domingo, 29 de maio de 2011

Bibi Ferreira no tempo

Nos anos 80 eu trabalhava na SMTT, dirigida à época por Bosco Mendonça, quem começou toda essa história que resultou no órgão eficiente e enxuto de hoje, um modelo para o sempre torto serviço público. Bosco, entre austero e meio doido, sempre foi rigoroso com horários, reuniões, etc. Numa noite de sexta feira, se apresentava em Aracaju Bibi Ferreira, com seu consagrado “Piaf”. Eu, então das duas, Bibi e Piaf, ansiei como em nenhuma outra vez mais na vida ver aquele espetáculo que encantava platéias no país inteiro. Eu ali, na Vila Cristina, a metros do Atheneu, avançando na noite da sexta numa das intermináveis reuniões promovidas pelo superintendente Bosco. Bibi, a diva, a belíssima filha de Procópio Ferreira, uma das poucas artistas a quem adorei, começava seu espetáculo sem a minha insignificante presença.
Acho que me vinguei de Bosco meses depois, quando, numa nova coincidência de datas entre o interesse público e os meus, optei por permanecer na então Praia dos Artistas com os lombreiros da Folha da Praia, que uma tarde de domingo é para ser gasta com uma enfieira de cervejas. Perdi o emprego, mas mantive o amigo, dos melhores que tive, até hoje, amizade sólida. Bosco, além de tudo, é dado a surpresas, como esta: em 8 de dezembro de 2007, minutos antes de começar minha defesa de mestrado no prédio da Faculdade de Design de Porto Alegre, ele irrompeu na sala para levar o abraço e o conforto ao amigo que, duas horas depois, se transformaria em mestre em comunicação.
No sábado passado, acordei com Bibi na Globo News, radiante nos seus oitenta anos, falando da vida e da fantástica carreira de uma artista polivalente, no teatro, na música e na televisão, em várias atividades. Fala do pai, que ficou rico com a bilheteria do teatro, mas, também, perdeu tudo com belas mulheres. Dessas moças que falam na TV, algumas com status de atrizes, e que gritam horrorosamente ao falar. E receita: “tem que falar num tom bem mais baixo, assim...”. Bibi Ferreira é elegância pura.
Como eu, Bibi Ferreira não gosta de falar ao telefone. Para ela, para passar recados e acertar detalhes: “Ok, tal hora, em tal lugar... Fechado”. Mas cede à exceção: “A não ser por amor. Por amor, tudo vale”.
Mas o amor, como se sabe, nada tem a ver com casamento. A repórter pergunta de seus seis casamentos. Ela retruca: “Seis? Pensei que tivessem sido cinco”. E arremata: os romances foram todos iguais, do primeiro ao último. Se soubesse, diz ela, nem repetiria. Transcrevo esta última frase sem aspas, porque não é literal e não vou confiar na memória, mas foi mais ou menos assim. Diva divinal Bibi!
        

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Dona Helena ressuscita o Reisado do Mosqueiro

No último sábado aconteceu, na Orla Por do Sol do Mosqueiro, a apresentação do Reisado do Mosqueiro, grupo folclórico que preserva uma das mais belas e tradicionais raízes culturais de nosso estado. Dona Helena merece um capítulo à parte, pela história de resistência para manter funcionando o grupo que remontadécadas, de pais para filhos. Não são apenas as poderosas atrações da indústria cultural que ameaçam as manifestações tradicionais, mas também os pequenos grupos de bairros, manifestações emergentes de uma cultura suburbana em que predominam ritmos como o arrocha, pagode e outros, todos eles legítimos, a não ser pelo fato de que ocupam os espaços sem deixar sobras para a diferença. Que o digam os milhares de carros de som que infernizam nossa vida cotidiana, com a complacência da polícia e do Ministério Público.
Num mundo onde a publicidade e a mídia martelam o tempo inteiro seus conceitos de “ser jovem e moderno”, de uma estética concebida nos laboratórios do consumo (laboratórios de cosmética, inclusive e principalmente), insistir num modesto reisado é quase uma loucura.
Mas, contra a corrente das modas e, mais recentemente, contra um câncer que quase a abateu, dona Helena é uma heroína da resistência cultural. Mantém seu pequeno grupo de crianças e adolescentes com os minguados recursos que arrecada nas festas ocasionais que realiza na própria casa.
Este jornalista que vos fala, tão pobre quanto dona Helena, desde muito é um voluntário na cruzada pela manutenção da diversidade cultural do Mosqueiro, bairro-povoado onde vivoquase 17 anos. Em 2001 gravei um pequeno documentário sobre o reisado e agora, na minha volta para casa, depois de cinco anos, retomei minha modesta contribuição. Esta, a propósito, consiste basicamente nisto: fazer a ponte com o poder público em questões prosaicas, como a reserva de um espaço, a colocação de gambiarras, etc. Isto mesmo: os sem-voz, como dona Helena, necessitam de embaixadores improvisados para fazerem as vezes, com ofícios e coisas que tais junto à impenetrável burocracia estatal.

A nota triste

Na festa de sábado, conseguimos espaço, gambiarra e até a cessão de uma equipe de filmagem, pelo governo, para a gravação do sonhado DVD do grupo. Uma alegria para dezenas de famílias, tão fartas de pagodes e parangolés. Idosos saudosos de seus melhores tempos, crianças maravilhadas com uma forma de cultura que não conheciam nem pela TV (principalmente na TV), enfim, uma confraternização de uma comunidade historicamente esquecida pelos poderes públicos.
Na apresentação do sábado, uma mulher incorporou o personagemdoidapara agredir e afrontar todas as famílias presentes, atrapalhando a dança e lançando impropérios e gestos obscenos na direção de todos, evidentemente incomodados com as agressões. A todo momento, pessoas retiravam a figura, conhecida na região comoNegra Lia”, que imediatamente voltava ao local e reiniciava seu espetáculo paralelo. Sem polícia no local (lembram da história do abandono?), moradores ligaram para o 190, que, com uma explicação técnica (para eles, claro), negaram a ajuda.
O pior da história é a ligação da desordeira com o proprietário do único bar beneficiado com a implantação da Orla, o conhecido Kid, que, em outros momentos, tem demonstrado aberta reação à comunidade, em atitudes grosseiras e até recusa em servir moradores locais no seu bar. No carnaval, o Kid (nome apropriado ao perfil) ordenou a retirada de ambulantes que tentaram vender alguma coisa no calçadão, assumindo assim as funções de xerife e se arvorando substituir o papel das autoridades.

Providências

Com tantos movimentos em defesa da agora chamada Zona de Expansão, esperamos que a vontade de mudança na região se traduza em ações concretas, como esta, voltada para a cultura, cidadania e segurança, evitando a ação nefasta de coronéis de bairro, xerifes autonomeados para defender seus interesses, geralmente comerciais.
Por fim, que essa trave no olho não ofusque a beleza da festa e a sensibilidade do governo do Estado e da PMA em apoiar uma das mais ricas manifestações de nossa cultura.  

quinta-feira, 5 de maio de 2011

A Princesa e as plebéias

Amigas queridas comentam post do blog sobre o casamento dos boas vidas ingleses. O marido, o príncipe William, muito mais boa vida do que qualquer mortal. Dizem, com razão, que um casamento como este é um espetáculo riquíssimo em todos os detalhes, do cerimonial da realeza aos panos da noiva, da enorme bolsa de Elizabeth e a inevitável pergunta que ela deriva: o que tem na bolsa da Rainha? A crítica às minhas recaídas machistas-leninistas, são pelavontade em ver no casório algum tempero de entretenimento. De fato, não acho graça na festa dos ricos, pela perfeição do script, mas me distraio com a dos pobres, pelo conjunto da obra que uma bagaça dessa traz consigo.
Xico Sá, cronista melhor colocado no ranking da hora, faz uma crônica comovente no seu blog, muitíssimo mais visitado que o meu. Ele fala nas feiras livres de Sampaulo e a beleza das “donasque encantam nossas compras e fazem a festa de feirantes e pregoeiros. Xico a feira como uma alegre festa de princesas anônimas, apertadas nos vestidinhos e largas nos sorrisos. Segundo ele, os vendedores são mestres em produzir gracejos, adjetivos às pencas, elogios às dúzias. Por fim, vaticina: “Meia hora de uma mulher na feira vale mais do que um mês de análise, do que a onda de orientalismos tantos do mercado, do que a yoga, do que o mestre japonês das agulhas, do que uma banheira de sais, do que um dia de cartão de crédito free na Oscar Freire...”
Então, voltando ao cronista da feira do Augusto Franco, também me encanto mais com as cenas do cotidiano, naquilo que ele oferece de prosaico e belo, como a vendedora de queijo de olhos de ressaca, que não sei bem o que é, mas li em Machado e penso que cabe naquela beleza brejeira. Alguns hão de dizer que cada um carrega os sonhos do tamanho de sua alma. Pode ser. Mas não me importo se minhas expectativas estão no circuito Mosqueiro-Augusto Franco-Itabaiana. Nada tenho contra o glamour dessa gente polida em forma e conteúdo, que estou num momento hardy.
O lirismo do cotidiano, para usar o título de uma antiga coluna da revista Vida simples, depende da encomenda do freguês, e pode ser captado, inclusive, nos jardins de Buckingham. Remar com a maré ou preferir a diversidade, é uma questão de escolha do papel para entrar no grande circo da vida, nas novas variações de realidade e fantasia.   

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Obama e Osama e o gosto por sangue

Ontem foi um dia bom para a América, segundo o presidente Barack Obama. Os motivos desta declaração são fartos e não precisa repetir: Obama e os americanos comemoravam o assassinato de Osama bin Laden. Esse Barack endoidou ou ficou político demais, no sentido do politicão oportunista. Fiquei pensando: onde estava o jovem brilhante que se elegeu presidente da maior potência do planeta com um discurso reformador, representado no esperançoso sloganSim, nós podemos”? O Obama de ontem, com sua operação de guerra numa cidadezinha do Paquistão, ganhou a reeleição, mas perdeu a essência. Nem de longe lembrava o pacifista simples, despojado das vaidades e usuras do poder. Obama morreu com Osama.
Além de celebrar a morte de alguémque não é coisa de gente boa e normal – o presidente convertido em guerreiro mentiu ao dizer que, com a morte de bin Laden, o mundo estava livre dos seus atentados., afinal, ele sabe que a Al-Qaeda é hoje descentralizada e autônoma e não dependia do seu patrono para botar pra quebrar mundo afora. O próprio Osama, um militante ensandecido, não figurava como principal guru ideológico. O médico egípcio que assumiu ontem seu lugar estava mais “prestigiado” entre seguidores. É possível, pois, que a morte de uma liderança que agonizava por inanição política reacenda uma nova onda de vingança, não na Europa e EUA, mas nos conflagrados Paquistão, Afeganistão, Iraque e Palestina.
Eufemismos
As primeiras notícias, desde a madrugada da segunda no Brasil até o início da manhã, revelavam uma mídia afobadinha e imprecisa, dando crédito, por exemplo, a uma foto manipulada digitalmente. depois assumiram o fiasco. Na mesma onda, repetiam as alegações dos executores americanos: o corpo teve um enterro no mar, de acordo com os ritos islâmicos. Como assim, enterrado no mar? Queriam dizer, certamente: jogado ao mar, para os tubarões. Quanto aos rituais islâmicos de preparação dos mortos (que inclui lavar o corpo e embalá-lo em lençóis), pode-se ter uma idéia a partir do tratamento dispensado aos presos do Iraque ou de Guantânamo.
Num dos canais brasileiros dedicados ao jornalismo, uma repórter repetiu o dia inteiro: “parecia até final de campeonato”. Endoidou também, a pobre moça. O canal, sem critérios, exibiu a infeliz frase uma, duas, dez vezes num dia. Pobre jornalismo pobre!
Obama deverá ganhar sua eleição, com apoio de democratas e gente de esquerda do mundo inteiro, na certeza de que ele é um mal menor, perto dos psicopatas republicanos. Mas longe da idéia do homem que nos pareceu – e a tantos de minha geraçãoquando, no dia de sua vitória, comemoramos a ascensão de um César negro desta Roma moderna. Que feio, mister presidente!
   

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Uma família torta, uma princesa maneira e súditos otários

Como esta sexta amanhece com as luzes em cima do “casamento do século”, não vamos nos abster do carnaval e, com este post, encerrar o assunto. Este blog se propõe a discutir as questões de interesse público, basicamente pelo filtro do enorme poder midiático. Aqui, portanto, olhamos o mundo pelas lentes da mídia. E o exagero dos meios na cobertura do assunto cansou até as pessoas mais simples, desarmadas dos filtros da classe média mais intelectualizada. Como tenho ouvido nos últimos dias: “não agüento mais falar desta porra de casamento!”
A Globo News, geralmente boa, foi se imbecilizando nas últimas semanas, até parar numa moça chamada Joana Calmon, arremedo de repórter do canal em Londres, como diria a Veja, ruim de doer. Meu Deus!, que tipo deslumbrada e puxa saco. É o melhor exemplo de que em Oropa, França ou Bahia, se não tiver calete, gasta-se a vida com futilidades. Para lembrar o saudoso Clóvis Bornay, essa menina foi à escola para comer a merenda.
Mas de quem estamos falando mesmo? Quem está casando? Nosso herói é um príncipe nu, envelhecido nos seus 28 anos, carequinha e carregando nos ombros os escândalos e tragédias da família. Uma mãe que casou virgem e logo enjoou e foi enjoada pelo marido. Um pai amalucado e desocupado, que passou a vida sem trabalhar. Um irmão idiota, que se fardava de nazista nas baladas de sexo, drogas e rock’n roll. Salva a pátria a noiva normal, uma moça de carne e osso, capaz de devolver humanidade e rumo ao pobre menino rico.
Mas a pior figura é feita pelos súditos ingleses, que encaram o frio de abril em Londres para fazer plantão nas cercas do palácio, em busca de um adeusinho da realeza. Uns gordinhos em largos sorrisos, pousando para as câmeras como se tivessem ganho a Copa do Mundo. Fora da Inglaterra, nem merece comentários o faniquito dos que, na marcha da insensatez midiática, se comportam como se fossem parentes dos noivos. Nesta sexta, com os locutores se esforçando para narrar o ordinário, vou adotar e conclamar desde agora: um dia sem televisão!
   

segunda-feira, 25 de abril de 2011

O casamento do século da próxima semana

A mídia se alimenta de patacoadas, ainda mais se vierem, como diz Elio Gaspari, do andar de cima. Sempre que uns figurões trocam alianças, irrompem no noticiário bobagens como “o casamento do século”. Todo século é pródigo nesses enlaces, como o que vai acontecer na próxima sexta, 29. Há um mês a Globo News nos bombardeia com o casamento do século da hora, do príncipe William com a plebéia Kate. De tal modo que na sexta passada eu acordei atordoado com a idéia, em busca de uma alternativa de canal que me livrasse da transmissão da cerimônia. Nem me dei conta que era sexta da Paixão, portanto, improvável para os pombinhos infernizarem as telinhas do mundo com o midiático evento.
Respirei aliviado e ganhei mais uns minutos de sono, mas desta sexta ninguém escapa: ou busca um canal comunista que esteja se lixando para a família real britânica, ou desliga a TV e vai pescar longe de todos. Isto porque o frisson contaminou homens e mulheres, inclusive brasileiros, que, sabe-se porque, consideram o assunto relevante para suas (nossas) vidinhas. E relevante não é. Nem o casório nem a monarquia inglesa, cuja existência, por si , é cada vez mais motivo de contestação por vários setores e personagens da vida real (de realidade, não de nobreza) no próprio país.
O Manhattan Conection desta semana, com a tabaroíce típica dos colonizados, dedica exaustivos minutos à questão, sem, no entanto, deixar de dar suas mordidinhas. Lembram que, na Inglaterra, há quem defenda a renúncia conjunta da Rainha e do boa vida do Charles, um sessentão que nunca pegou no batente e vive das facilidades e negócios da famiglia real. E que, apesar disso, ele foi um tipo menos certinho numa linhagem de formalismos e frescuras, tanto que deixou a (na visão do Manhattan) deslumbrada Diana para encarar o amor verdadeiro com uma namorada da juventude. O bom desse programa é esse desprendimento para derrubar unanimidades: enquanto o mundo adora uma princesa sempre em busca de celebridade, supostamente por enfrentar a caretice da nobreza britânica, os caras mostram o quanto Diana se contorcia para os holofotes, como era fútil em suas paixões por roupas de marcas e coisas que tais.
Me espanta como os ingleses - e os europeus de forma geral - se indignam com repúblicas de bananas, como o Brasil, cujo povo, à custa de uma exploração feroz e impostos escandinavos, sustenta uma elite parasita e políticos, em sua maioria, corruptos. , como , nosso sangue e suor bancam a festa da vagabundagem diplomada
  

quinta-feira, 21 de abril de 2011

O feriado é aqui

A amiga virtual Eugênia Déda, interlocutora no Twitter, sempre com seus saques interessantes, dá vivas aos que não viajaram no feriadão, sugerindo, de passagem, a obrigação que a maioria das pessoas têm de viajar nestes períodos. É mesmo curioso: uns sobem, outros descem, lotam estradas, hotéis, restaurantes e, em conseqüência, esvaziam as cidades. mora o lado bom: as cidades se tornam transitáveis, com sessões tranqüilas nos cinemas (parece que os que viajam são aqueles que compram sacolões de pipoca com coca cola e infernizam seu filme até esvaziar a porção industrial do lanche). 
Descobri isso meio por acaso quando morei em Maringá e, nos feriadões, para não me suicidar por tédio no Fazendão Iluminado paranaense, fui curtir quatro ou cinco dias numa Sampaulo silenciosa, com metrô civilizado e teatros e cinemas tranqüilamente acessíveis. Desde então, fujo do fluxo e faço movimento na contramão: enquanto todos vão, eu fico. Nestes dias em que as pessoas sentem a obrigação de felicidade, embriaguez e consumo, eu dialogo com minha bicicleta nos arredores de casa. Tenho preguiça até de ir a Aracaju ver uma garrafa de vinho ou uma ripa de costela para um churrasco. Como moro na praiaquase 20 anos, alguns diriam que é fácil assim, ficar em casa no feriado, como quem diz: “mas você mora nas férias”. Mas minha reação às multidões que sujam as ruas, bares e os demais lugares por onde passo é esta mesma: um exílio no meu pequeníssimo cantinho de mar. Porque, nas quartas feiras de cinzas que sucedem a qualquer feriadão, fica a terrível impressão de que o diabo cagou no mundo.
Em compensação, pago menos pelas minhas viagens. Ir a Macchu Picchu ou Marrakech num “dia qualquer” é como viajar escondidinho, sossegado, pagando preços razoáveis, sem o inferno dos aeroportos e o assédio de vendedores mundo afora. Assim, se minhas outras rebeldias de jovem não serviram para nada, esta fica como último sinal de resistência: os feriadões não me movem a lugar nenhum

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Reguffe, um deputado mala

até para ouvir a gritaria dos colegas de Câmara e Senado: "é um demagogo"! Picareta! Metido a honesto! E por . As reações são dirigidas ao deputado José Antônio Reguffe (PDT-DF), proporcionalmente o mais votado do país nas últimas eleições. Reguffe se transformou em persona non grata, inimigo público n. 1 do Congresso Nacional, ao se eleger e, logo no início, abrir mão de algumas vantagenszinhas que adoçam o bico do parlamento mais caro do mundo.
Algumas medidas, tomadas em caráter irrevogável, portanto, livre dos populismos quixotescos a que estamos acostumados: abriu mão dos 14º e 15º salários, rejeitou a cota de passagens aéreas, fixou em nove o número de assessores de gabinete –poderiam ser 25–, e descartou receber qualquer verba indenizatória até o fim do mandato. (Fonte: http://noticias.uol.com.br/politica/2011/04/15/deputado-do-pdt-que-rejeitou-beneficios-cria-inimigos-na-camara.jhtm ).
Não faz muita diferença nos gigantescos gastos de um Congresso especializado em escândalos diários, em arrumar “jeitinhos” bem brasileiros para melhorar ainda mais a feliniana dolce vita de parlamentares reunidos por uma causa: o se dar bem, à custa dos recursos da sociedade. Mas vale o exemplo, como uma semente, que, se Deus e a vergonha dos homens existirem mesmo, talvez vingue um dia.
Não surpreende a intempestiva reação dos colegas: o Congresso brasileiro é este mesmo, miúdo, truculento, cangaceiro. O programa CQC, embora não faça jornalismomuito menos cumpre o papel clássico do jornalismo – serve, ao menos, para isto: desmascarar um pouco da mise en scéne que reveste o jornalismo praticado pela mídia do mercado, um pseudo-jornalismo embalado como jornalismo. O CQC brinda semanalmente os eleitores que elegem os membros daquele lugar de 300 picaretas (Lula: 1994) com provas de suas qualidades, tais como: ignorância, descaso com a opinião público, malandragens, arrogância, incompetência, agressividade. E outras menos votadas agora.
A estatística de Lula seguramente está desatualizada. A ver pelo silêncio canalha dos colegas que permitem o deputado Reguffe fritar na fogueira da perseguição, os picaretas são, lamentavelmente, a totalidade. Ou, se não, pronuncie a primeira palavra aquele que não comunga com o linchamento de alguém que peca justamente por fazer o certo. Se não surpreende que esta seja a postura da quase totalidade, espanta que os ditos “de esquerda” se revezem a cada legislatura sem abrir mão de mordomias imorais, cuja legalidade é conferida pela própria Casa, legislando para si mesma.
Ou alguém viu um deputado desses, sindicalistas, líderes de classes ou marxistas de calçada, exercendo um mandato transparente, tornando públicos seus gastos? Quanto cada um destes gasta com assessoria, viagens, passagens, correios, telefone, combustível e a excrescência chamada de “emenda parlamentar”? O blog, certo de que, ao menos, persegue um mínimo de jornalismo independente, aceita e publica explicações.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Um não-debate sobre ... o que mesmo?

No último final de semana o programa Espaço aberto, da Globo News, apresentado por Alexandre Garcia, protagonizou um dos momentos em que nosso jornalismo se especializou: em produzir mais do mesmo. Foi a propósito de um debate sobre a chamada Comissão da Verdade, que busca investigar torturas e mortes ocorridas na ditadura militar. Anotem este nome: Gilson Cardoso, apresentado pela emissora como coordenador do Movimento Nacional dos Direitos Humanos, um dos convidados para o debate. , voltamos a ele.
 O outro convidado foi o almirante Veiga Cabral, um militar pseudo polido na forma, mas um brucutu verde-oliva por dentro. Tosco, inclusive, nos argumentos frágeis e inconsistentes. Mas nada comparável ao coordenador Gilson Cardoso, debatedor tão rarefeito, que parece ter sido escalado justamente por isso. Um detalhe: no difícil e complexo campo das discussões ideológicas que sucedem ditaduras encerradas por via pacífica, este espaço é e deve ser ocupado por gente de esquerda, não os que têm história, mas, sobretudo, articulação política para enfrentar os debates-pegadinha, como o de Alexandre Garcia.
Que me desculpe este Gilson Cardoso se ele tiver uma história de resistência e sofrimento para ocupar a cadeira que ocupou no não-debate de Alexandre. Mas soa a negligência ver uma posição importante e delicada sendo defendida (digo: não sendo) por um sujeito sem a menor qualificação para refletir sobre idéias. Garcia e seu almirante mequetrefe praticamente comemoravam cada derrapada do representante da esquerda. Será que, entre os que sofreram a violência da ditadura, não sobrou um com tempo para ir à TV discutir políticas reparadoras? Um que seja que, como dizia Belchior, não esteja em casa contando seus metais?

domingo, 10 de abril de 2011

Dilma melhor do que a encomenda

os neófitos na política podem se considerar surpresos com a performance de Dilma. Os “do ramo” sabiam que um governo dela começaria justamente dessa forma: sóbrio e tecnicamente competente. Análise de especialistas brasileiros e estrangeiros mostra uma presidente destemida, trabalhando firme, rigorosa nos bastidores e sem espalhafatos públicos, como estávamos acostumados. Aécio Neves, o novo líder da velha direita nacional, diz que ela começou o nono ano do mesmo governo. Não é verdade, nem um tucano tem autoridade para dizer coisas assim. O PSDB é um arranjo de malandragem, os piores políticos do país reunidos numa legenda com ares de homens públicos. Dilma começa um governo que tampouco é o de Lula e do PT. É o dela, em coalizão com todos estes, em harmonia, mas com o distanciamento necessário para governar de fato. Caso contrário, seria um fantoche.
Um detalhe que escapou aos sergipanos, talvez porque nossos políticos, tão aferrados nos banquetes da Corte, nos sonegam informações, digamos, antipáticas. Trata-se da reprimenda que a presidente deu no seu chefe do Gabinete de Segurança Institucional, quando este declarou publicamente que o Brasil não deveria ter vergonha nem orgulho do golpe de 1964. O chefe é o sergipano José Elito Siqueira, general, sergipano, ex-comandante do 28 BC, que, na sua passagem pela terrinha, desfrutava de festiva acolhida nas colunas sociais tupiniquins.
Outro dado é a ida de Dilma ao programa de Ana Maria Braga, na Globo, no Dia Internacional da Mulher, para um lero-lero com a dona do Papagaio José. Além da conversa de dondocas, a presidente cozinhou uma de suas especialidades, um omelete. Não precisa dizer que a patacoada, a única protagonizada por ela, foi invenção dos marqueteiros, estas figuras que transformam a democracia em circo de de pau. Mas seu temperamento nos faz crer que foi o bastante para evitar repetições daqui para a frente. Como demonstrou nos tais “100 dias” de governo, outra palhaçada inventada pelos comerciantes do marketing, uma idiotice para ganhar, como eles dizem, “visibilidade”, e dinheiro, claro. Mas Dilmão, como um sargento, bateu o e passou ao largo. Se continuar assim, viro seu cabo eleitoral.