quinta-feira, 30 de julho de 2026

Papai faz 100 anos

 O ano deveria ser 1944 e, por nunca ter checado minuciosamente cada data e lugar, talvez cometa imprecisões sem maiores danos ao valor da história. O menino João, que trabalhava duro na roça sem nunca ter tido uma infância, cumpriu o destino da maioria dos nordestinos pobres daquele tempo: subir na carroceria de um caminhão e enfrentar uma longa estrada de barro até encontrar as promessas de uma São Paulo carente de gente que fosse pau pra toda obra.
Mas antes disso, um detalhe: no caso de João Correia, não se tratava de pobreza, mas de miséria mesmo. Com mais de 10 filhos, meu avô Alexandre ia caminhando desde Carira até Estância para trabalhar nas malhadas de gente melhor situada e voltar, algumas semanas depois, com um saco de farinha e nacos de carne seca tapeando a mistura. 
Acho que o Pai Lixandre, como os netos o chamávamos, na verdade, inventava uma forma de sair de casa com a esperança ou desculpa de ganhar alguns trocados, mas, no fundo, era uma boca a menos pra comer da rala colheita da seca malhada onde a vó Mãe Zifinha extraía o possível para amenizar a fome dos pequenos. O saco de farinha com pedaços de carne seca eram o pagamento. Papai contava com cerca de dez anos e chegou a acompanhar o pai nessas brutas expedições.
O sítio de seu Alexandre Correia ficava a uns dois quilômetros da sede do município. Os pequenos trabalhavam na roça e brincavam no terreiro de chão batido. Papai vestia uma espécie de chambre feito de saco de açúcar. Era a única peça de roupa que ele tinha e, quando minha vó pegava pra lavar, ele ficava nu no quintal, aguardando o saco secar na cerca de vara, sob o sol escaldante daquele sertão poeirento.
Era um menino tranquilo, de voz mansa, trabalhador e inteligente, cujo sonho era poder estudar, ir à escola um dia. Fez somente as primeiras letras, mas sem condições de seguir adiante, só foi reencontrar seu sonho aos 18 anos, quando desembarcou do tal caminhão de pau-de-arara. 
Primeiro, foi para Santos, cidade que até hoje abriga numerosa população de nordestinos. Nos primeiros três meses trabalhou como barbeiro, sabe-se lá como, porque imagino que até então mal conhecia essa ferramenta chamada tesoura. Mas assim ganhou a vida nos primeiros tempos de sudeste.
Trabalho duro e vida difícil não era problema pra quem vem de onde veio. O jovem João arranjou tempo para cursar à noite o antigo curso de Madureza, que permitia fazer o que hoje equivale aos ensinos fundamental e médio num tempo reduzido. Nessa época já tinha deixado de fazer “caminhos de rato” na cabeça de desavisados clientes da barbearia.
Já mudara para São Paulo e agora era cobrador de bonde da velha CMTC - a Companhia Municipal de Transportes Coletivos -, onde permaneceu por nove anos. Dessa época, guardou para sempre na salinha de seu escritório a foto de um bonde semelhante ao que trabalhava, publicada num jornal paulistano.
Como nas músicas de Luiz Gonzaga, fez o caminho de volta. A desculpa foi um concurso público para tabelião em Sergipe. Aprovado, assumiu o cartório do recém-criado município de Macambira, onde logo ganhou o apelido que carregou por toda a vida: João Tabelião. Ali ganhou também o coração de Afra, a Afinha de Seu Cecílio, primeiro prefeito da cidade. Instruído, ajudou na própria organização da Câmara Municipal nos seus primórdios, sendo também vereador e presidente daquela Casa.
Mas, igual ao vô Pai Cecílio, a política foi uma forma de ajudar, nunca de ser ajudado. Meu avô, comerciante de tecidos razoavelmente próspero, parceiro de viagem de Oviêdo Teixeira nas compras de estoque no Recife, entrou na política bem melhor do que quando saiu. Papai mudou de trabalho, depois de aprovado num outro concurso público, agora para a função que antes se chamava Exator – fiscal do Fisco -, assumindo a chefia da Exatoria local, atuando de forma discreta, competente e independente de influências políticas ou econômicas.
Daí veio a necessidade dos cinco filhos estudarem em Itabaiana, já que Macambira não tinha ginásio. Em Itabaiana, foi para a Exatoria, mas sem a chefia, moando numa casa modesta, diferente da nossa enorme casa, uma das melhores de Macambira, mas com a alegria de um recomeço numa cidade que era pujança não só na economia e nos negócios, mas na rica vida cultural, onde também começava a pontuar como potência estadual no esporte a nossa querida Associação Olímpica de Itabaiana.
Em 1976, quando eu passei do ginásio para o antigo Científico no Murilo Braga, Papai também voltou à sua maior paixão: as letras. Retomou o Científico inconcluso em São Paulo e fez vestibular junto comigo em 1979. Ele passou em Letras na UFS. Não é pra me gabar, mas foi em primeiro lugar. Eu, para Engenharia Química, mas para o segundo semestre, já na “rabada”.
O velho João Correia foi um dos melhores alunos de Letras na UFS. Até hoje recolho depoimentos que me comovem, de colegas e professores que relatam mais que sua dedicação, uma paixão mesma pela vida acadêmica. Fazia sentido: passei minha vida cercado de livros, pois ele sempre manteve um escritório para suas leituras em todas as casas que vivemos, com dezenas de livros com as marcações das leituras, que ele fazia simultaneamente de maneira sôfrega, cinco ou seis livros lidos ao mesmo tempo.
Formou-se em Letras num evento festivo que documentei em VHS, em 1985. Uma festa bonita, a mais linda da minha vida, com toda a família no ginásio Constâncio Vieira contemplando a glória daquele sertanejo danado. A essa altura, já numa idade madura, passou novamente em novo concurso público, dessa vez para Auditor Fiscal da Secretaria da Fazenda do Estado, onde se aposentou anos depois. 
Sua paixão pelos estudos se estendia ao desempenho dos filhos e netos, seu maior orgulho. Tive a infinita alegria de sua presença na defesa de minha dissertação de Mestrado na Unisinos, no Rio Grande do Sul, em 2007. Por pouco não assistiu à tese de Doutorado. Morreu em 2010, num dos dias mais tristes da minha vida, agravado pelo fato de que eu estava morando em Madrid, na Espanha, terminando o Doutorado, e de não poder estar presente em seu último adeus.
Para quem, como eu, que não acredita “nessas coisas invisíveis”, como cantava Belchior, João Correia foi meu Deus primeiro e único. Até hoje é difícil aguentar tanta saudade. Vivo me punindo por não ter perguntado mais, por não ter fuçado cada minuto de sua linda e gloriosa vida, quem sabe escrevendo-lhe uma biografia. 
Em Macambira, João Correia foi uma espécie de fundador daquela república municipal, após a cidade conquistar sua emancipação. Até hoje, não há sequer um nome de rua que reconheça seu papel histórico e cultural no município. Na prática, o povo já o fizera antes: ao lado da nossa extensa casa de esquina, que levava quase metade de um quarteirão, a ruazinha de terra batida que ligava a rua Frei Paulo à rua Simão Dias era batizada de “Beco de João Tabelião”. 
Tentei essa homenagem algumas vezes junto a meus parentes locais, no poder praticamente desde meu avô, mas sem sucesso. Menos mal em Itabaiana, que hoje ostenta seu nome uma bela avenida no bairro Chiara Lubich, uma nova fronteira de progresso aberta na locomotiva serrana, justamente numa área que aponta para o crescimento e o futuro. No último dia7 de julho, terça-feira da semana passada, debaixo de nossa imensa saudade, festejamos a memória desse raro ser humano que estaria fazendo 100 anos naquela data, o único Deus que me habita.

A locomotiva que inspira Sergipe

 Na semana passada fui a Itabaiana por dois dias, onde mato saudades, encontro a família e amigos, e passo em revista o crescimento da cidade. A rigor, nada deveria me surpreender, porque estou na serra mais ou menos a cada 15 dias, mas dessa vez tive mais tempo para caminhar pelo seu centro comercial e constatar algumas peculiaridades que fazem da experiência serrana um caso para pensar. 
O esvaziamento dos centros comerciais e históricos das grandes e médias cidades brasileiras é tema batido nas últimas décadas. Já vivi nos centros de Aracaju e Salvador e frequentei muito essas áreas centrais de Porto Alegre e São Paulo em diferentes épocas. De fato, o fenômeno de quase morte dessas regiões precarizadas pelo abandono do poder público e pela evasão de comerciantes que preferiram levar suas atividades para bairros densamente povoados, galerias e shoppings, se multiplicou pelo país inteiro.
Até se registram, aqui ou ali, tentativas de revitalização que tinham tudo para dar cento. A megalópole paulistana, por exemplo, com sua capacidade inventiva de identificar soluções imediatamente, mesmo com administrações ruins como a do prefeito Ricardo Nunes, tem conseguido responder com medidas efetivas. Em Aracaju, no final dos anos de 1990, a gestão do ex-prefeito João Augusto Gama também fez um esforço nesse sentido, mas esbarrou no projeto caótico e desastroso de uma arquiteta de triste memória para os aracajuanos.
 É aí que chegamos ao centro comercial de Itabaiana, município de economia pujante, cujo desenvolvimento se esparrama para outras regiões do estado, seja sob forma de investimentos mais pesados, seja pela difusão de uma marca que virou sinônimo de coisa positiva, com qualidade, eficiência e preço bom. Me refiro aqui às centenas de mercadinhos, bares, madeireiras, lojas de material de construção e outras variedades de comércio que ostentam na porta o que a cultura local dos sergipanos cravou como uma grife: Itabaiana. Eles estão espalhados no estado inteiro, dos bairros populares da capital aos distantes rincões do interior.
E, dentro dessa irrefreável fuga que deslocou a atividade comercial dos centros para bairros e shoppings, Itabaiana apresenta o que os publicitários, sempre com seus inglesismos de congressos, chamam de “case”. Pois Itabaiana é um case de sucesso nas duas pontas dos negócios: nas novas fronteiras abertas nos últimos anos, sobretudo a partir da chegada de Valmir de Francisquinho à prefeitura, e na manutenção de um centro comercial vivo e extremamente ativo.
Os inúmeros negócios abertos em bairros como o Chiaria Lubich, por exemplo, dão mostras de uma cidade moderna, que pratica a inovação na natureza de suas próprias atividades e numa arquitetura de vanguarda, contemporânea e futurista. Na maioria das cidades onde esse processo de deslocamento da atividade econômica ocorreu, a explosão de crescimento nas novas fronteiras significou a ruína dos antigos espaços. Menos em Itabaiana.
É aí que retomo meu périplo a pé desde sua gigantesca feira até a casa de Mamãe, na avenida Luís Magalhães. A rua 7 de Setembro, antes povoada de oficinas mecânicas e outros pequenos negócios, é hoje uma via repleta de lojas de variedades, belíssimos centros médicos e empresariais e modernos escritórios de advocacia, além de restaurantes e lanchonetes que fazem com que a vida permaneça ativa mesmo após o fim do expediente. O sucesso de uma rua, evidentemente, não ocorre isoladamente. No seu entorno, várias artérias secundárias ostentam boutiques, lojas de material esportivo e produtos de tecnologia digital. Tudo isso a poucos metros da praça João Pessoa, onde a vida pulsa praticamente 24 horas por dia.
Essa Itabaiana moderna e economicamente forte não resultou do acaso de iniciativas individuais de empresários e trabalhadores. Tem por trás a ação efetiva e planejada de um rapaz vindo da mais dura labuta. Valmir de Francisquinho “pegou carrego” em feira, foi marchante no mercado de carnes e depois entrou no ramo das auto-escolas. Com a política no sangue, foi vereador mais votado e, depois de cinco mandatos, chegou à prefeitura com uma ideia na cabeça: romper com o ciclo de atraso alimentado pelas duas correntes que ao logo de décadas se revezavam no comando do poder local, ambas com fortes rasgos de coronelismo, assassinatos e desmandos financeiros e administrativos.
Valmir também foi líder estudantil do lendário colégio Murilo Braga, onde presidiu o Centro Acadêmico, o mesmo que também fui diretor, anos antes. Dirigiu por um bom período a rádio Capital do Agreste. Ali, além da administração da emissora, também atuou como âncora de programa jornalístico, afinando ainda mais sua sintonia com o povo.
Os resultados que Itabaiana expõem hoje podem ser comprovados de várias formas, como o périplo que fiz pelas suas ruas. O desenvolvimento está ali empiricamente, a olhos vistos, sem precisar de muletas políticas ou jornalísticas para atestar o sucesso. A marca Itabaiana já se expandiu por todo o Sergipe como exemplo, como lição do que deu e dá certo. Primeiro, pelas mãos de comerciantes, empresários e trabalhadores que resolveram explorar novos mercados. Agora, seu filho Valmir, humilde de origem e de caráter, mas grande na alma e na capacidade transformadora, oferece a todos os sergipanos a oportunidade de que esse estado, vitimado pela má política e por uma elite trepada nas mamatas do poder público há mais de 200 anos, abrace para o futuro dos seus filhos um Sergipe que se espelhe na grandeza da loba Itabaiana-Grande.

Os radicais “livres” das milícias governamentais

 Quando vejo um vereador do interior, desses que usam o ofício nobre do rádio para produzir fake news diariamente, em escala industrial, com ataques rasteiros contra todos os opositores ao governo do Estado, me dou conta de que há desespero nos palácios, ou melhor, nos palcos das sucessivas vilas que animam com arrocha e cachaça a vida dos sergipanos na bela orla de Aracaju. Se a continuação de uma administração depende desse tipo nefasto de “estratégia política”, isso é um sintoma: a casa caiu faz tempo.
Mas, de fato, o atual governo não tem outras alternativas. Se o governador e seus secretários andassem nas ruas ou nas feiras, teriam uma boa ideia de como o povo vê seu governo, ou a ausência vexatória dele, o governo, na vida dos que mais dependem das políticas públicas. Em vez de recorrerem a pesquisas mequetrefes, que só apresentam números para agradar o contratante, iriam ter uma noção de realidade e, quem sabe, reorientar suas ações para criar uma sintonia perdida desde o primeiro dia de gestão.
Sem planos, ideias ou ações, lança-se mão dos factóides, daquilo que o conterrâneo Silvio Romero chamava de “bombinhas da China”. Para quem foca sua política em circo e marketing vazio – o pão já não chega, ou melhor, jamais foi pauta considerada – não se poderia esperar outra coisa senão a montagem de autênticas milícias digitais para promover caos na opinião pública, desconstruir adversários e louvar as inexistentes ações do príncipe. A criação da milícia, talvez, seja contribuição das dezenas de bolsonaristas e da extrema direita apaniguados nos fabulosos CCs da máquina estadual.
O encolhimento da mídia tradicional, ora chamada de corporativa, deu lugar em Sergipe a uma proliferação de perfis, blogs e portais que não abandonaram o jornalismo, simplesmente porque nunca o adotaram como prática ética e profissional. Como dizia Millôr Fernandes, não é imprensa: é armazém de secos e molhados. Só mesmo uma súbita e inexplicável paixão por um governo tão ruim poderia livrá-los da suspeita de que estão todos no bolso da publicidade oficial ou de outras fontes não oficiais . Mas vai que se paxonaram mesmo...
Desgraçadamente, prefixos de rádio também dançam na mesma lambança. Numa das emissoras, fundada por um empresário bem sucedido, já falecido, turrão mas honesto, funciona o QG de um processo de esculhambação diária sob o nome de radiojornalismo. Coitado! Fundador de um serviço noticioso que nas eleições de 1998 se tornou o único canal de voz da oposição sergipana contra uma elite carcomida e corrupta, estaria horrorizado em ver sua emissora a serviço da patifaria.
As vozes da desconstrução são múltiplas e variadas. Saindo de um fundador para um afundador, veja-se o caso de um ex-deputado, batido nas urnas pelo fracasso de uma militância vazia, sem propósitos nem projetos, dedicada sempre a uma só diretriz: estar em onde o governo (de plantão) estiver. Por esses serviços pouquíssimos republicanos, tem suas recompensas. Atualmente dirige a gloriosa e histórica Segrase, órgão da imprensa oficial do estado e de uma formidável editora responsável por centenas de títulos fundamentais à ciência e à cultura dos sergipanos.
Hoje a editora foi desmantelada. Há uns dois anos, pretendendo publicar um livro de crônicas e artigos jornalísticos, sondei os critérios e condições para realizá-lo junto a um dos diretores. A resposta me deixou incrédulo, pela forma sem-cerimônia como ele escancarou a política editorial vigente: “Faça uma carta ao diretor-presidente fazendo o pedido”. Ou seja, não só não existe política editorial, como o próprio Conselho, do qual participei com muita honra no governo de Marcelo Déda, foi simples e cinicamente extinto. Pois o tal diretor-presidente, num dos arroubos para pagar favores recebidos, resolveu tirar dos cachorros e jogar em cima do candidato de oposição ao governo, Valmir de Francisquinho. Embutido no ataque, um julgamento moral e eivado de preconceitos: o itabaianense seria um tabaréu do interior, sem preparo nem projetos para alçar um voo tão alto quanto o do seu atual chefe palaciano.
Foi a segunda vez que fiquei intrigado com o notável ex-deputado, logo ele, brandindo a urgência de planos, ideias e manuais de conduta. Não fora este mesmo político, aposentado pela falta de votos, quem, após alguns mandatos, só conseguiu cravar na biografia a patética cena de um ataque, com facão em punho, contra um barulhento sindicalista? 
Em matéria de servilhismo, só é superado por um senador punitivista, um delegado que enxerga o Congresso Nacional como a antessala de uma delegacia, cujo desespero para manter a boca livre em Brasília o obriga a ginásticas verbais sem o menor pudor. Numa daquelas CPIs espetáculo feitas para ganhar likes, protagonizou o mais vexaminoso papel de um parlamentar por Sergipe em toda a história. Como se diz: ficamos com vergonha alheia. Para esse bajulador do poder, quem ontem era “bandido” e “mafioso”, na sua metralhadora verborrágica para abater concorrentes, passa a ser dócil após as conveniências eleitorais pela sobrevivência. Ainda bem que está entre o quinto ou sexto na preferência do eleitor. Nem mesmo as “pesquisas” amigas do governo conseguem lhes pagar o favor prestado aos palácios e palcos para fustigar os que desafiam a enfrentá-los nas urnas.

terça-feira, 4 de novembro de 2025

 Matéria publicada no site da Prefeitura de Aracaju, em 28/08/2018, sobre o projeto de comunicação pública da Secretaria de Comunicação da PMA para o município de Aracaju. Dentre as inovações adotadas, a criação da TV PMA, canal audiovisual no patamar digital.

 

https://www.aracaju.se.gov.br/noticias/77911/

 

TV PMA modifica paradigmas da comunicação pública

Agência Aracaju de Notícias

24/08/2018 09h10

 

Assim como a mídia impressa mudou ao longo dos anos e a cada dia migra mais para o mundo digital, a televisão também se modernizou com o passar do tempo e galgou outros espaços para manter sua popularidade entre os meios de comunicação e acompanhar as novas gerações. A comunicação pública não poderia se furtar das diretrizes da modernidade e a gestão da Prefeitura de Aracaju, através da Secretaria Municipal da Comunicação (Secom), entende que comunicar também é uma forma de ser transparente. Por isso, além dos outros mecanismos utilizados na comunicação, desde o ano passado, planejou, amadureceu e colocou no ar a TV PMA, um recurso a mais que atua não somente como um difusor das ações da gestão, mas também e principalmente como um canal para se aproximar de quem realmente importa para a administração municipal: a população de Aracaju.

O ponto inicial para a formação da TV partiu da cobertura dos trabalhos desenvolvidos pela Prefeitura de Aracaju, como uma espécie de projeto piloto para o que viria ser o canal que, embora esteja na internet, possui todas as características e conceitos de televisão, sobretudo pela sua grade que, ao todo, conta com cinco programas: Antes e Depois, Na Boca do Povo, Giro PMA, Descubra Aracaju e Cultura e Saber.

Como órgão diretamente ligado às ações da Prefeitura, quando concentra todas as informações que serão repassadas para conhecimento da população, a Secom também segue os moldes do objetivo do prefeito Edvaldo Nogueira em fazer de Aracaju uma cidade humana, inteligente e criativa. Por isso, compreender a necessidade de se adequar ao mundo digital foi o que levou a TV PMA para dentro da internet.

" A TV nos moldes tradicionais, o conceito de televisão que vem da época da rádio difusão, começa a ser implodido. A televisão como a minha geração conheceu, por exemplo, deixa de existir. Dentro do ambiente digital, ela carrega o nome de TV porque pretende usar recursos das TV tradicional como, por exemplo, uma grade de programação, um repertório, um acervo de produtos audiovisuais, de entrevistas, de serviços, de entretenimento, tudo o que a televisão carrega com ela historicamente. Mas, a nossa perspectiva é de que a nossa linguagem deve ser apropriada, buscada e construída dentro do ambiente da internet, ou seja, a gente já vem construindo novas gramáticas audiovisuais, novas formas de atuação no meio digital, mas, levando a proposta de uma TV, radicalizando, inclusive, as possibilidades dessas linguagens. Todas essas possibilidades a gente vem apostando para trazer um pouco do conceito tradicional de televisão, porque o público se identifica com ele e a gente se aproveita disso, mas, tentando construir uma nova abordagem, novas linguagens", ressaltou o secretário municipal da Comunicação, Luciano Correia.

A quebra de padrões, contudo, foi o que levou a comunicação da Prefeitura a um dos seus propósitos que é justamente o de buscar o diálogo com a população e se fazer compreender. "Não adianta pensar só na emissão, em produzir conteúdos e não se preocupar com a recepção, se não, você não consuma a relação de comunicação. Comunicação é ida e volta. Então, a gente explora essa relação dialógica, ou seja, o tempo inteiro mantém um diálogo constante até para saber o que a população, que é o nosso público, quer", reforçou Luciano.

Mudança de paradigmas

Enquanto a comunicação de alguns órgãos e instituições ainda se mantém firme nos padrões, a Secom percebeu que os antigos paradigmas estavam ficando obsoletos e não mais conseguiam alcançar o público da mesma forma. A inquietação do Jornalismo histórico ganhou novas plataformas e foi preciso se adaptar para fazer da mensagem uma via de mão dupla, como deve ser.

"Tudo o que existia em termos de comunicação e de comunicação pública, por assessorias, por secretarias como essa, ficou para trás. Eu digo que é o mundo analógico que está desaparecendo. A gente tem que pensar a nossa inserção nesse novo mundo com a elaboração de novas linguagens, com novos produtos, com novos conceitos, novas práticas, até mesmo uma ética que busque refletir o ambiente digital, mantendo todos os compromissos do Jornalismo como uma conquista histórica para a humanidade. Tudo está por se fazer no que toca as políticas. Temos essa consciência. Acredito que estamos avançando muito na construção de uma TV moderna, ágil e adaptada a esses tempos que a tecnologia atual permite", afirmou o secretário.

No novo cenário, a Comunicação da Prefeitura de Aracaju trabalha com a unificação. "Já tínhamos o site e as redes sociais e queríamos agregar o meio de comunicação mais popular, daí surgiu a TV PMA. A ideia foi deixar o conteúdo que se produz na Prefeitura, que é centralizado na Secom, todo entrelaçado. O que se produz no site vai pra TV, o que se produz na TV vai pra o site e tudo isso vai para as redes sociais. Uma das missões da TV é ser mais um agente na Prefeitura", ressaltou a diretora de Imprensa da Secom, Tirzah Braga.

Mais do que comunicar, a estratégia é fazer com que a população passe a conhecer a realidade de Aracaju como uma unidade, como partes de um todo que compõe a ideologia de qualidade de vida. "Uma pessoa que mora no 17 de Março não tem como saber o que acontece no Santo Antônio e vice-versa, a não ser que trabalhe do outro local. Então, a gente tenta mostrar isso a todo mundo e mostrar que isso é para a cidade como um todo. Não é porque está agindo num bairro que a pessoa do outro não vai se beneficiar. Estamos construindo uma cidade melhor, as pessoas precisam entender e saber disso e só vão conseguir ver dessa forma se a gente comunicar direito", frisou Tirzah.

Migração e feedback

Migrar a TV para a internet e levar a mensagem até as redes sociais foi um trabalho que reforçou a unidade da comunicação da Secom e, nessa tarefa, o público foi essencial porque somente com o feedback dado a cada ação foi possível encontrar o meio de chegar a mais pessoas.

"Quando decidimos fazer as lives, com assuntos de utilidade pública e serviços da administração, nas redes sociais, por exemplo, recebemos o retorno imediato por parte da população que está nos assistindo. Graças a essa interação quase que instantânea podemos chegar mais perto dos problemas que surgem na cidade e, através da comunicação, poder levar aos órgãos competentes e, assim, garantir maior resolutividade das situações. Esse retorno do público também ajuda a nos pautar, não só a TV PMA, mas toda a Secom. A comunicação é tão híbrida que não existe separação de setor, todos trabalham juntos na construção", salientou o coordenador da TV PMA, Gustavo Costa.

No desafio de migrar o conteúdo, a jornalista Dayze Lima é a ponte entre a TV e as redes sociais da Prefeitura de Aracaju. O cuidado com a linguagem é um dos pontos que norteiam o seu fazer diário. "Cada meio tem uma linguagem própria, então, temos a cautela de adaptar o nosso trabalho. Quando fazemos a transição da TV para as redes sociais, por exemplo, entendemos que a linguagem das mídias digitais é mais direta, simples, rápida, mas, sem descuidar da qualidade da informação. Mesmo antes de a TV se consolidar, nós já tentávamos usar uma linguagem que pudesse atrair mais o público, mesmo na produção dos nossos quadros. A gente sempre pensa em quem vai assistir", contou.

Números

Além dos comentários e questionamentos que chegam através das redes sociais ou até mesmo pelas ouvidorias da Prefeitura, outro importante termômetro das ações da TV vem através dos números de acessos registrados.

Para se ter uma ideia, a média da TV PMA é de cerca de quatro mil visualizações por mês, sendo que, em julho, foram postados 19 vídeos e, somente na última quinzena desse mês, 14 novos perfis se inscreveram no canal, números significativos para a gestão pública."A nossa ideia é expandir ainda mais, bem como a gestão como um todo tem feito", pontuou Tirzah Braga. 

 

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Gustavo Costa e Dayze Lima compõem a equipe da TV PMA (Fotos: Ana Lícia Menezes)
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O secretário Luciano Correia ressalta a importância da modernização na comunicação da Prefeitura

 

 

 

sábado, 8 de maio de 2021

Wendy Guerra e a nova literatura cubana


 Leio Posar Nua em Havana, da cubana Wendy Guerra. Wendy é uma moça bonita de 50 anos e este o terceiro livro dela que leio. Os outros são Todos se Vão e Nunca Fui Primeira Dama, ambientados na turbulenta sociedade cubana pós-derrocada do comunismo. Ela própria, nascida em 1970, já não é daquela geração que acreditava cegamente nas maravilhas do regime. Tampouco é o que os empedernidos militantes da esquerda jurássica chamam de contra-revolucionária ou adjetivos ainda piores. O que ela faz mesmo é literatura e, ao relatar a vida no mundo em que vive, carrega dores e delícias vividas e observadas por qualquer jovem autor em qualquer canto do mundo.

Posar Nua em Havana é baseado no diário da escritora Anais Nin, uma franco-cubana-americana nascida em 1903 e falecida em 1977. Filha de pais cubanos, a mãe uma cantora lírica amadora, filha de diplomatas; e o pai um pianista famoso, sedutor e alpinista social, sempre de olho no dinheiro da família de suas mulheres. É curioso a ignorância quase total em relação à figura de Anais, uma mulher antecipada no seu tempo, uma artista irrequieta, de forte personalidade, que viveu não sem deixar marcas profundas em torno dos que a rodeavam. Não que a feminista número 1 do mundo artístico, Frida Kahlo, não seja tão importante, intensa e autêntica, mas não deixa de ser intrigante que uma tenha alcançado tanto reconhecimento, a ponto de virar moda e arroz de festa entre jovens mulheres descoladas, e a outra simplesmente é desconhecida da maioria.

Não faço comparações, por saber da relevância das duas. Conheci a história de Frida muito antes dela explodir como novo mito feminista do final do século XX. E foi por acaso, numa dupla sessão de cinema em Havana, em 1989, quando entrei na sala, na verdade, para ver o outro filme. Tal foi meu encantamento com aquela inconstante e formidável mulher, que quase esqueci a outra película. Era uma produção mexicana, um docudrama que contava a vida e os amores da artista - Diego Rivera o principal, mas também com passagem pelo amante nada comum, ninguém menos do que o célebre León Trostsky. Depois que ela já era uma celebrity mundial é que veio a produção wollywoodiana, com Salma Hayek, uma das raras vezes em que o cinemão americano botou a mão num tema meio maldito, já explorado antes no seu país de origem, e não estragou o produto.

Para quem admira Frida, conhecer a vida e a obra de Anais Nin é quase obrigação. Ao fazê-lo, as novas gerações de feministas logo vão colorir feiras descoladas no país inteiro com camisetas, tatuagens e coisas que tais em louvor a essa mulher fascinante.

sexta-feira, 23 de abril de 2021

Adultos na sala, a nova lição que nos vem do grego Costa-Gavras

 

O novo filme do grego  Costa-Gavras é uma aula de política. O tema da película, a luta do então ministro das Finanças da Grécia, Yanis Varoufakis, contra o establishment das finanças mundiais no processo de renegociação da dívida externa, é também uma aula de esperança.

Quebrada por seguidos governos corruptos e gastadores, a Grécia mergulhou numa crise sem precedentes em 2008. Em 2015, todas as esperanças da população dali foram confiadas à eleição de um jovem engenheiro de 41 anos, Alexis Tsipras, carismático líder do partido de esquerda radical Syriza. 

Eleito primeiro-ministro, coloca na pasta das finanças Yanis Varoufakis, jovem brilhante, militante de organizações sem fins lucrativos para a geração de renda para os pobres, um intelectual refinado e professor de importantes universidades de países como Inglaterra, Estados Unidos, Austrália e a própria Grécia.

O filme baseia-se no relato que Varoufakis faz no seu livro "Adultos na Sala: Minha Batalha Contra o Establishment", o passo a passo do duríssimo enfrentamento das feras dos governos e bancos europeus, um jogo bruto e violentamente desequilibrado em favor dos donos do capital.

Habilidoso, preparado como pouquíssimos na política, na economia e na interlocução com os líderes mundiais, Varoufakis lembra o destemor, a obstinação e a utopia de um Che Guevara jovem, antes de virar o que virou no exercício do poder. Só que muito mais preparado, raciocínio ligeiro e mordaz, quando necessário, mas temperado pela paciência e pela tolerância incomuns no ambiente em que ele jogava as cartas da renegociação da dívida grega.

O filme é a reprodução desse sofrido processo em tons fortes, ora dramático, ora com leves toques de humor. Costa-Gavras, um gênio do cinema, muitíssimo mais importante do que uma dezena de "monstros" consagrados pela mídia, com filmes como Z, de 1969, sobre o assassinato de um político liberal em plena ditadura militar grega; Estado de Sítio, 1973, que trata da repressão no Cone Sul, e Missing - Desaparecido, de 1982, sobre os assassinatos políticos na ditadura do general Pinochet no Chile. 

Estes são os mais emblemáticos trabalhos de Gavras, um grego que era adorado por dez entre dez companheiros de minha geração. 

Costa-Gavras tem uma filmografia extensa, com muitos outros títulos, mas estes foram os que constituíram seu portfólio político, sendo cultuado nos ambientes da esquerda no mundo todo. Um pouco sumido da mídia - desgraçada mídia: de que gostam seus tubarões, afinal? -, ganhou novamente a atenção da crítica com o impagável O Capital, de 2012, seu penúltimo filme, antes de nos brindar com essa maravilha de Adults in The Room - escrevo o título em Inglês porque ainda não foi lançado no Brasil e sabe-se lá que título a indústria nacional, com suas esquisitices, vai arranjar. 

O Capital é também um filme extremamente político, dessa vez flertando com o humor e a ortodoxia dos mercados financeiros mundiais, a devoção sagrada ao São Capital. 

Em Adults in The Room, ele dramatiza a batalha quase solitária de Varoufakis, sabotado pela direita grega, a mídia - olhe ela aí de novo, cumprindo seu “papel histórico”! -  e pares do próprio governo.

Charmoso, inteligente e culto, a impressão é que essas qualidades despertam uma inveja secreta no primeiro-ministro Alexis Tsipras, tais são a passividade e a distância com que acompanha o sangramento público do seu ministro das finanças. Ou não. 

Talvez seja mesmo essa a diferença de um político populista de esquerda - Tsipras - e um jovem de esquerda íntegro e transparente - Varoufakis.

O fim da história é conhecido: abandonado pelo populismo calculista do seu líder, não resta a ele senão renunciar. Tsipras, por seu turno, renuncia pouco depois e convoca novas eleições, vencendo e ganhando condições para governar por quatro anos. 

Mas em 2019, em novas eleições, adivinhem quem vem para jantar Tsipras, o Syriza e o sonho socialista dos que apostaram numa saída antiliberal, antiausteridade contra a ditadura do FMI e Banco Central Europeu? A velha e onipresente direita, que se aproveita do desgaste provocado pela dose do remédio aplicado na economia para buscar apoio dos mais afetados pelas medidas de arrocho, ele mesmo, o mítico povo, sempre disposto a votar contra si próprio. Sonho socialista grego naufragado, resta-nos o luxo das ideias e a energia de Varoufakis, bálsamo de esperança para essa juventude que vaga nas ruas e universidades, iludidas por tolices como o PSOL e suas antas batizadas.

E o mais importante de tudo isso: a delícia de ver um Costa-Gavras, aos 88 anos, intelectualmente ativo, vibrante, nos entregando obras de arte como Adultos na Sala.


sábado, 25 de julho de 2020

Anotações sobre o fim do mundo (XX)



     Na Piauí de abril último o professor de Filosofia Marcos Nobre, no ensaio O Caos como Método, mostra que a aparente ausência de racionalidade no modo de Bolsonaro governar não é ponto fora da curva, se não uma opção pela disrupção como forma de atuar e manter-se na política. O texto é um manual para entender o momento político atual e o contexto mundial que tornou isto possível. Um dado interessante: num governo antiinstitucional e antissistema, formado de visões e interesses tão conflitantes, ele acomoda em si, no seu interior, os papéis desempenhados pela oposição, ainda mais quando padecemos da falta de uma oposição estruturada.

     Nas conclusões, diz o filósofo Nobre: “Ainda que fosse por puro instinto de sobrevivência, partidos comprometidos com a democracia deveriam simplesmente abrir mão de disputar militância neste momento, formar convergências em cada um dos campos políticos (à direita e à esquerda) e apontar para uma frente ampla democrática que congregasse os dois lados. Partidos deixaram de ter importância. Muitos partidos se tornaram radioativos, inclusive. É o caso do PT. Mas também do PSDB e do MDB. São inapelavelmente identificadas com o próprio sistema político na forma como funcionou nos últimos vinte anos”.

     Ao ler, lembrei de Lula, que, justamente se pronunciando sobre esse tema, rejeitou veementemente qualquer ideia, na suposição purista (logo quem!!) de que os demais de uma frente ampla – menos o PT – não merecem alianças. Mas lembrei também de Golbery, o diabólico gênio que urdia a geopolítica da ditadura. Melhor: lembrei dos que citavam Golbery como o estrategista encoberto da criação de um partido de oposição para dividir a oposição e a esquerda brasileiras do final dos 80, quando os novos partidos se desenhavam no horizonte.

     É difícil provar tal hipótese, mas é emblemático como o PT inicial gastava tanta munição contra o pobre Partidão, o velho PCB cansado de lutas que já nem latia alto. E, por apresentar essa debilidade, era covardemente atacado como “reformista”, palavrão que hoje virou oração na política do mundo inteiro. A política desagregadora do PT, fruto da doença infantil do hegemonismo, era ação em causa própria, até a chegada ao poder, quando, em nome da tal governabilidade, rendeu-se ao ordinário, no pior sentido. Uma boa prova disso está em outra edição de Piauí, na matéria que trata da terna relação entre o guru petista e o doutor Emílio, aquele que dá nome àquela empreiteira safadinha famosa nos quatro cantos. Mas essa já é outra história.

quarta-feira, 24 de junho de 2020

A noite de ontem

Sobre o primeiro dia do projeto Forró Caju em Casa, desenvolvido pela Funcaju

Foi um São João atípico, mas, não se enganem, todos serão a partir de agora.

1) Os megaespetáculos, do tipo Forró Caju, já viviam uma discussão, fruto de uma crise existencial provocada pelo gigantismo que tomou corpo nessas festas e por um certo envelhecimento. A pangonia tão somente precipitou o que muitos de nós já vêm pensando. Essa é a primeira constatação que faço desse São João no meio de uma pandemia. No pós-crise emergirá um novo modelo de festas públicas.

2) Fiquei maravilhado com a qualidade musical presente na programação do primeiro dia do Forró Caju em Casa. Uma gente jovem fazendo emergir novos movimentos, com sotaque do povo real: as meninas do Marcos Freire II, a garota do Lamarão, o fechamento do Pipo’s. Há sons novos no ar. A nova cena musical aracajuana está dentro do edital do Forró Caju em Casa.



3) A transmissão da programação se deu por três canais de TV, uma emissora de rádio, as redes da PMA e Funcaju e o canal da PMA no You Tube. Este último se impõe cada vez mais como o que os intelectuais do bar chamam de “lugar de fala”, o protagonismo que a radiodifusão exerceu por seis ou sete décadas. É outro meio, portanto, são outras linguagens, outros protocolos de leitura, se impondo sobre um mundo que, para o bem ou para o mal, vem obsolescendo.

sexta-feira, 8 de maio de 2020

Anotações sobre o fim do mundo (XIII)

A pandemia e a iniquidade humana pelo olhar da imprensa
A Alemanha começou seu lockdown em meados de março, justamente quando a gente iniciava nossa quarentena tabajara, padrão nacional, ou seja, meia boca. Hoje, começa a liberar tráfego, gente na rua e até o campeonato de futebol, que pode iniciar daqui a uma semana.
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Pelo jornal da rádio Band News ouço a notícia de que em Belém do Pará, após o lockdown , o prefeito local considerou como “essencial” o trabalho das empregadas domésticas. Não se trata de nenhum reconhecimento ao suado, sofrido e digno trabalho das domésticas, mas, ao contrário, de uma medida do “pouco se lixando” contra trabalhadoras que, diferente da maioria das pessoas, recolhidas em casa para preservação da própria vida, vão furar os bloqueios de Belém para levar a uma gente egoísta e mesquinha os serviços que podem, muito bem, ser exercidos pelos donos e donas de casa. Neste momento e nestas condições, o trabalho das domésticas não é essencial, se comparado ao indispensável trabalho de médicos, enfermeiros e técnicos da área de saúde. O Brasil não se envergonha de ser o Brasil de sempre. Pelo andar dos 520 anos, nunca teremos vergonha de nada.
Se comparados com a Alemanha, é outro 7 a 1 que a gente toma deles.

segunda-feira, 4 de maio de 2020

Anotações sobre o fim do mundo (XII)


O chamado brasileiro médio é uma abstração construída pelos sociólogos e que representa não esse tipo bonachão, simpático, o homem cordial de Sérgio Buarque de Holanda ou o de Belchior, aquele que diz sempre “com licença, por favor”. Nosso brasileiro em questão é o mais corriqueiro, aquele que existe desde Cabral e que o jogador Gérson celebrizou no famigerado comercial do cigarro Vila Rica (“o importante é levar vantagem”), estabelecendo desde então a lastimável Lei de Gérson, a única que a classe média brasileira cumpre com devoção canina. Os mais ricos e mais pobres também têm o mesmo apreço para a tal lei, que significa a adoção do salve-se quem puder em todos os campos da vida.
Assim somos desde sempre, para ilustrar nossa ignorância, ausência de protocolos, desrespeito ao próximo e egoísmo criminoso. Na literatura, talvez Nelson Rodrigues tenha sido quem melhor descreveu nossas iniquidades. Agora pulemos para a vida real da pandemia.
No Mosqueiro há um supermercado antes chamado de Pão de Açúcar, embora de nome pretensioso, um simpático mercadinho frequentado pela gente simples do lugar e os passantes melhor providos. Após a chegada do “verdadeiro” Pão de Açúcar em Sergipe, o proprietário, rapaz simples, conterrâneo meu de Macambira, logo tratou de rebatizar seu negócio para Paseo, que não sei o que significa, mas ele, certamente, sabe o que significa peitar os tubarões da gigante fundada por Abílio Diniz.
Nesses dias de pangonia nossas compras são nervosas, com olhos tensos para quem passa por nós raspando a tinta e espalhando vírus no ar. Infelizmente, lá no Paseo, como em qualquer lugar, pais e mães irresponsáveis ainda insistem em levar filhos pequenos para esses passeios, com o perdão do trocadilho. Sabe-se lá o que explica pais levarem crianças numa ida ao supermercado, mas o fato é que muitos não acham isso, ou não se incomodam com a vida de seus pequenos e do resto das pessoas. Daí, ignoram os riscos que ambos representam num contato que poderia ser evitado.
Sábado passado, em meio ao mencionado nervosismo das compras, somos obrigados a desviar de um par de moleques malcriados, um deles já grande, jeitão de abobado, fazendo dos corredores do modesto Paseo o playground para brincadeira de criança pequena. No caixa, o responsável pelo retardo dos meninos, pai branco, cara de bem nascido, máscara na sua cara de mascarado e olhar furioso da classe média quando alguém ousa contrariar suas vontades. Ninguém ousou reclamar, mas muitos dirigiam o olhar de reprovação para o marombado pai, tão cioso de si, tão negligente com os outros.
Na porta do super, desconhecendo regras, desprezando o amplo e vazio estacionamento da empresa, um portentoso Audi preto aguardava completamente irregular, interrompendo o fluxo, prejudicando a mobilidade. Nada mais que um caso comum de trânsito, como cantava o mesmo Belchior, nossa classe média mal educada e arrogante, rasgando regras e cuspindo perdigotos em nossa cara. Pelo visto, seguirá sendo assim em mais outros 500 anos. Toca a vinheta: Brasil, zil, zil!