terça-feira, 11 de agosto de 2026

As almas profanas de Itabaiana Grande


 

Em Itabaiana sempre se disse que as pequenas cidades situadas em suas cercanias eram satélites em relação à metrópole, numa metáfora muito pretensiosa que, se não verdadeira, mas dava conta do espírito de protagonismo que sempre marcou os itabaianenses. Nunca me importei com isso, por uma razão muito positiva: sempre gostei de me relacionar com as matrizes, sem nunca perder a afeição pela aldeia que me serviu de berço. Assim, fui um menino feliz e orgulhoso de minha pequena Macambira, criado numa família remediada, mas tradicional, cujo avô Cecílio havia sido o primeiro prefeito. Papai também foi vereador, num só mandato, época em que essa atividade não era remunerada, mas preferiu focar sua dedicação à chefia da exatoria local e aos cuidados com a família, sobretudo com o estudo de seus cinco filhos – o sexto e último só viria depois, em Itabaiana.

Fui então dono do pedaço que me cabia no mundo. Os limites mais distantes ficavam na famosa cachoeira, quando, em passeios frequentes, ia me deliciar com aquele que era, sem competição, o melhor programa de um menino naquela quadra da vida. Os passeios mais curtos – e igualmente prazerosos – eram as caminhadas com os garotos da mesma faixa etária para ir tomar banho em alguns dos tanques situados no entorno da sede do município. Jamais esqueci os banhos no Tanque Grande, Tanque Novo, Açude do Julião, Açude de Tidinho e outros balneários menos referidos. Como era muito pequeno, Mamãe sempre temeu essas fugidas, pelo risco de afogamento, principalmente, já que na época praticamente não havia registro dessa violência que banalizou a vida na cidade ou no campo.

Certa vez, voltando de longa marcha ao Tanque Grande, já no povoado Sobrado, que faz limite com Itabaiana, fui sondando a casa e vendo qual a melhor porta de entrada. Morávamos numa grande e bela casa, numa esquina, entre as ruas Frei Paulo e o chamado “Beco de João Tabelião”, nome pelo qual Papai, João Correia, foi conhecido em Macambira por toda a vida. Dessa vez sondei o beco, através de uma das janelas do oitão da casa. Subi num alto degrau para alcançar a janela que dava visão para a cozinha e, justo na hora em que botei a cabeça para checar se a barra tava limpa, Dona Afra, tabeliã, antes professora primária, que pouco se dedicava às prendas do lar, estava num raro dia dedicado às tais prendas. Cortava alguma carne na mesa da cozinha e de vez em quando passava o olho na janela que dava para o oitão. Nesse fim de tarde fatídico, houve as armadilhas do acaso fazer coincidir a aparição de minha grande cabeça e o olhar de Mamãe. Nem preciso gastar tempo com o diálogo ocorrido, aliás, como em milhares de outras vezes, um monólogo, no qual Mamãe intercalava alguns xingamentos com as chineladas distribuídas com força e vontade por todas as partes do corpo, algo que, com o passar dos anos, me fez um exímio defensor das chineladas de Mamãe. Houve um tempo, um pouco depois, que troquei um violão de lata de goiabada feito por Papai pelo mais improvável de todos os produtos: uma macaca, espécie de pequeno chicote que meu amigo Fobica levava com ele para pastorar umas ovelhas no terreno do pai. Essa macaca foi logo transformada no principal instrumento das surras lá em casa, pra minha desgraça e ódio de minhas irmãs, ainda mais incrédulas de como poderiam ter um irmão tão burro.

 Esse meu gosto por banhos me levaria um dia, evidentemente, ao mar, a outra ponta que completa minha apaixonada relação com as águas. Mas antes cheguei ao famoso banho da Ribeira, em Itabaiana, cujos passeios dominicais, anunciados com muita antecedência, me deixavam ansioso e mal conseguindo dormir, à medida que se aproximava a grande festa de meu espírito. Desgraçadamente foi lá, na Ribeira, por volta de 1977, 78, que perdi um amigo, irmão do meu primeiro e melhor amigo em Itabaiana, Blanar, falecido no início de 2017. Berilo, filho de “seu” Siqueira e Dona Belaíde, morreu aos 15 anos, afogado, num domingo que inaugurou a tristeza em minha vida de adolescente. Poucos anos depois, quando eu deixava Aracaju e o curso de Engenharia Química na UFS para estudar Jornalismo na UFBA, me despedi de Sergipe publicando um pequeno livro de poesia, uma edição alternativa e artesanal com um pequeno apoio cultural das entidades do movimento estudantil. No “Passeio”, eu dediquei ao pequeno Berilo:

Itabaiana não entrou em minha vida só pelos banhos na Ribeira, mas por três grandes amores que enriqueciam as preferências de um menino ainda se fazendo gente: o cinema, o futebol e as festas de Natal e Ano Novo. O cinema já era, ao lado dos banhos de tanque e rios, objeto de alegria e festa de meu pequeno coração. Desde o velho cinema de Gregório, em Macambira, em um prédio próprio ou improvisado no Vapor de Eronildes, meu tio e padrinho, querido e inesquecível Tio Nide. O Vapor, pequena fábrica de descaroçamento de algodão, por algum tempo serviu às maravilhas da sétima arte. Houve um outro período em que os filmes eram exibidos no talho de carne, com a gravidade de que as sessões aconteciam no dia da feira, com as bancas já “limpas”, mas o cheiro de sangue e carne morta comparecendo do começo ao fim. Não precisa dizer que não havia assentos e que esta era uma providência para o próprio cinéfilo resolver. Aí, morri de tristeza nas quatro vezes em que assisti “Coração de Luto”, um clássico do cinema nacional que contava a trágica história do cantor gaúcho Teixeirinha e que me deixou alguns bons anos assustado com a possibilidade de perder minha mãe. Já na época, os filhos-da-puta dos moleques de rua, meus amigos, se referiam à película como “O Churrasquinho de Mãe”. Oh, cruel ironia!

Ainda em Macambira, de vez em quando Papai juntava a família na sua enorme Rural Willys e viajávamos 20 km em estrada de barro e poeira para irmos ver no cine Santo Antônio, de Zé Queiroz, a mais nova atração de Mazzaropi, preferido de Mamãe. Assisti quase tudo do humorista, mas nada comparável ao prazer das sessões das segundas no cinema de Lutero. O futebol tinha lugar central, como na maioria dos garotos em qualquer canto do país. Sempre fui um péssimo jogador, mas jogava com o prazer de quem só tinha aquela última pelada na vida, um fominha que só voltava pra casa, todo sujo, suado e coberto de poeira, arrastado pela empregada Zefinha, uma co-autora de minha criação – coisa comum nas famílias remediadas da época – e que me arrastava pra casa por cima dos pedregulhos e, de vez em quando, me aplicava uns cocorotes, para eu não oferecer mais resistência. Chegava em casa e tomava uma coisa rara na Macambira da época: um banho de chuveiro frio e delicioso que me fazia ter um sono reparador, esse mesmo que logo me abandonou e jamais voltou a brindar minhas noites.

O futebol era paixão nacional e o Brasil acabara de ganhar o Tri no México. Em junho de 1971, poucos meses antes de Papai decidir ir morar em Itabaiana com toda a família, meu tio Zé Bedeu, o irmão mais novo de Mamãe, um tio querido que gostava muito de mim, contava histórias de safadezas no seu armarinho na praça principal, com vistas para a casa do avô Cecílio e da avó Minervina. Uma vez, a empregada de tio Nide fez umas safadezas comigo – coisa comum também naquela época: empregadas bolinando os meninos da família – e, linguarudo, como sigo até hoje, fui logo contar os feitos no armarinho de tio Zé. E ele querendo detalhes, potencializando os fetiches e taras que um dia povoariam a imaginação do incorrigível sobrinho adulto. Era uma mulata, como se disse depois, sargentélica, uma pintura antecipada de Di Cavalcanti, que minhas primeiras manifestações de erotismo logo acusaram.

Tio Zé tinha um dos primeiros toca discos portáteis da cidade, compacto e leve, onde eu não só ouvia os sucessos da época (Carlos Gonzaga, “Que será”; Seresta Moderna e os hinos do tri de 70: “a taça do mundo é nossa/com brasileiro/não há quem possa./ Êh eta esquadrão de ouro/é bom no samba/ é bom no couro”). Ali também ouvi pelo rádio a equipe campeã de Carlos Magalhães, Aroldo Lessa e Wellington Elias, na rádio Cultura, torcendo pelo Sergipe. Não sei as razões, mas em todas essas cidades satélites na órbita de Itabaiana habitava uma forte torcida do Sergipe, então tratado como “o mais querido”, título alcançado após uma eleição feita pela revista Placar, tão suspeita quanto pesquisa de audiência no rádio. Pelo menos até a gloriosa conquista do campeonato de 1969, o Itabaiana não contava com muita torcida nas cidades situadas no entorno. Eu, um deles, tanto pela tradição macambirense, quanto pela “amizade” que desenvolvi desde pequeno com um dos ícones do clube, o empresário João Hora. Fazendeiro proprietário da famosa cachoeira, devo ter conhecido João Hora no cartório de Mamãe ou, quiçá, na exatoria, onde Papai era chefe. Mamãe cuidou de dizer que eu era um alvirrubro, de modo que, a partir de então, fui presenteado com bolas, camisas vermelhas (ele também era dono da loja A Moda, uma das mais tradicionais da Aracaju dos anos 60) e, sei lá por quê, de uma jaqueta de nylon totalmente revestida com aquele material isolante, enfim, um casaco apropriado ao frio do Pólo Norte, na melhor das hipóteses ao inverno da Dinamarca. Creio que o velho e saudoso João Hora me deu tal presente porque o capote era explicitamente vermelho e branco, uma referência imediata ao “mais querido”.

Quando fomos morar em Itabaiana, em novembro de 1971, eu ainda me considerava um torcedor, a ponto de ir para o primeiro dia de aula do ginasial, no começo de 1072, portando uma daquelas pastas mochilas que carregávamos nas costas (virou moda novamente nos últimos anos, para provar que na TV e na moda tudo se copia, nada se cria). A minha tinha o escudo do Sergipe. Evidente que os bravos, brutos e bairristas torcedores mirins da Associação Olímpica de Itabaiana não deixaram barato. Na saída da aula, fui acompanhado por uma gang constituída de nada menos que meus próprios colegas de sala, que, entre insultos e impropérios, socavam a pasta e acertavam chutes neste indefeso e desaforado torcedor do então maior rival do Tremendão da Serra. Não houve surra mais didática. Anos depois, de tanto ir ao estádio presidente Médici (hoje Etelvino Mendonça), acabei arrebatado de forma irreversível e arrebatadora pela magia do Tricolor. Desde então, sou um apaixonado e briguento torcedor, desses que vai para o pé do alambrado xingar juízes e bandeirinhas e cobrar providências dos treinadores. Poucas paixões me mobilizam tanto quanto a Olímpica de Itabaiana, que me faz chorar até quando fazemos gol nos piores, os Boca Juniors e Estancianos locais. Hoje sou, com muito orgulho, vice presidente dessa gloriosa legenda esportiva.

As festas de fim de ano sempre foram a alegria dos meninos de minha geração. Como Macambira concentrava tudo na festa de Reis, no comecinho de janeiro, Papai sempre juntava a família na espaçosa Rural e íamos para o Natal e Ano Novo em Itabaiana, cuja “feirinha”, ou quermesse, funcionava ainda na praça João Pessoa, a mesma do cine Santo Antônio, o mesmo dos filmes de Mazzaropi. Recebia de mesada algumas moedas e ia passear de Barca, Trivoli ou na Onda, que se pronunciava “ondja”, sabe-se lá por qual motivo. Se me sobrassem alguns níqueis ainda arriscava a sorte na Víspora, o bingo no meio da praça onde os sortudos apostadores que enchessem a cartela eram brindados com singelos mimos. Meu fetiche era sardinha e goiabada, duas iguarias que não eram pra qualquer dia do ano, a exemplo de refrigerante, que só bebíamos nas grandes festas ou em caso de doença, a troco de tomar injeção. Já vivendo lá, frequentei assiduamente a feirinha já na atual Praça de Eventos, onde o locutor do bingo de Peixoto, Messias Taquari, entre o anúncio de uma e outra pedra (“de rooommboooo 30”) lia os torpedos enviados para meninas e meninos. Jamais tive uma daquelas canções de Fernando Mendes ou José Augusto a mim dedicadas, mas minhas colegas de escola, na boca da adolescência, ensaiavam as primeiras paqueras.

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