Como jornalista, assisti a vários lançamentos da construção do canal de Xingó, sonho acalentado lá atrás pelo então governador João Alves. Vi o antigo Palácio Olímpio Campos se encher de gente e de esperança algumas vezes, seguras de que finalmente a pleiteada obra seria realizada, para redenção dos sergipanos. Nuca se concretizou, senão pelas reiteradas negociações que, ao final, resultaram inúteis. E o sonho perdeu-se nas brumas da memória dos sergipanos.
O canal de Xingó, que seria fruto de uma parceria com o estado da Bahia, teria sua captação no lago de Paulo Afonso IV. Com a desistência dos baianos, que decidiram fazer sozinhos o seu próprio canal, a parte sergipana faria a captação no lago onde se encontra a barragem de mesmo nome, em Canindé do São Francisco. Foi pensado por um governador com perfil técnico, o engenheiro João Alves, que buscava basicamente levar água para fomentar a pequena e média agricultura no Agreste e Baixo São Francisco e suprir o abastecimento das cidades sergipanas, incluindo a capital Aracaju.
O que era só um sonho virou necessidade. Técnicos como o engenheiro Carlos Hermínio, doutor e pós-doutor em Desenvolvimento Rural e Políticas Públicas, garantem que a hora não só chegou, como já estamos atrasados. E diz mais: se a inércia e o imobilismo continuarem predominando, corremos o risco iminente de um colapso de fornecimento de água em todo o estado. A palavra é de um dos maiores especialistas em água e irrigação, não de Sergipe, mas do país.
O alerta de Hermínio nos remete a outra fonte importante, Renato Conde Garcia, engenheiro aposentado da Deso, que produziu um denso estudo de viabilidade para a construção do canal, resumida no livro “Linha mestra Xingó: Uma solução para o abastecimento de água no Estado de Sergipe”. O minucioso trabalho de Conde Garcia aponta caminhos técnicos, levando em conta custos, benefícios e extensão das comunidades beneficiadas. Pelo quase desconhecimento do estudo, é fácil concluir que também encontrou o silêncio e o desinteresse das autoridades.
A falta de prestígio ou mesmo a negligência dos que passaram pelo poder público em Sergipe é um capítulo vergonhoso em nossa história, com antecedentes no passado e a devida atualização no presente. Pelos palácios dos governos estaduais passaram vários governadores desde que se iniciou a duplicação da Br-101. De Aracaju a Propriá são modestos 99 quilômetros, uma obra que a China faria em um mês. No entanto, estamos há décadas vivendo esse pesadelo.
Aqui, o vexame se desdobra até os dias atuais, quando longos trechos ainda permanecem sem duplicação. Não dá para qualificar o papel da classe política local e do responsável pela obra, o governo federal, se não com um doce adjetivo: uma esculhambação, total falta de respeito com os sergipanos. É incrível que alguns dos ocupantes do antigo Olímpio Campos e agora Palácio Adélia Franco, sedes do governo estadual, não tenham se preocupado ou buscado apoio para realizar um projeto tão simples, sem muito custo, se comparado a obras complexas.
Alguns usaram esse prestígio em vão. Para bailar nos salões da Corte, em Brasília, se ofuscando com o falso brilho dos convescotes governamentais, banquetes homéricos pagos com dinheiro público. O suposto prestígio e o acesso livre aos camarotes brasilienses não resultaram em nada mais do que a fama de eloquente a uns ou de sabido demais a outros. Nada dessas badalações na capital da república resultaram em um só benefício ao estado. Recentemente tivemos um sergipano num ministério estratégico do governo Lula. Gaba-se de ter trazido tais e tantos recursos para Sergipe. Vá saber onde estão os resultados! A vergonhosa duplicação da 101 continua expondo para o mundo nossa incompetência, desprestígio e irresponsabilidade.
Quando da transposição do rio São Francisco, Alagoas e Sergipe, os estados amplamente prejudicados pela obra, ganharam como compensação a promessa de construção de dois canais, um para cada lado do rio. O de Alagoas, chamado de Canal do Sertão Alagoano, avança na proporção da capacidade de sua classe política arrancar de Brasília o mínimo cumprimento de promessas, o pequeno naco que nos cabe no histórico desprezo relegado pelo poder central à região. O canal de Alagoas já molha as terras férteis de Arapiraca, potencializando sua produtiva agricultura e abastecendo municípios do semiárido.
E o canal de Sergipe? Bem, aqui simplesmente não temos nada. Ou melhor, temos um arremedo em marcha, consumindo nossos parcos recursos. Trata-se da Adutora do Leite, uma ideia que já começa errada pelo nome. Com esse título, se poderia pensar que se trata de uma espécie de “leitoduto”, uma coisa estapafúrdia, evidentemente. O problema não está numa má denominação, mas no seu projeto técnico, no preço e nas finalidades.
Por ser adutora, e não canal, tem uma capacidade de vazão extremamente reduzida, de 600 litros por segundo. O canal de Xingó, aberto, projeta uma vazão de 15 mil litros por segundo. A adutora do leite, batizada inicialmente de Xingozinho, agora ganhou o nome do Padre Enoque. Começa no São Francisco e termina logo ali, em Nossa Senhora da Glória, finalizando sua missão principal e única, de abastecer o gado que supre a bacia leiteira da região. Teria relevância econômica, não fosse um detalhe que não está sendo levado em conta: o homem, não o gênero masculino, mas o ser humano, razão primeira e última das ações de todos os governos.
A adutora do leite ignora a população e agrava o já calamitoso fornecimento de água em Sergipe, precarizado pela lambança política que resultou na privatização do sistema. Por fim, o valor desse equívoco técnico e administrativo: vai custar (já está nos custando) 680 milhões de reais, contra os 2 bilhões que custaria o Canal de Xingó, com benefícios e abrangência imensuráveis perto do Xingozinho, fazendo tudo que o primeiro promete, e muito, muito mais. Três vezes menos no preço, mas vinte vezes menor na vazão de água.
Com Xingó, teríamos água para os animais e a agricultura e a garantia de abastecimento da população para mais de 50 anos, conforme o estudo técnico. A água seria transportada até depois de Glória, já nas imediações de Ribeirópolis. Dali seguiria seus cursos, dentre eles a adutora para socorrer a capital e os municípios mais necessitados.
A adutora do leite é uma invenção do governo Fábio Mitidieri, que empurrou a conta para o governo federal. No acordo político costurado recentemente com o PT sergipano, o governador “exigiu” esse presente do presidente Lula. Achei que fosse o contrário. Não seria Lula quem deveria cobrar pelo apoio, para subir num palanque tão esdrúxulo? Quem tem os votos dos sergipanos, Lula ou Mitidieri? Mitidieri vai gastar uma pólvora que não é dele, usando nosso prestígio, dos sergipanos, para fazer uma obra menor na concepção e nos benefícios. Da parte de Lula, ganhou um abraço de afogado. Quanto ao canal de Xingó, compensação pelo crime da transposição do São Francisco, segue sendo um sonho, ou melhor, uma miragem.
Espaço Público
Luciano Correia
terça-feira, 11 de agosto de 2026
Canal de Xingó é a principal bandeira de Sergipe
As almas profanas de Itabaiana Grande
Em Itabaiana sempre se disse que as pequenas cidades situadas em suas cercanias eram satélites em relação à metrópole, numa metáfora muito pretensiosa que, se não verdadeira, mas dava conta do espírito de protagonismo que sempre marcou os itabaianenses. Nunca me importei com isso, por uma razão muito positiva: sempre gostei de me relacionar com as matrizes, sem nunca perder a afeição pela aldeia que me serviu de berço. Assim, fui um menino feliz e orgulhoso de minha pequena Macambira, criado numa família remediada, mas tradicional, cujo avô Cecílio havia sido o primeiro prefeito. Papai também foi vereador, num só mandato, época em que essa atividade não era remunerada, mas preferiu focar sua dedicação à chefia da exatoria local e aos cuidados com a família, sobretudo com o estudo de seus cinco filhos – o sexto e último só viria depois, em Itabaiana.
Fui então dono do pedaço que me cabia no mundo. Os limites mais distantes ficavam na famosa cachoeira, quando, em passeios frequentes, ia me deliciar com aquele que era, sem competição, o melhor programa de um menino naquela quadra da vida. Os passeios mais curtos – e igualmente prazerosos – eram as caminhadas com os garotos da mesma faixa etária para ir tomar banho em alguns dos tanques situados no entorno da sede do município. Jamais esqueci os banhos no Tanque Grande, Tanque Novo, Açude do Julião, Açude de Tidinho e outros balneários menos referidos. Como era muito pequeno, Mamãe sempre temeu essas fugidas, pelo risco de afogamento, principalmente, já que na época praticamente não havia registro dessa violência que banalizou a vida na cidade ou no campo.
Certa vez, voltando de longa marcha ao Tanque Grande, já no povoado Sobrado, que faz limite com Itabaiana, fui sondando a casa e vendo qual a melhor porta de entrada. Morávamos numa grande e bela casa, numa esquina, entre as ruas Frei Paulo e o chamado “Beco de João Tabelião”, nome pelo qual Papai, João Correia, foi conhecido em Macambira por toda a vida. Dessa vez sondei o beco, através de uma das janelas do oitão da casa. Subi num alto degrau para alcançar a janela que dava visão para a cozinha e, justo na hora em que botei a cabeça para checar se a barra tava limpa, Dona Afra, tabeliã, antes professora primária, que pouco se dedicava às prendas do lar, estava num raro dia dedicado às tais prendas. Cortava alguma carne na mesa da cozinha e de vez em quando passava o olho na janela que dava para o oitão. Nesse fim de tarde fatídico, houve as armadilhas do acaso fazer coincidir a aparição de minha grande cabeça e o olhar de Mamãe. Nem preciso gastar tempo com o diálogo ocorrido, aliás, como em milhares de outras vezes, um monólogo, no qual Mamãe intercalava alguns xingamentos com as chineladas distribuídas com força e vontade por todas as partes do corpo, algo que, com o passar dos anos, me fez um exímio defensor das chineladas de Mamãe. Houve um tempo, um pouco depois, que troquei um violão de lata de goiabada feito por Papai pelo mais improvável de todos os produtos: uma macaca, espécie de pequeno chicote que meu amigo Fobica levava com ele para pastorar umas ovelhas no terreno do pai. Essa macaca foi logo transformada no principal instrumento das surras lá em casa, pra minha desgraça e ódio de minhas irmãs, ainda mais incrédulas de como poderiam ter um irmão tão burro.
Esse meu gosto por banhos me levaria um dia, evidentemente, ao mar, a outra ponta que completa minha apaixonada relação com as águas. Mas antes cheguei ao famoso banho da Ribeira, em Itabaiana, cujos passeios dominicais, anunciados com muita antecedência, me deixavam ansioso e mal conseguindo dormir, à medida que se aproximava a grande festa de meu espírito. Desgraçadamente foi lá, na Ribeira, por volta de 1977, 78, que perdi um amigo, irmão do meu primeiro e melhor amigo em Itabaiana, Blanar, falecido no início de 2017. Berilo, filho de “seu” Siqueira e Dona Belaíde, morreu aos 15 anos, afogado, num domingo que inaugurou a tristeza em minha vida de adolescente. Poucos anos depois, quando eu deixava Aracaju e o curso de Engenharia Química na UFS para estudar Jornalismo na UFBA, me despedi de Sergipe publicando um pequeno livro de poesia, uma edição alternativa e artesanal com um pequeno apoio cultural das entidades do movimento estudantil. No “Passeio”, eu dediquei ao pequeno Berilo:
Itabaiana não entrou em minha vida só pelos banhos na Ribeira, mas por três grandes amores que enriqueciam as preferências de um menino ainda se fazendo gente: o cinema, o futebol e as festas de Natal e Ano Novo. O cinema já era, ao lado dos banhos de tanque e rios, objeto de alegria e festa de meu pequeno coração. Desde o velho cinema de Gregório, em Macambira, em um prédio próprio ou improvisado no Vapor de Eronildes, meu tio e padrinho, querido e inesquecível Tio Nide. O Vapor, pequena fábrica de descaroçamento de algodão, por algum tempo serviu às maravilhas da sétima arte. Houve um outro período em que os filmes eram exibidos no talho de carne, com a gravidade de que as sessões aconteciam no dia da feira, com as bancas já “limpas”, mas o cheiro de sangue e carne morta comparecendo do começo ao fim. Não precisa dizer que não havia assentos e que esta era uma providência para o próprio cinéfilo resolver. Aí, morri de tristeza nas quatro vezes em que assisti “Coração de Luto”, um clássico do cinema nacional que contava a trágica história do cantor gaúcho Teixeirinha e que me deixou alguns bons anos assustado com a possibilidade de perder minha mãe. Já na época, os filhos-da-puta dos moleques de rua, meus amigos, se referiam à película como “O Churrasquinho de Mãe”. Oh, cruel ironia!
Ainda em Macambira, de vez em quando Papai juntava a família na sua enorme Rural Willys e viajávamos 20 km em estrada de barro e poeira para irmos ver no cine Santo Antônio, de Zé Queiroz, a mais nova atração de Mazzaropi, preferido de Mamãe. Assisti quase tudo do humorista, mas nada comparável ao prazer das sessões das segundas no cinema de Lutero. O futebol tinha lugar central, como na maioria dos garotos em qualquer canto do país. Sempre fui um péssimo jogador, mas jogava com o prazer de quem só tinha aquela última pelada na vida, um fominha que só voltava pra casa, todo sujo, suado e coberto de poeira, arrastado pela empregada Zefinha, uma co-autora de minha criação – coisa comum nas famílias remediadas da época – e que me arrastava pra casa por cima dos pedregulhos e, de vez em quando, me aplicava uns cocorotes, para eu não oferecer mais resistência. Chegava em casa e tomava uma coisa rara na Macambira da época: um banho de chuveiro frio e delicioso que me fazia ter um sono reparador, esse mesmo que logo me abandonou e jamais voltou a brindar minhas noites.
O futebol era paixão nacional e o Brasil acabara de ganhar o Tri no México. Em junho de 1971, poucos meses antes de Papai decidir ir morar em Itabaiana com toda a família, meu tio Zé Bedeu, o irmão mais novo de Mamãe, um tio querido que gostava muito de mim, contava histórias de safadezas no seu armarinho na praça principal, com vistas para a casa do avô Cecílio e da avó Minervina. Uma vez, a empregada de tio Nide fez umas safadezas comigo – coisa comum também naquela época: empregadas bolinando os meninos da família – e, linguarudo, como sigo até hoje, fui logo contar os feitos no armarinho de tio Zé. E ele querendo detalhes, potencializando os fetiches e taras que um dia povoariam a imaginação do incorrigível sobrinho adulto. Era uma mulata, como se disse depois, sargentélica, uma pintura antecipada de Di Cavalcanti, que minhas primeiras manifestações de erotismo logo acusaram.
Tio Zé tinha um dos primeiros toca discos portáteis da cidade, compacto e leve, onde eu não só ouvia os sucessos da época (Carlos Gonzaga, “Que será”; Seresta Moderna e os hinos do tri de 70: “a taça do mundo é nossa/com brasileiro/não há quem possa./ Êh eta esquadrão de ouro/é bom no samba/ é bom no couro”). Ali também ouvi pelo rádio a equipe campeã de Carlos Magalhães, Aroldo Lessa e Wellington Elias, na rádio Cultura, torcendo pelo Sergipe. Não sei as razões, mas em todas essas cidades satélites na órbita de Itabaiana habitava uma forte torcida do Sergipe, então tratado como “o mais querido”, título alcançado após uma eleição feita pela revista Placar, tão suspeita quanto pesquisa de audiência no rádio. Pelo menos até a gloriosa conquista do campeonato de 1969, o Itabaiana não contava com muita torcida nas cidades situadas no entorno. Eu, um deles, tanto pela tradição macambirense, quanto pela “amizade” que desenvolvi desde pequeno com um dos ícones do clube, o empresário João Hora. Fazendeiro proprietário da famosa cachoeira, devo ter conhecido João Hora no cartório de Mamãe ou, quiçá, na exatoria, onde Papai era chefe. Mamãe cuidou de dizer que eu era um alvirrubro, de modo que, a partir de então, fui presenteado com bolas, camisas vermelhas (ele também era dono da loja A Moda, uma das mais tradicionais da Aracaju dos anos 60) e, sei lá por quê, de uma jaqueta de nylon totalmente revestida com aquele material isolante, enfim, um casaco apropriado ao frio do Pólo Norte, na melhor das hipóteses ao inverno da Dinamarca. Creio que o velho e saudoso João Hora me deu tal presente porque o capote era explicitamente vermelho e branco, uma referência imediata ao “mais querido”.
Quando fomos morar em Itabaiana, em novembro de 1971, eu ainda me considerava um torcedor, a ponto de ir para o primeiro dia de aula do ginasial, no começo de 1072, portando uma daquelas pastas mochilas que carregávamos nas costas (virou moda novamente nos últimos anos, para provar que na TV e na moda tudo se copia, nada se cria). A minha tinha o escudo do Sergipe. Evidente que os bravos, brutos e bairristas torcedores mirins da Associação Olímpica de Itabaiana não deixaram barato. Na saída da aula, fui acompanhado por uma gang constituída de nada menos que meus próprios colegas de sala, que, entre insultos e impropérios, socavam a pasta e acertavam chutes neste indefeso e desaforado torcedor do então maior rival do Tremendão da Serra. Não houve surra mais didática. Anos depois, de tanto ir ao estádio presidente Médici (hoje Etelvino Mendonça), acabei arrebatado de forma irreversível e arrebatadora pela magia do Tricolor. Desde então, sou um apaixonado e briguento torcedor, desses que vai para o pé do alambrado xingar juízes e bandeirinhas e cobrar providências dos treinadores. Poucas paixões me mobilizam tanto quanto a Olímpica de Itabaiana, que me faz chorar até quando fazemos gol nos piores, os Boca Juniors e Estancianos locais. Hoje sou, com muito orgulho, vice presidente dessa gloriosa legenda esportiva.
As festas de fim de ano sempre foram a alegria dos meninos de minha geração. Como Macambira concentrava tudo na festa de Reis, no comecinho de janeiro, Papai sempre juntava a família na espaçosa Rural e íamos para o Natal e Ano Novo em Itabaiana, cuja “feirinha”, ou quermesse, funcionava ainda na praça João Pessoa, a mesma do cine Santo Antônio, o mesmo dos filmes de Mazzaropi. Recebia de mesada algumas moedas e ia passear de Barca, Trivoli ou na Onda, que se pronunciava “ondja”, sabe-se lá por qual motivo. Se me sobrassem alguns níqueis ainda arriscava a sorte na Víspora, o bingo no meio da praça onde os sortudos apostadores que enchessem a cartela eram brindados com singelos mimos. Meu fetiche era sardinha e goiabada, duas iguarias que não eram pra qualquer dia do ano, a exemplo de refrigerante, que só bebíamos nas grandes festas ou em caso de doença, a troco de tomar injeção. Já vivendo lá, frequentei assiduamente a feirinha já na atual Praça de Eventos, onde o locutor do bingo de Peixoto, Messias Taquari, entre o anúncio de uma e outra pedra (“de rooommboooo 30”) lia os torpedos enviados para meninas e meninos. Jamais tive uma daquelas canções de Fernando Mendes ou José Augusto a mim dedicadas, mas minhas colegas de escola, na boca da adolescência, ensaiavam as primeiras paqueras.
domingo, 9 de agosto de 2026
Adultos na sala, a nova lição que nos vem do grego Costa-Gavras
O novo filme do grego Costa-Gavras é uma aula de política. O tema da película, a luta do então ministro das Finanças da Grécia, Yanis Varoufakis, contra o establishment das finanças mundiais no processo de renegociação da dívida externa, é também uma aula de esperança.
Quebrada por seguidos governos corruptos e gastadores, a Grécia mergulhou numa crise sem precedentes em 2008. Em 2015, todas as esperanças da população dali foram confiadas à eleição de um jovem engenheiro de 41 anos, Alexis Tsipras, carismático líder do partido de esquerda radical Syriza.
Eleito primeiro-ministro, coloca na pasta das finanças Yanis Varoufakis, jovem brilhante, militante de organizações sem fins lucrativos para a geração de renda para os pobres, um intelectual refinado e professor de importantes universidades de países como Inglaterra, Estados Unidos, Austrália e a própria Grécia.
O filme baseia-se no relato que Varoufakis faz no seu livro "Adultos na Sala: Minha Batalha Contra o Establishment", o passo a passo do duríssimo enfrentamento das feras dos governos e bancos europeus, um jogo bruto e violentamente desequilibrado em favor dos donos do capital.
Habilidoso, preparado como pouquíssimos na política, na economia e na interlocução com os líderes mundiais, Varoufakis lembra o destemor, a obstinação e a utopia de um Che Guevara jovem, antes de virar o que virou no exercício do poder. Só que muito mais preparado, raciocínio ligeiro e mordaz, quando necessário, mas temperado pela paciência e pela tolerância incomuns no ambiente em que ele jogava as cartas da renegociação da dívida grega.
O filme é a reprodução desse sofrido processo em tons fortes, ora dramático, ora com leves toques de humor. Costa-Gavras, um gênio do cinema, muitíssimo mais importante do que uma dezena de "monstros" consagrados pela mídia, com filmes como Z, de 1969, sobre o assassinato de um político liberal em plena ditadura militar grega; Estado de Sítio, 1973, que trata da repressão no Cone Sul, e Missing - Desaparecido, de 1982, sobre os assassinatos políticos na ditadura do general Pinochet no Chile.
Estes são os mais emblemáticos trabalhos de Gavras, um grego que era adorado por dez entre dez companheiros de minha geração.
Costa-Gavras tem uma filmografia extensa, com muitos outros títulos, mas estes foram os que constituíram seu portfólio político, sendo cultuado nos ambientes da esquerda no mundo todo. Um pouco sumido da mídia - desgraçada mídia: de que gostam seus tubarões, afinal? -, ganhou novamente a atenção da crítica com o impagável O Capital, de 2012, seu penúltimo filme, antes de nos brindar com essa maravilha de Adults in The Room - escrevo o título em Inglês porque ainda não foi lançado no Brasil e sabe-se lá que título a indústria nacional, com suas esquisitices, vai arranjar.
O Capital é também um filme extremamente político, dessa vez flertando com o humor e a ortodoxia dos mercados financeiros mundiais, a devoção sagrada ao São Capital.
Em Adults in The Room, ele dramatiza a batalha quase solitária de Varoufakis, sabotado pela direita grega, a mídia - olhe ela aí de novo, cumprindo seu “papel histórico”! - e pares do próprio governo.
Charmoso, inteligente e culto, a impressão é que essas qualidades despertam uma inveja secreta no primeiro-ministro Alexis Tsipras, tais são a passividade e a distância com que acompanha o sangramento público do seu ministro das finanças. Ou não.
Talvez seja mesmo essa a diferença de um político populista de esquerda - Tsipras - e um jovem de esquerda íntegro e transparente - Varoufakis.
O fim da história é conhecido: abandonado pelo populismo calculista do seu líder, não resta a ele senão renunciar. Tsipras, por seu turno, renuncia pouco depois e convoca novas eleições, vencendo e ganhando condições para governar por quatro anos.
Mas em 2019, em novas eleições, adivinhem quem vem para jantar Tsipras, o Syriza e o sonho socialista dos que apostaram numa saída antiliberal, antiausteridade contra a ditadura do FMI e Banco Central Europeu? A velha e onipresente direita, que se aproveita do desgaste provocado pela dose do remédio aplicado na economia para buscar apoio dos mais afetados pelas medidas de arrocho, ele mesmo, o mítico povo, sempre disposto a votar contra si próprio. Sonho socialista grego naufragado, resta-nos o luxo das ideias e a energia de Varoufakis, bálsamo de esperança para essa juventude que vaga nas ruas e universidades, iludidas por tolices como o PSOL e suas antas batizadas.
E o mais importante de tudo isso: a delícia de ver um Costa-Gavras, aos 88 anos, intelectualmente ativo, vibrante, nos entregando obras de arte como Adultos na Sala
A guerra do Oriente Médio e a guerra brasileira pelo mau jornalismo
Os jornais Folha de S. Paulo e O Estado de São Paulo são notórios alvos dos críticos do mau jornalismo, tendencioso, desonesto quase todos os dias. Curiosamente, vem do Estadão, desde meus tempos de faculdade, a repetição da falácia da imparcialidade. De tanto repetir, o jornal dos barões paulistanos parece crer no mito defendido por eles para assacar contra a verdade. Ou não. Quem conhece os Mesquitas sabe que sua suposta decência não chega na esquina. Pelo manual da Folha e Estadão, o bom jornalismo tem que ouvir os dois lados da notícia, como se os fatos pudessem ser relatados somente por duas visões. E eles sabem que estão mentindo.
A imparcialidade é um mito, porque quem pauta, apura, cobre, escreve, edita e publica são pessoas inseridas nos seus mundos, em contextos que favorecem esta ou aquela visão do mundo. A começar pela decisão do que vai ser notícia e o que não merece ser publicizado. E quem teria a balança da relevância dos fatos para decidir essas questões? Qualquer um que mergulhe sério na tarefa de produzir jornalismo. Menos os jornalões da burguesia paulista, porta-vozes de uma extrema direita carcomida e atrasada, as tais elites brasileiras.
A cobertura da guerra no Oriente Médio é um primor de desserviço à boa causa do jornalismo, essa instituição tão fundamental, que Estadão e Folha tanto desprezam. No domingo, o vergonhoso panfletário da família Mesquita publicou a manchete: “Ninguém vai chorar pelo Irã”. Nem na Alemanha nazista qualquer veículo de imprensa se arvorou a uma peça tão nojenta, um escárnio que só aprofunda a decadência de uma elite com DNA nazista, entreguista, sabujos de um imperialismo cuja ruína, se fosse obra de Deus, seria, sem dúvidas, do Deus de Alá.
E o que acontece com a Rede Globo, artífice de todas as patifarias ao longo de décadas, que somente neste quarto parágrafo comparece a esse inventário de vilanias servidas ao público pelas empresas e seus afoitos empregados? A Rede Globo, ora, está sendo a Rede Globo de sempre. Precisa ter estômago e paciência para assistir seus “especialistas” em política internacional se desdobrarem em malabarismos para distorcer os fatos e emitir opinião como sendo informação. No caso, a opinião dos patrões, claro. O pior, por incrível, não é a sabujice demonstrada por todos, mas o descarado despreparo exibido, sem que isso constranja qualquer um deles.
A Internet, que não é só o território sem lei e o campo vasto para a expressão dos idiotas, mais uma vez se mostra útil nesse aspecto: a possibilidade de sairmos dessas bolhas de desinformação e acessarmos canais e, aí sim, especialistas do mundo inteiro oferecendo não só uma visão multipolar, aprofundada como rica em fatos e dados, comprovados não por bruxarias ou preferências, mas pelos protocolos do jornalismo. Vale dizer: não existe jornalismo bom ou ruim, existe jornalismo puro e simples, coisas que o Estadão e a Folha, para suas desgraças, já deixaram de fazer há muito tempo.
A agonia da grande reportagem
No mundo inteiro o jornalismo vive uma fase de precarização, dos salários ao faturamento das empresas, perdendo relevância com a substituição do lugar da notícia pelas narrativas, produzidas e turbinadas por gente de fora do circuito, os tais influencers. O problema aqui não é o espírito corporativista contra invasões de terceiros. Influencer, essa categoria amorfa e imprecisa, não tem compromisso com os protocolos do jornalismo, o rigor técnico na apuração dos fatos e uma moral regida pela ética. E se ética parecer um conceito abstrato, vai uma definição de corpus bem conceituado: o código de ética do jornalismo.
Influencer, de maneira geral, nem sabe o que é isso, e está menos ainda preocupado com essa conversa sobre ética, que lhe parece cosmética, perfumaria pura para dourar o discurso do jornalismo chamado de profissional. Jornalista não: pode ser raso na forma e no conteúdo, fraco no texto e medíocre na visão do mundo, mas passou pelo domínio de uma ferramenta tão fabulosa quanto o soro caseiro. Me refiro à linguagem jornalística, esse conjunto de regras simples, portanto não muito complexo, que através de um conceito chamado de lead dá conta da narração de um fato com a integridade mínima para informar num parágrafo de cinco linhas.
Isso nem todos dominam. Os advogados, por exemplo, alguns cultos, intelectuais refinados e muitas vezes oradores brilhantes, nem sempre conseguem dar conta de uma simples notícia factual. O jornalismo mais antigo, de antes do diploma, acusava dezenas e centenas de advogados em redações no país inteiro. Muitos, de fato, dominaram a linguagem objetiva do jornalismo, outros se perdiam numa peroração retórica de textos palavrosos. Ou, como dizia Caetano: demasiadas palavras, fraco impulso de vida.
Essas reflexões me vieram à mente a propósito da exibição, essa semana, na disciplina de Jornalismo Especializado, do documentário Garrafas ao Mar: a Víbora Manda Lembranças, do grande jornalista Geneton Moraes Neto. O filme é uma robusta aula de Jornalismo, baseada na trajetória daquele que é considerado o maior repórter da história da imprensa no Brasil, Joel Silveira. Para sorte dos sergipanos, tão carentes de homens notáveis, além dos políticos medalhados que frequentam banquetes nos salões da Corte, em Brasília. Joel é nascido em Lagarto, criado em Aracaju, onde viveu até os 18 anos.
O documentário apresenta o resultado de vinte anos de trabalho de Geneton em entrevistas e conversas com Joel, de quem se tornou, além de amigo, parceiro em um livro, pelo menos. A Víbora, apelido dado por Assis Chateaubriand, o todo poderoso dono dos Diários Associados e da Rede Tupi de Televisão, destila sua fumegante verve contra a mediocridade vigente na política, na imprensa e na sociedade de forma geral, contra os defensores da neutralidade jornalística, que Nelson Rodrigues chamou de “idiotas da objetividade”.
Conta, por exemplo, da solidão que sofreu na Aracaju dos anos 80, quando voltou a viver aqui, a convite do governo do Estado, para ocupar a Secretaria da Cultura. Segundo ele, a aridez da cidade era tanta que só tinha uma pessoa com quem podia conversar, o então arcebispo Dom Luciano Cabral Duarte. “Ele era culto, cultíssimo, e a gente tinha um acordo: nem eu falava de mulheres, nem ele falava de Deus”, relembra Joel, que em outras entrevistas confessou que os assuntos discutidos versavam de música (clássica, evidentemente), literatura e filosofia.
Formado em jornalismo há pouco tempo, e ainda exercendo minha tola fúria na então alternativa e vibrante Folha da Praia, fiz a besteira que me acompanhou por quase toda minha vida: comprar pra mim a briga dos outros. Do nada, cutuquei a serpente com vara curta e recebi de volta um assustador bilhete, timbrado, com o poderoso nome de Joel Silveira no canto da folha, com a ternura digna da fama: “Você ainda vai engolir esta merda”. Não engoli. Beberrão, como sempre fui, mulherengo, como sempre admirei, aquele homem infinitamente maior do que eu se tornou meu amigo.
Ainda guardo fresca na memória a imagem de um Joel maestro, ouvindo Mozart às quatro da manhã e regendo uma orquestra imaginária no quintal do poeta Amaral Cavalcante. Era minha despedida para uma de minhas diásporas. Ganhei de presente uma fita K-7 de Mozart e a conversa com o maior repórter da imprensa brasileira, entre várias rodadas de uísque. Esse jornalista extraordinário, destemido e desprendido, o sujeito que fez da reportagem jornalística quase uma obra de arte.
quinta-feira, 6 de agosto de 2026
Quando os ratos entram na política
A política sergipana, como a cantiga da perua, vai de mal a pior. Na semana passada inventaram um rato passeando no mercado de carnes de Itabaiana para tentar atingir a candidatura de Valmir de Francisquinho ao governo do estado. Essa foi a maquinação da semana, somando-se a tantas que têm feito de nossa política uma atividade menor, farta em ataques pessoais e na produção de fake news em escala industrial. Aposta-se no vazio de ideias e na orquestração da mentira como munição para um exército de radialistas e emissoras escancaradamente desonestos, pagos com dinheiro grosso.
Além desse simulacro de jornalismo corrompido, uma outra tropa de choque composta de portais, blogs e perfis nas redes completam esse serviço de desconstrução das oposições em Sergipe. Os alvos são, além do candidato Valmir, a gestão da prefeitura de Aracaju e membros da oposição política estadual. Nunca se viu jogo tão baixo. O único interessado nessa guerra suja, evidentemente, são os atuais ocupantes do governo. Mas faltam elementos para provar essa fantástica coincidência em letras de uma imprensa que não sejam as desse pseudojornalismo de aluguel. Eis aí uma pauta que confirmaria a grandeza e importância de instituições como a Justiça e o ministério público estadual.
Antes que os ratos de rádio e das redes digitais encerrassem a inventada novela dos ratos serranos, explodem com outra fake news, dessa vez sobre uma suposta cassação da candidatura de Valmir de Francisquinho. A nova orquestração do consórcio de coincidências entre governo e jornalismo de aluguel tenta jogar a eleição em Sergipe, mais uma vez, para a disputa no Tapetão dos tribunais. Essa é a democracia do tal consórcio desnudando despudoramente mais uma coincidência: foi a ação deletéria dos dois lados que anulou a eleição estadual de 2022 e fez do terceiro colocado nas urnas o novo mandatário do Estado. Mas são só coincidências.
A candidatura de Francisquinho deixa em polvorosa os governistas que, sem muita fé nas regras do jogo democrático e em votos nas urnas, apostam em levar novamente para o Tapetão a mais formidável ferramenta da democracia: uma eleição livre, transparente e feita dentro das regras. Aí já não se tratam de coincidências. A tentativa de melar as regras e cuspir na democracia partiu de um governista de quatro costados, o secretário estadual de Cultura, Valadares Filho. Pedigree para esse serviço não lhe falta, afinal, foi uma das vozes mais entusiasmadas no golpe perpetrado pelo Congresso para derrubar a presidente Dilma Roussef sob uma acusação absolutamente improcedente.
De posse de uma peça jurídica que há dias dormitava em suas gavetas, o culto e produtivo secretário estadual de Cultura aguardou o último dia para a entrada de recursos para apresentar uma argumentação frágil e desconexa, talvez espelhando a confusão mental de seus criadores, pedindo a cassação de Valmir pela violação da norma eleitoral por uma infração que jamais existiu. Se no campo da cultura o pequeno golpista não vai além dos pracatuns cajuenses e dos intermináveis forrós de 60 dias, na prestação de favores ao príncipe foi mais voluntarioso, sem que isso lhe deixasse com uma ponta de vergonha e constrangimento. Mas ganhou as manchetes da semana no jornalismo fake produzido pelos seus aliados.
Os protagonistas dessa última ópera bufa, na verdade, desprezam não só a democracia, como as instâncias jurídicas, desconsiderando não só a independência e autonomia do Poder Judiciário, mas imaginando que seus membros, que ali chegaram por mérito, talento e concursos públicos, poderiam acolher pedaladas eleitorais para tirar do povo o direito ao voto. Homens e mulheres cujas biografias não tolerariam um desrespeito tamanho. Aguardemos a patacoada da próxima semana.
sábado, 1 de agosto de 2026
Glória e ocaso do ex-país do futebol
Depois de 24 anos sem ganhar uma Copa do Mundo e ser eliminada pela sexta vez por uma seleção europeia, a antes gloriosa Seleção Canarinha marcha de forma inexorável para o mais humilhante ocaso. Foi-se o tempo em que viajávamos pelo mundo e o principal passaporte dos brasileiros eram nomes dos nossos craques. Pela ordem: Pelé, Ronaldo, Ronaldinho, Rivaldo, Romário, Cacá... Neymar. Hoje não temos um sequer, ninguém que chegue perto de craques que estavam todos os anos na lista dos melhores do mundo.
O Brasil jogava nas regras, mas fazia a diferença com uma criatividade única, um molejo malandro dos Didis e Garrinchas que não só deixavam o mundo encantado, como faziam a diferença nos resultados. Ganhávamos de cinco, seis, sete gols. Já a Europa, era burocrática, escrava das regras. Hoje somos nós os burocratas do futebol, sem criatividade, cumprindo o ordinário dentro de campo. Em compensação, a Europa incorporou o estilo e agora pratica um futebol com jeito de arte.
Quem diabos inventou a cobrança de pênalti com paradinha? Se o esporte bretão nacional não padecesse de tantas mazelas, de uma imensa Brasília corrupta espalhada pelos 27 Estados sustentando uma CBF podre em forma e conteúdo, só a infame paradinha do pênalti serviria para atestar nossa indigência.
Pois coube a Bruno Guimarães, justamente um dos poucos que jogava futebol dentro do campo, cobrar uma penalidade com a paradinha que denuncia o canto onde se pretende jogar a bola. Ancelotti não serviu nem pra isso: pra corrigir essas estultices e botar ordem na bagaça.
Ancelotti ainda é um dos melhores treinadores, até porque não temos outros no horizonte, mas é um conservador, que fez bobagens de principiante na montagem do time. Porém o pior não é o fiasco técnico-tático, mas a adesão ao pacto da safadeza, a começar pela convocação de um Neymar totalmente fora de condições e a patacoada daquela festa cafona da convocação, a concessão ao mundo fútil dos influencers e outras iniquidades.
Depois disso, perdeu a vergonha de vez: foi ao samba, gravou comerciais de cerveja e até ensaiou uns versinhos do hino nacional. Só faltou pedir uma rapariga emprestada ao presidente da CBF, alguma de sua fabulosa coleção.
O cara que veio para consertar, com a autoridade de um quebra-tudo, capitulou à turma do Neymar e sua famiglia mafiosa, dos jogadores de brinco de diamante e dos dirigentes com suas putas alegres. Se era para depender dos Casemiros gordos e cansados, era melhor apostar em Pedro, João Pedro e outros que não foram chamados porque não estavam no seu radar europeu do Real Madrid. Time que tem um Paquetá não merece ser chamado de seleção.
Foi melhor assim. Como diziam os militantes do PSOL, quanto pior, melhor. O fundo do poço é logo aqui. Mas que ninguém se iluda: a esperança de uma virada virou conversa da ressaca da última derrota. Vai existir sempre, para a canalhada da CBF e suas amantes patrocinadas continuarem existindo e rindo de nossa cara de palhaço. Enquanto o futebol brasileiro, CBF, Rede Globo e agora as Bets forem a expressão do lodaçal da Brasília e de nosso Congresso Nacional, seremos a partir de agora, e sempre, o ex-país do futebol.
quinta-feira, 30 de julho de 2026
Papai faz 100 anos
O ano deveria ser 1944 e, por nunca ter checado minuciosamente cada data e lugar, talvez cometa imprecisões sem maiores danos ao valor da história. O menino João, que trabalhava duro na roça sem nunca ter tido uma infância, cumpriu o destino da maioria dos nordestinos pobres daquele tempo: subir na carroceria de um caminhão e enfrentar uma longa estrada de barro até encontrar as promessas de uma São Paulo carente de gente que fosse pau pra toda obra.
Mas antes disso, um detalhe: no caso de João Correia, não se tratava de pobreza, mas de miséria mesmo. Com mais de 10 filhos, meu avô Alexandre ia caminhando desde Carira até Estância para trabalhar nas malhadas de gente melhor situada e voltar, algumas semanas depois, com um saco de farinha e nacos de carne seca tapeando a mistura.
Acho que o Pai Lixandre, como os netos o chamávamos, na verdade, inventava uma forma de sair de casa com a esperança ou desculpa de ganhar alguns trocados, mas, no fundo, era uma boca a menos pra comer da rala colheita da seca malhada onde a vó Mãe Zifinha extraía o possível para amenizar a fome dos pequenos. O saco de farinha com pedaços de carne seca eram o pagamento. Papai contava com cerca de dez anos e chegou a acompanhar o pai nessas brutas expedições.
O sítio de seu Alexandre Correia ficava a uns dois quilômetros da sede do município. Os pequenos trabalhavam na roça e brincavam no terreiro de chão batido. Papai vestia uma espécie de chambre feito de saco de açúcar. Era a única peça de roupa que ele tinha e, quando minha vó pegava pra lavar, ele ficava nu no quintal, aguardando o saco secar na cerca de vara, sob o sol escaldante daquele sertão poeirento.
Era um menino tranquilo, de voz mansa, trabalhador e inteligente, cujo sonho era poder estudar, ir à escola um dia. Fez somente as primeiras letras, mas sem condições de seguir adiante, só foi reencontrar seu sonho aos 18 anos, quando desembarcou do tal caminhão de pau-de-arara.
Primeiro, foi para Santos, cidade que até hoje abriga numerosa população de nordestinos. Nos primeiros três meses trabalhou como barbeiro, sabe-se lá como, porque imagino que até então mal conhecia essa ferramenta chamada tesoura. Mas assim ganhou a vida nos primeiros tempos de sudeste.
Trabalho duro e vida difícil não era problema pra quem vem de onde veio. O jovem João arranjou tempo para cursar à noite o antigo curso de Madureza, que permitia fazer o que hoje equivale aos ensinos fundamental e médio num tempo reduzido. Nessa época já tinha deixado de fazer “caminhos de rato” na cabeça de desavisados clientes da barbearia.
Já mudara para São Paulo e agora era cobrador de bonde da velha CMTC - a Companhia Municipal de Transportes Coletivos -, onde permaneceu por nove anos. Dessa época, guardou para sempre na salinha de seu escritório a foto de um bonde semelhante ao que trabalhava, publicada num jornal paulistano.
Como nas músicas de Luiz Gonzaga, fez o caminho de volta. A desculpa foi um concurso público para tabelião em Sergipe. Aprovado, assumiu o cartório do recém-criado município de Macambira, onde logo ganhou o apelido que carregou por toda a vida: João Tabelião. Ali ganhou também o coração de Afra, a Afinha de Seu Cecílio, primeiro prefeito da cidade. Instruído, ajudou na própria organização da Câmara Municipal nos seus primórdios, sendo também vereador e presidente daquela Casa.
Mas, igual ao vô Pai Cecílio, a política foi uma forma de ajudar, nunca de ser ajudado. Meu avô, comerciante de tecidos razoavelmente próspero, parceiro de viagem de Oviêdo Teixeira nas compras de estoque no Recife, entrou na política bem melhor do que quando saiu. Papai mudou de trabalho, depois de aprovado num outro concurso público, agora para a função que antes se chamava Exator – fiscal do Fisco -, assumindo a chefia da Exatoria local, atuando de forma discreta, competente e independente de influências políticas ou econômicas.
Daí veio a necessidade dos cinco filhos estudarem em Itabaiana, já que Macambira não tinha ginásio. Em Itabaiana, foi para a Exatoria, mas sem a chefia, moando numa casa modesta, diferente da nossa enorme casa, uma das melhores de Macambira, mas com a alegria de um recomeço numa cidade que era pujança não só na economia e nos negócios, mas na rica vida cultural, onde também começava a pontuar como potência estadual no esporte a nossa querida Associação Olímpica de Itabaiana.
Em 1976, quando eu passei do ginásio para o antigo Científico no Murilo Braga, Papai também voltou à sua maior paixão: as letras. Retomou o Científico inconcluso em São Paulo e fez vestibular junto comigo em 1979. Ele passou em Letras na UFS. Não é pra me gabar, mas foi em primeiro lugar. Eu, para Engenharia Química, mas para o segundo semestre, já na “rabada”.
O velho João Correia foi um dos melhores alunos de Letras na UFS. Até hoje recolho depoimentos que me comovem, de colegas e professores que relatam mais que sua dedicação, uma paixão mesma pela vida acadêmica. Fazia sentido: passei minha vida cercado de livros, pois ele sempre manteve um escritório para suas leituras em todas as casas que vivemos, com dezenas de livros com as marcações das leituras, que ele fazia simultaneamente de maneira sôfrega, cinco ou seis livros lidos ao mesmo tempo.
Formou-se em Letras num evento festivo que documentei em VHS, em 1985. Uma festa bonita, a mais linda da minha vida, com toda a família no ginásio Constâncio Vieira contemplando a glória daquele sertanejo danado. A essa altura, já numa idade madura, passou novamente em novo concurso público, dessa vez para Auditor Fiscal da Secretaria da Fazenda do Estado, onde se aposentou anos depois.
Sua paixão pelos estudos se estendia ao desempenho dos filhos e netos, seu maior orgulho. Tive a infinita alegria de sua presença na defesa de minha dissertação de Mestrado na Unisinos, no Rio Grande do Sul, em 2007. Por pouco não assistiu à tese de Doutorado. Morreu em 2010, num dos dias mais tristes da minha vida, agravado pelo fato de que eu estava morando em Madrid, na Espanha, terminando o Doutorado, e de não poder estar presente em seu último adeus.
Para quem, como eu, que não acredita “nessas coisas invisíveis”, como cantava Belchior, João Correia foi meu Deus primeiro e único. Até hoje é difícil aguentar tanta saudade. Vivo me punindo por não ter perguntado mais, por não ter fuçado cada minuto de sua linda e gloriosa vida, quem sabe escrevendo-lhe uma biografia.
Em Macambira, João Correia foi uma espécie de fundador daquela república municipal, após a cidade conquistar sua emancipação. Até hoje, não há sequer um nome de rua que reconheça seu papel histórico e cultural no município. Na prática, o povo já o fizera antes: ao lado da nossa extensa casa de esquina, que levava quase metade de um quarteirão, a ruazinha de terra batida que ligava a rua Frei Paulo à rua Simão Dias era batizada de “Beco de João Tabelião”.
Tentei essa homenagem algumas vezes junto a meus parentes locais, no poder praticamente desde meu avô, mas sem sucesso. Menos mal em Itabaiana, que hoje ostenta seu nome uma bela avenida no bairro Chiara Lubich, uma nova fronteira de progresso aberta na locomotiva serrana, justamente numa área que aponta para o crescimento e o futuro. No último dia7 de julho, terça-feira da semana passada, debaixo de nossa imensa saudade, festejamos a memória desse raro ser humano que estaria fazendo 100 anos naquela data, o único Deus que me habita.
A locomotiva que inspira Sergipe
Na semana passada fui a Itabaiana por dois dias, onde mato saudades, encontro a família e amigos, e passo em revista o crescimento da cidade. A rigor, nada deveria me surpreender, porque estou na serra mais ou menos a cada 15 dias, mas dessa vez tive mais tempo para caminhar pelo seu centro comercial e constatar algumas peculiaridades que fazem da experiência serrana um caso para pensar.
O esvaziamento dos centros comerciais e históricos das grandes e médias cidades brasileiras é tema batido nas últimas décadas. Já vivi nos centros de Aracaju e Salvador e frequentei muito essas áreas centrais de Porto Alegre e São Paulo em diferentes épocas. De fato, o fenômeno de quase morte dessas regiões precarizadas pelo abandono do poder público e pela evasão de comerciantes que preferiram levar suas atividades para bairros densamente povoados, galerias e shoppings, se multiplicou pelo país inteiro.
Até se registram, aqui ou ali, tentativas de revitalização que tinham tudo para dar cento. A megalópole paulistana, por exemplo, com sua capacidade inventiva de identificar soluções imediatamente, mesmo com administrações ruins como a do prefeito Ricardo Nunes, tem conseguido responder com medidas efetivas. Em Aracaju, no final dos anos de 1990, a gestão do ex-prefeito João Augusto Gama também fez um esforço nesse sentido, mas esbarrou no projeto caótico e desastroso de uma arquiteta de triste memória para os aracajuanos.
É aí que chegamos ao centro comercial de Itabaiana, município de economia pujante, cujo desenvolvimento se esparrama para outras regiões do estado, seja sob forma de investimentos mais pesados, seja pela difusão de uma marca que virou sinônimo de coisa positiva, com qualidade, eficiência e preço bom. Me refiro aqui às centenas de mercadinhos, bares, madeireiras, lojas de material de construção e outras variedades de comércio que ostentam na porta o que a cultura local dos sergipanos cravou como uma grife: Itabaiana. Eles estão espalhados no estado inteiro, dos bairros populares da capital aos distantes rincões do interior.
E, dentro dessa irrefreável fuga que deslocou a atividade comercial dos centros para bairros e shoppings, Itabaiana apresenta o que os publicitários, sempre com seus inglesismos de congressos, chamam de “case”. Pois Itabaiana é um case de sucesso nas duas pontas dos negócios: nas novas fronteiras abertas nos últimos anos, sobretudo a partir da chegada de Valmir de Francisquinho à prefeitura, e na manutenção de um centro comercial vivo e extremamente ativo.
Os inúmeros negócios abertos em bairros como o Chiaria Lubich, por exemplo, dão mostras de uma cidade moderna, que pratica a inovação na natureza de suas próprias atividades e numa arquitetura de vanguarda, contemporânea e futurista. Na maioria das cidades onde esse processo de deslocamento da atividade econômica ocorreu, a explosão de crescimento nas novas fronteiras significou a ruína dos antigos espaços. Menos em Itabaiana.
É aí que retomo meu périplo a pé desde sua gigantesca feira até a casa de Mamãe, na avenida Luís Magalhães. A rua 7 de Setembro, antes povoada de oficinas mecânicas e outros pequenos negócios, é hoje uma via repleta de lojas de variedades, belíssimos centros médicos e empresariais e modernos escritórios de advocacia, além de restaurantes e lanchonetes que fazem com que a vida permaneça ativa mesmo após o fim do expediente. O sucesso de uma rua, evidentemente, não ocorre isoladamente. No seu entorno, várias artérias secundárias ostentam boutiques, lojas de material esportivo e produtos de tecnologia digital. Tudo isso a poucos metros da praça João Pessoa, onde a vida pulsa praticamente 24 horas por dia.
Essa Itabaiana moderna e economicamente forte não resultou do acaso de iniciativas individuais de empresários e trabalhadores. Tem por trás a ação efetiva e planejada de um rapaz vindo da mais dura labuta. Valmir de Francisquinho “pegou carrego” em feira, foi marchante no mercado de carnes e depois entrou no ramo das auto-escolas. Com a política no sangue, foi vereador mais votado e, depois de cinco mandatos, chegou à prefeitura com uma ideia na cabeça: romper com o ciclo de atraso alimentado pelas duas correntes que ao logo de décadas se revezavam no comando do poder local, ambas com fortes rasgos de coronelismo, assassinatos e desmandos financeiros e administrativos.
Valmir também foi líder estudantil do lendário colégio Murilo Braga, onde presidiu o Centro Acadêmico, o mesmo que também fui diretor, anos antes. Dirigiu por um bom período a rádio Capital do Agreste. Ali, além da administração da emissora, também atuou como âncora de programa jornalístico, afinando ainda mais sua sintonia com o povo.
Os resultados que Itabaiana expõem hoje podem ser comprovados de várias formas, como o périplo que fiz pelas suas ruas. O desenvolvimento está ali empiricamente, a olhos vistos, sem precisar de muletas políticas ou jornalísticas para atestar o sucesso. A marca Itabaiana já se expandiu por todo o Sergipe como exemplo, como lição do que deu e dá certo. Primeiro, pelas mãos de comerciantes, empresários e trabalhadores que resolveram explorar novos mercados. Agora, seu filho Valmir, humilde de origem e de caráter, mas grande na alma e na capacidade transformadora, oferece a todos os sergipanos a oportunidade de que esse estado, vitimado pela má política e por uma elite trepada nas mamatas do poder público há mais de 200 anos, abrace para o futuro dos seus filhos um Sergipe que se espelhe na grandeza da loba Itabaiana-Grande.
Os radicais “livres” das milícias governamentais
Quando vejo um vereador do interior, desses que usam o ofício nobre do rádio para produzir fake news diariamente, em escala industrial, com ataques rasteiros contra todos os opositores ao governo do Estado, me dou conta de que há desespero nos palácios, ou melhor, nos palcos das sucessivas vilas que animam com arrocha e cachaça a vida dos sergipanos na bela orla de Aracaju. Se a continuação de uma administração depende desse tipo nefasto de “estratégia política”, isso é um sintoma: a casa caiu faz tempo.
Mas, de fato, o atual governo não tem outras alternativas. Se o governador e seus secretários andassem nas ruas ou nas feiras, teriam uma boa ideia de como o povo vê seu governo, ou a ausência vexatória dele, o governo, na vida dos que mais dependem das políticas públicas. Em vez de recorrerem a pesquisas mequetrefes, que só apresentam números para agradar o contratante, iriam ter uma noção de realidade e, quem sabe, reorientar suas ações para criar uma sintonia perdida desde o primeiro dia de gestão.
Sem planos, ideias ou ações, lança-se mão dos factóides, daquilo que o conterrâneo Silvio Romero chamava de “bombinhas da China”. Para quem foca sua política em circo e marketing vazio – o pão já não chega, ou melhor, jamais foi pauta considerada – não se poderia esperar outra coisa senão a montagem de autênticas milícias digitais para promover caos na opinião pública, desconstruir adversários e louvar as inexistentes ações do príncipe. A criação da milícia, talvez, seja contribuição das dezenas de bolsonaristas e da extrema direita apaniguados nos fabulosos CCs da máquina estadual.
O encolhimento da mídia tradicional, ora chamada de corporativa, deu lugar em Sergipe a uma proliferação de perfis, blogs e portais que não abandonaram o jornalismo, simplesmente porque nunca o adotaram como prática ética e profissional. Como dizia Millôr Fernandes, não é imprensa: é armazém de secos e molhados. Só mesmo uma súbita e inexplicável paixão por um governo tão ruim poderia livrá-los da suspeita de que estão todos no bolso da publicidade oficial ou de outras fontes não oficiais . Mas vai que se paxonaram mesmo...
Desgraçadamente, prefixos de rádio também dançam na mesma lambança. Numa das emissoras, fundada por um empresário bem sucedido, já falecido, turrão mas honesto, funciona o QG de um processo de esculhambação diária sob o nome de radiojornalismo. Coitado! Fundador de um serviço noticioso que nas eleições de 1998 se tornou o único canal de voz da oposição sergipana contra uma elite carcomida e corrupta, estaria horrorizado em ver sua emissora a serviço da patifaria.
As vozes da desconstrução são múltiplas e variadas. Saindo de um fundador para um afundador, veja-se o caso de um ex-deputado, batido nas urnas pelo fracasso de uma militância vazia, sem propósitos nem projetos, dedicada sempre a uma só diretriz: estar em onde o governo (de plantão) estiver. Por esses serviços pouquíssimos republicanos, tem suas recompensas. Atualmente dirige a gloriosa e histórica Segrase, órgão da imprensa oficial do estado e de uma formidável editora responsável por centenas de títulos fundamentais à ciência e à cultura dos sergipanos.
Hoje a editora foi desmantelada. Há uns dois anos, pretendendo publicar um livro de crônicas e artigos jornalísticos, sondei os critérios e condições para realizá-lo junto a um dos diretores. A resposta me deixou incrédulo, pela forma sem-cerimônia como ele escancarou a política editorial vigente: “Faça uma carta ao diretor-presidente fazendo o pedido”. Ou seja, não só não existe política editorial, como o próprio Conselho, do qual participei com muita honra no governo de Marcelo Déda, foi simples e cinicamente extinto. Pois o tal diretor-presidente, num dos arroubos para pagar favores recebidos, resolveu tirar dos cachorros e jogar em cima do candidato de oposição ao governo, Valmir de Francisquinho. Embutido no ataque, um julgamento moral e eivado de preconceitos: o itabaianense seria um tabaréu do interior, sem preparo nem projetos para alçar um voo tão alto quanto o do seu atual chefe palaciano.
Foi a segunda vez que fiquei intrigado com o notável ex-deputado, logo ele, brandindo a urgência de planos, ideias e manuais de conduta. Não fora este mesmo político, aposentado pela falta de votos, quem, após alguns mandatos, só conseguiu cravar na biografia a patética cena de um ataque, com facão em punho, contra um barulhento sindicalista?
Em matéria de servilhismo, só é superado por um senador punitivista, um delegado que enxerga o Congresso Nacional como a antessala de uma delegacia, cujo desespero para manter a boca livre em Brasília o obriga a ginásticas verbais sem o menor pudor. Numa daquelas CPIs espetáculo feitas para ganhar likes, protagonizou o mais vexaminoso papel de um parlamentar por Sergipe em toda a história. Como se diz: ficamos com vergonha alheia. Para esse bajulador do poder, quem ontem era “bandido” e “mafioso”, na sua metralhadora verborrágica para abater concorrentes, passa a ser dócil após as conveniências eleitorais pela sobrevivência. Ainda bem que está entre o quinto ou sexto na preferência do eleitor. Nem mesmo as “pesquisas” amigas do governo conseguem lhes pagar o favor prestado aos palácios e palcos para fustigar os que desafiam a enfrentá-los nas urnas.









