O ano deveria ser 1944 e, por nunca ter checado minuciosamente cada data e lugar, talvez cometa imprecisões sem maiores danos ao valor da história. O menino João, que trabalhava duro na roça sem nunca ter tido uma infância, cumpriu o destino da maioria dos nordestinos pobres daquele tempo: subir na carroceria de um caminhão e enfrentar uma longa estrada de barro até encontrar as promessas de uma São Paulo carente de gente que fosse pau pra toda obra.
Mas antes disso, um detalhe: no caso de João Correia, não se tratava de pobreza, mas de miséria mesmo. Com mais de 10 filhos, meu avô Alexandre ia caminhando desde Carira até Estância para trabalhar nas malhadas de gente melhor situada e voltar, algumas semanas depois, com um saco de farinha e nacos de carne seca tapeando a mistura.
Acho que o Pai Lixandre, como os netos o chamávamos, na verdade, inventava uma forma de sair de casa com a esperança ou desculpa de ganhar alguns trocados, mas, no fundo, era uma boca a menos pra comer da rala colheita da seca malhada onde a vó Mãe Zifinha extraía o possível para amenizar a fome dos pequenos. O saco de farinha com pedaços de carne seca eram o pagamento. Papai contava com cerca de dez anos e chegou a acompanhar o pai nessas brutas expedições.
O sítio de seu Alexandre Correia ficava a uns dois quilômetros da sede do município. Os pequenos trabalhavam na roça e brincavam no terreiro de chão batido. Papai vestia uma espécie de chambre feito de saco de açúcar. Era a única peça de roupa que ele tinha e, quando minha vó pegava pra lavar, ele ficava nu no quintal, aguardando o saco secar na cerca de vara, sob o sol escaldante daquele sertão poeirento.
Era um menino tranquilo, de voz mansa, trabalhador e inteligente, cujo sonho era poder estudar, ir à escola um dia. Fez somente as primeiras letras, mas sem condições de seguir adiante, só foi reencontrar seu sonho aos 18 anos, quando desembarcou do tal caminhão de pau-de-arara.
Primeiro, foi para Santos, cidade que até hoje abriga numerosa população de nordestinos. Nos primeiros três meses trabalhou como barbeiro, sabe-se lá como, porque imagino que até então mal conhecia essa ferramenta chamada tesoura. Mas assim ganhou a vida nos primeiros tempos de sudeste.
Trabalho duro e vida difícil não era problema pra quem vem de onde veio. O jovem João arranjou tempo para cursar à noite o antigo curso de Madureza, que permitia fazer o que hoje equivale aos ensinos fundamental e médio num tempo reduzido. Nessa época já tinha deixado de fazer “caminhos de rato” na cabeça de desavisados clientes da barbearia.
Já mudara para São Paulo e agora era cobrador de bonde da velha CMTC - a Companhia Municipal de Transportes Coletivos -, onde permaneceu por nove anos. Dessa época, guardou para sempre na salinha de seu escritório a foto de um bonde semelhante ao que trabalhava, publicada num jornal paulistano.
Como nas músicas de Luiz Gonzaga, fez o caminho de volta. A desculpa foi um concurso público para tabelião em Sergipe. Aprovado, assumiu o cartório do recém-criado município de Macambira, onde logo ganhou o apelido que carregou por toda a vida: João Tabelião. Ali ganhou também o coração de Afra, a Afinha de Seu Cecílio, primeiro prefeito da cidade. Instruído, ajudou na própria organização da Câmara Municipal nos seus primórdios, sendo também vereador e presidente daquela Casa.
Mas, igual ao vô Pai Cecílio, a política foi uma forma de ajudar, nunca de ser ajudado. Meu avô, comerciante de tecidos razoavelmente próspero, parceiro de viagem de Oviêdo Teixeira nas compras de estoque no Recife, entrou na política bem melhor do que quando saiu. Papai mudou de trabalho, depois de aprovado num outro concurso público, agora para a função que antes se chamava Exator – fiscal do Fisco -, assumindo a chefia da Exatoria local, atuando de forma discreta, competente e independente de influências políticas ou econômicas.
Daí veio a necessidade dos cinco filhos estudarem em Itabaiana, já que Macambira não tinha ginásio. Em Itabaiana, foi para a Exatoria, mas sem a chefia, moando numa casa modesta, diferente da nossa enorme casa, uma das melhores de Macambira, mas com a alegria de um recomeço numa cidade que era pujança não só na economia e nos negócios, mas na rica vida cultural, onde também começava a pontuar como potência estadual no esporte a nossa querida Associação Olímpica de Itabaiana.
Em 1976, quando eu passei do ginásio para o antigo Científico no Murilo Braga, Papai também voltou à sua maior paixão: as letras. Retomou o Científico inconcluso em São Paulo e fez vestibular junto comigo em 1979. Ele passou em Letras na UFS. Não é pra me gabar, mas foi em primeiro lugar. Eu, para Engenharia Química, mas para o segundo semestre, já na “rabada”.
O velho João Correia foi um dos melhores alunos de Letras na UFS. Até hoje recolho depoimentos que me comovem, de colegas e professores que relatam mais que sua dedicação, uma paixão mesma pela vida acadêmica. Fazia sentido: passei minha vida cercado de livros, pois ele sempre manteve um escritório para suas leituras em todas as casas que vivemos, com dezenas de livros com as marcações das leituras, que ele fazia simultaneamente de maneira sôfrega, cinco ou seis livros lidos ao mesmo tempo.
Formou-se em Letras num evento festivo que documentei em VHS, em 1985. Uma festa bonita, a mais linda da minha vida, com toda a família no ginásio Constâncio Vieira contemplando a glória daquele sertanejo danado. A essa altura, já numa idade madura, passou novamente em novo concurso público, dessa vez para Auditor Fiscal da Secretaria da Fazenda do Estado, onde se aposentou anos depois.
Sua paixão pelos estudos se estendia ao desempenho dos filhos e netos, seu maior orgulho. Tive a infinita alegria de sua presença na defesa de minha dissertação de Mestrado na Unisinos, no Rio Grande do Sul, em 2007. Por pouco não assistiu à tese de Doutorado. Morreu em 2010, num dos dias mais tristes da minha vida, agravado pelo fato de que eu estava morando em Madrid, na Espanha, terminando o Doutorado, e de não poder estar presente em seu último adeus.
Para quem, como eu, que não acredita “nessas coisas invisíveis”, como cantava Belchior, João Correia foi meu Deus primeiro e único. Até hoje é difícil aguentar tanta saudade. Vivo me punindo por não ter perguntado mais, por não ter fuçado cada minuto de sua linda e gloriosa vida, quem sabe escrevendo-lhe uma biografia.
Em Macambira, João Correia foi uma espécie de fundador daquela república municipal, após a cidade conquistar sua emancipação. Até hoje, não há sequer um nome de rua que reconheça seu papel histórico e cultural no município. Na prática, o povo já o fizera antes: ao lado da nossa extensa casa de esquina, que levava quase metade de um quarteirão, a ruazinha de terra batida que ligava a rua Frei Paulo à rua Simão Dias era batizada de “Beco de João Tabelião”.
Tentei essa homenagem algumas vezes junto a meus parentes locais, no poder praticamente desde meu avô, mas sem sucesso. Menos mal em Itabaiana, que hoje ostenta seu nome uma bela avenida no bairro Chiara Lubich, uma nova fronteira de progresso aberta na locomotiva serrana, justamente numa área que aponta para o crescimento e o futuro. No último dia7 de julho, terça-feira da semana passada, debaixo de nossa imensa saudade, festejamos a memória desse raro ser humano que estaria fazendo 100 anos naquela data, o único Deus que me habita.
quinta-feira, 30 de julho de 2026
Papai faz 100 anos
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