quinta-feira, 30 de julho de 2026

Os radicais “livres” das milícias governamentais

 Quando vejo um vereador do interior, desses que usam o ofício nobre do rádio para produzir fake news diariamente, em escala industrial, com ataques rasteiros contra todos os opositores ao governo do Estado, me dou conta de que há desespero nos palácios, ou melhor, nos palcos das sucessivas vilas que animam com arrocha e cachaça a vida dos sergipanos na bela orla de Aracaju. Se a continuação de uma administração depende desse tipo nefasto de “estratégia política”, isso é um sintoma: a casa caiu faz tempo.
Mas, de fato, o atual governo não tem outras alternativas. Se o governador e seus secretários andassem nas ruas ou nas feiras, teriam uma boa ideia de como o povo vê seu governo, ou a ausência vexatória dele, o governo, na vida dos que mais dependem das políticas públicas. Em vez de recorrerem a pesquisas mequetrefes, que só apresentam números para agradar o contratante, iriam ter uma noção de realidade e, quem sabe, reorientar suas ações para criar uma sintonia perdida desde o primeiro dia de gestão.
Sem planos, ideias ou ações, lança-se mão dos factóides, daquilo que o conterrâneo Silvio Romero chamava de “bombinhas da China”. Para quem foca sua política em circo e marketing vazio – o pão já não chega, ou melhor, jamais foi pauta considerada – não se poderia esperar outra coisa senão a montagem de autênticas milícias digitais para promover caos na opinião pública, desconstruir adversários e louvar as inexistentes ações do príncipe. A criação da milícia, talvez, seja contribuição das dezenas de bolsonaristas e da extrema direita apaniguados nos fabulosos CCs da máquina estadual.
O encolhimento da mídia tradicional, ora chamada de corporativa, deu lugar em Sergipe a uma proliferação de perfis, blogs e portais que não abandonaram o jornalismo, simplesmente porque nunca o adotaram como prática ética e profissional. Como dizia Millôr Fernandes, não é imprensa: é armazém de secos e molhados. Só mesmo uma súbita e inexplicável paixão por um governo tão ruim poderia livrá-los da suspeita de que estão todos no bolso da publicidade oficial ou de outras fontes não oficiais . Mas vai que se paxonaram mesmo...
Desgraçadamente, prefixos de rádio também dançam na mesma lambança. Numa das emissoras, fundada por um empresário bem sucedido, já falecido, turrão mas honesto, funciona o QG de um processo de esculhambação diária sob o nome de radiojornalismo. Coitado! Fundador de um serviço noticioso que nas eleições de 1998 se tornou o único canal de voz da oposição sergipana contra uma elite carcomida e corrupta, estaria horrorizado em ver sua emissora a serviço da patifaria.
As vozes da desconstrução são múltiplas e variadas. Saindo de um fundador para um afundador, veja-se o caso de um ex-deputado, batido nas urnas pelo fracasso de uma militância vazia, sem propósitos nem projetos, dedicada sempre a uma só diretriz: estar em onde o governo (de plantão) estiver. Por esses serviços pouquíssimos republicanos, tem suas recompensas. Atualmente dirige a gloriosa e histórica Segrase, órgão da imprensa oficial do estado e de uma formidável editora responsável por centenas de títulos fundamentais à ciência e à cultura dos sergipanos.
Hoje a editora foi desmantelada. Há uns dois anos, pretendendo publicar um livro de crônicas e artigos jornalísticos, sondei os critérios e condições para realizá-lo junto a um dos diretores. A resposta me deixou incrédulo, pela forma sem-cerimônia como ele escancarou a política editorial vigente: “Faça uma carta ao diretor-presidente fazendo o pedido”. Ou seja, não só não existe política editorial, como o próprio Conselho, do qual participei com muita honra no governo de Marcelo Déda, foi simples e cinicamente extinto. Pois o tal diretor-presidente, num dos arroubos para pagar favores recebidos, resolveu tirar dos cachorros e jogar em cima do candidato de oposição ao governo, Valmir de Francisquinho. Embutido no ataque, um julgamento moral e eivado de preconceitos: o itabaianense seria um tabaréu do interior, sem preparo nem projetos para alçar um voo tão alto quanto o do seu atual chefe palaciano.
Foi a segunda vez que fiquei intrigado com o notável ex-deputado, logo ele, brandindo a urgência de planos, ideias e manuais de conduta. Não fora este mesmo político, aposentado pela falta de votos, quem, após alguns mandatos, só conseguiu cravar na biografia a patética cena de um ataque, com facão em punho, contra um barulhento sindicalista? 
Em matéria de servilhismo, só é superado por um senador punitivista, um delegado que enxerga o Congresso Nacional como a antessala de uma delegacia, cujo desespero para manter a boca livre em Brasília o obriga a ginásticas verbais sem o menor pudor. Numa daquelas CPIs espetáculo feitas para ganhar likes, protagonizou o mais vexaminoso papel de um parlamentar por Sergipe em toda a história. Como se diz: ficamos com vergonha alheia. Para esse bajulador do poder, quem ontem era “bandido” e “mafioso”, na sua metralhadora verborrágica para abater concorrentes, passa a ser dócil após as conveniências eleitorais pela sobrevivência. Ainda bem que está entre o quinto ou sexto na preferência do eleitor. Nem mesmo as “pesquisas” amigas do governo conseguem lhes pagar o favor prestado aos palácios e palcos para fustigar os que desafiam a enfrentá-los nas urnas.

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