Como jornalista, assisti a vários lançamentos da construção do canal de Xingó, sonho acalentado lá atrás pelo então governador João Alves. Vi o antigo Palácio Olímpio Campos se encher de gente e de esperança algumas vezes, seguras de que finalmente a pleiteada obra seria realizada, para redenção dos sergipanos. Nuca se concretizou, senão pelas reiteradas negociações que, ao final, resultaram inúteis. E o sonho perdeu-se nas brumas da memória dos sergipanos.
O canal de Xingó, que seria fruto de uma parceria com o estado da Bahia, teria sua captação no lago de Paulo Afonso IV. Com a desistência dos baianos, que decidiram fazer sozinhos o seu próprio canal, a parte sergipana faria a captação no lago onde se encontra a barragem de mesmo nome, em Canindé do São Francisco. Foi pensado por um governador com perfil técnico, o engenheiro João Alves, que buscava basicamente levar água para fomentar a pequena e média agricultura no Agreste e Baixo São Francisco e suprir o abastecimento das cidades sergipanas, incluindo a capital Aracaju.
O que era só um sonho virou necessidade. Técnicos como o engenheiro Carlos Hermínio, doutor e pós-doutor em Desenvolvimento Rural e Políticas Públicas, garantem que a hora não só chegou, como já estamos atrasados. E diz mais: se a inércia e o imobilismo continuarem predominando, corremos o risco iminente de um colapso de fornecimento de água em todo o estado. A palavra é de um dos maiores especialistas em água e irrigação, não de Sergipe, mas do país.
O alerta de Hermínio nos remete a outra fonte importante, Renato Conde Garcia, engenheiro aposentado da Deso, que produziu um denso estudo de viabilidade para a construção do canal, resumida no livro “Linha mestra Xingó: Uma solução para o abastecimento de água no Estado de Sergipe”. O minucioso trabalho de Conde Garcia aponta caminhos técnicos, levando em conta custos, benefícios e extensão das comunidades beneficiadas. Pelo quase desconhecimento do estudo, é fácil concluir que também encontrou o silêncio e o desinteresse das autoridades.
A falta de prestígio ou mesmo a negligência dos que passaram pelo poder público em Sergipe é um capítulo vergonhoso em nossa história, com antecedentes no passado e a devida atualização no presente. Pelos palácios dos governos estaduais passaram vários governadores desde que se iniciou a duplicação da Br-101. De Aracaju a Propriá são modestos 99 quilômetros, uma obra que a China faria em um mês. No entanto, estamos há décadas vivendo esse pesadelo.
Aqui, o vexame se desdobra até os dias atuais, quando longos trechos ainda permanecem sem duplicação. Não dá para qualificar o papel da classe política local e do responsável pela obra, o governo federal, se não com um doce adjetivo: uma esculhambação, total falta de respeito com os sergipanos. É incrível que alguns dos ocupantes do antigo Olímpio Campos e agora Palácio Adélia Franco, sedes do governo estadual, não tenham se preocupado ou buscado apoio para realizar um projeto tão simples, sem muito custo, se comparado a obras complexas.
Alguns usaram esse prestígio em vão. Para bailar nos salões da Corte, em Brasília, se ofuscando com o falso brilho dos convescotes governamentais, banquetes homéricos pagos com dinheiro público. O suposto prestígio e o acesso livre aos camarotes brasilienses não resultaram em nada mais do que a fama de eloquente a uns ou de sabido demais a outros. Nada dessas badalações na capital da república resultaram em um só benefício ao estado. Recentemente tivemos um sergipano num ministério estratégico do governo Lula. Gaba-se de ter trazido tais e tantos recursos para Sergipe. Vá saber onde estão os resultados! A vergonhosa duplicação da 101 continua expondo para o mundo nossa incompetência, desprestígio e irresponsabilidade.
Quando da transposição do rio São Francisco, Alagoas e Sergipe, os estados amplamente prejudicados pela obra, ganharam como compensação a promessa de construção de dois canais, um para cada lado do rio. O de Alagoas, chamado de Canal do Sertão Alagoano, avança na proporção da capacidade de sua classe política arrancar de Brasília o mínimo cumprimento de promessas, o pequeno naco que nos cabe no histórico desprezo relegado pelo poder central à região. O canal de Alagoas já molha as terras férteis de Arapiraca, potencializando sua produtiva agricultura e abastecendo municípios do semiárido.
E o canal de Sergipe? Bem, aqui simplesmente não temos nada. Ou melhor, temos um arremedo em marcha, consumindo nossos parcos recursos. Trata-se da Adutora do Leite, uma ideia que já começa errada pelo nome. Com esse título, se poderia pensar que se trata de uma espécie de “leitoduto”, uma coisa estapafúrdia, evidentemente. O problema não está numa má denominação, mas no seu projeto técnico, no preço e nas finalidades.
Por ser adutora, e não canal, tem uma capacidade de vazão extremamente reduzida, de 600 litros por segundo. O canal de Xingó, aberto, projeta uma vazão de 15 mil litros por segundo. A adutora do leite, batizada inicialmente de Xingozinho, agora ganhou o nome do Padre Enoque. Começa no São Francisco e termina logo ali, em Nossa Senhora da Glória, finalizando sua missão principal e única, de abastecer o gado que supre a bacia leiteira da região. Teria relevância econômica, não fosse um detalhe que não está sendo levado em conta: o homem, não o gênero masculino, mas o ser humano, razão primeira e última das ações de todos os governos.
A adutora do leite ignora a população e agrava o já calamitoso fornecimento de água em Sergipe, precarizado pela lambança política que resultou na privatização do sistema. Por fim, o valor desse equívoco técnico e administrativo: vai custar (já está nos custando) 680 milhões de reais, contra os 2 bilhões que custaria o Canal de Xingó, com benefícios e abrangência imensuráveis perto do Xingozinho, fazendo tudo que o primeiro promete, e muito, muito mais. Três vezes menos no preço, mas vinte vezes menor na vazão de água.
Com Xingó, teríamos água para os animais e a agricultura e a garantia de abastecimento da população para mais de 50 anos, conforme o estudo técnico. A água seria transportada até depois de Glória, já nas imediações de Ribeirópolis. Dali seguiria seus cursos, dentre eles a adutora para socorrer a capital e os municípios mais necessitados.
A adutora do leite é uma invenção do governo Fábio Mitidieri, que empurrou a conta para o governo federal. No acordo político costurado recentemente com o PT sergipano, o governador “exigiu” esse presente do presidente Lula. Achei que fosse o contrário. Não seria Lula quem deveria cobrar pelo apoio, para subir num palanque tão esdrúxulo? Quem tem os votos dos sergipanos, Lula ou Mitidieri? Mitidieri vai gastar uma pólvora que não é dele, usando nosso prestígio, dos sergipanos, para fazer uma obra menor na concepção e nos benefícios. Da parte de Lula, ganhou um abraço de afogado. Quanto ao canal de Xingó, compensação pelo crime da transposição do São Francisco, segue sendo um sonho, ou melhor, uma miragem.
terça-feira, 11 de agosto de 2026
Canal de Xingó é a principal bandeira de Sergipe
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