de tecnologia digital. Tudo isso a poucos metros da praça João Pessoa, onde a vida pulsa praticamente 24 horas por dia.
Essa Itabaiana moderna e economicamente forte não resultou do acaso de iniciativas individuais de empresários e trabalhadores. Tem por trás a ação efetiva e planejada de um rapaz vindo da mais dura labuta. Valmir de Francisquinho “pegou carrego” em feira, foi marchante no mercado de carnes e depois entrou no ramo das auto-escolas. Com a política no sangue, foi vereador mais votado e, depois de cinco mandatos, chegou à prefeitura com uma ideia na cabeça: romper com o ciclo de atraso alimentado pelas duas correntes que ao logo de décadas se revezavam no comando do poder local, ambas com fortes rasgos de coronelismo, assassinatos e desmandos financeiros e administrativos.
Valmir também foi líder estudantil do lendário colégio Murilo Braga, onde presidiu o Centro Acadêmico, o mesmo que também fui diretor, anos antes. Dirigiu por um bom período a rádio Capital do Agreste. Ali, além da administração da emissora, também atuou como âncora de programa jornalístico, afinando ainda mais sua sintonia com o povo.
Os resultados que Itabaiana expõem hoje podem ser comprovados de várias formas, como o périplo que fiz pelas suas ruas. O desenvolvimento está ali empiricamente, a olhos vistos, sem precisar de muletas políticas ou jornalísticas para atestar o sucesso. A marca Itabaiana já se expandiu por todo o Sergipe como exemplo, como lição do que deu e dá certo. Primeiro, pelas mãos de comerciantes, empresários e trabalhadores que resolveram explorar novos mercados. Agora, seu filho Valmir, humilde de origem e de caráter, mas grande na alma e na capacidade transformadora, oferece a todos os sergipanos a oportunidade de que esse estado, vitimado pela má política e por uma elite trepada nas mamatas do poder público há mais de 200 anos, abrace para o futuro dos seus filhos um Sergipe que se espelhe na grandeza da loba Itabaiana-Grande.

Os radicais “livres” das milícias governamentais

 Quando vejo um vereador do interior, desses que usam o ofício nobre do rádio para produzir fake news diariamente, em escala industrial, com ataques rasteiros contra todos os opositores ao governo do Estado, me dou conta de que há desespero nos palácios, ou melhor, nos palcos das sucessivas vilas que animam com arrocha e cachaça a vida dos sergipanos na bela orla de Aracaju. Se a continuação de uma administração depende desse tipo nefasto de “estratégia política”, isso é um sintoma: a casa caiu faz tempo.
Mas, de fato, o atual governo não tem outras alternativas. Se o governador e seus secretários andassem nas ruas ou nas feiras, teriam uma boa ideia de como o povo vê seu governo, ou a ausência vexatória dele, o governo, na vida dos que mais dependem das políticas públicas. Em vez de recorrerem a pesquisas mequetrefes, que só apresentam números para agradar o contratante, iriam ter uma noção de realidade e, quem sabe, reorientar suas ações para criar uma sintonia perdida desde o primeiro dia de gestão.
Sem planos, ideias ou ações, lança-se mão dos factóides, daquilo que o conterrâneo Silvio Romero chamava de “bombinhas da China”. Para quem foca sua política em circo e marketing vazio – o pão já não chega, ou melhor, jamais foi pauta considerada – não se poderia esperar outra coisa senão a montagem de autênticas milícias digitais para promover caos na opinião pública, desconstruir adversários e louvar as inexistentes ações do príncipe. A criação da milícia, talvez, seja contribuição das dezenas de bolsonaristas e da extrema direita apaniguados nos fabulosos CCs da máquina estadual.
O encolhimento da mídia tradicional, ora chamada de corporativa, deu lugar em Sergipe a uma proliferação de perfis, blogs e portais que não abandonaram o jornalismo, simplesmente porque nunca o adotaram como prática ética e profissional. Como dizia Millôr Fernandes, não é imprensa: é armazém de secos e molhados. Só mesmo uma súbita e inexplicável paixão por um governo tão ruim poderia livrá-los da suspeita de que estão todos no bolso da publicidade oficial ou de outras fontes não oficiais . Mas vai que se paxonaram mesmo...
Desgraçadamente, prefixos de rádio também dançam na mesma lambança. Numa das emissoras, fundada por um empresário bem sucedido, já falecido, turrão mas honesto, funciona o QG de um processo de esculhambação diária sob o nome de radiojornalismo. Coitado! Fundador de um serviço noticioso que nas eleições de 1998 se tornou o único canal de voz da oposição sergipana contra uma elite carcomida e corrupta, estaria horrorizado em ver sua emissora a serviço da patifaria.
As vozes da desconstrução são múltiplas e variadas. Saindo de um fundador para um afundador, veja-se o caso de um ex-deputado, batido nas urnas pelo fracasso de uma militância vazia, sem propósitos nem projetos, dedicada sempre a uma só diretriz: estar em onde o governo (de plantão) estiver. Por esses serviços pouquíssimos republicanos, tem suas recompensas. Atualmente dirige a gloriosa e histórica Segrase, órgão da imprensa oficial do estado e de uma formidável editora responsável por centenas de títulos fundamentais à ciência e à cultura dos sergipanos.
Hoje a editora foi desmantelada. Há uns dois anos, pretendendo publicar um livro de crônicas e artigos jornalísticos, sondei os critérios e condições para realizá-lo junto a um dos diretores. A resposta me deixou incrédulo, pela forma sem-cerimônia como ele escancarou a política editorial vigente: “Faça uma carta ao diretor-presidente fazendo o pedido”. Ou seja, não só não existe política editorial, como o próprio Conselho, do qual participei com muita honra no governo de Marcelo Déda, foi simples e cinicamente extinto. Pois o tal diretor-presidente, num dos arroubos para pagar favores recebidos, resolveu tirar dos cachorros e jogar em cima do candidato de oposição ao governo, Valmir de Francisquinho. Embutido no ataque, um julgamento moral e eivado de preconceitos: o itabaianense seria um tabaréu do interior, sem preparo nem projetos para alçar um voo tão alto quanto o do seu atual chefe palaciano.
Foi a segunda vez que fiquei intrigado com o notável ex-deputado, logo ele, brandindo a urgência de planos, ideias e manuais de conduta. Não fora este mesmo político, aposentado pela falta de votos, quem, após alguns mandatos, só conseguiu cravar na biografia a patética cena de um ataque, com facão em punho, contra um barulhento sindicalista? 
Em matéria de servilhismo, só é superado por um senador punitivista, um delegado que enxerga o Congresso Nacional como a antessala de uma delegacia, cujo desespero para manter a boca livre em Brasília o obriga a ginásticas verbais sem o menor pudor. Numa daquelas CPIs espetáculo feitas para ganhar likes, protagonizou o mais vexaminoso papel de um parlamentar por Sergipe em toda a história. Como se diz: ficamos com vergonha alheia. Para esse bajulador do poder, quem ontem era “bandido” e “mafioso”, na sua metralhadora verborrágica para abater concorrentes, passa a ser dócil após as conveniências eleitorais pela sobrevivência. Ainda bem que está entre o quinto ou sexto na preferência do eleitor. Nem mesmo as “pesquisas” amigas do governo conseguem lhes pagar o favor prestado aos palácios e palcos para fustigar os que desafiam a enfrentá-los nas urnas.