Um danado, esse Poeta Amaral Cavalcante. No prefácio de "Amoráveis", livro de Carlos Cauê, lançado na sexta última.
"Na verdade, ninguém sonha em ser um grande prefaciador. Pretendemos ser escritores, filósofos, pintores ou malabaristas, mas nunca autores de esforçados prefácios, por vezes tão desconcertantes quanto a afinação de uma orquestra prestes a derramar sobre a plateia os acordes de uma sinfonia. Mas também é verdade que receber de um poeta o privilégio de ser o primeiro leitor dos seus virgens poemas é uma afirmação de confiança e respeito, uma honraria revestida de grandes significados."
"Faço poesia pra poder morrer,
Deixar passar a alegoria da certeza
E caminhar na passarela de aplausos vãos
(...)
Faço poesia pra ressuscitar."
Carlos Cauê, em "Amoráveis"
segunda-feira, 19 de maio de 2014
domingo, 18 de maio de 2014
O Diabo mora nos detalhes
No programa de hoje, Lucas Mendes, do Manhattan Connection, comentou uma matéria de um daqueles empreendedorismos americanos que deu certo, na visão deles, alguma carrocinha de hot-dog milionária. E disparou:
“Há anos eu disse a meu filho: isso aí vai dar certo... “. E blá-blá-blá...
Se a história miúda da vida privada do miúdo Lucas requeresse moral, esta seria: os Mendes não servem nem pra vender cachorro quente.
quinta-feira, 17 de abril de 2014
Gabo e Papai
Sempre associei
Gabriel Garcia Marquez ao meu pai. Vem daí, talvez, além da admiração nutrida
por todos que um dia se aventuraram por sua literatura, o amor filial que tinha
por ele. Acho que era o jeitão de homem simples, direto, sincero e brilhante
nas maneiras de levar a vida. E uma certa semelhança física. Papai era assim,
meu ídolo maior, como Gabo, um homem vindo da roça e da cultura de sofrimento e
luta dessa nossa América Latina. Mas a relação maior é que foi Papai quem me
apresentou a Gabo, na sua vasta biblioteca, onde o filho de Aracataca
comparecia, creio eu, com todos os títulos. Papai, um sertanejo do Carira; ele,
também um homem do semi-árido. Sua Macondo é, ainda hoje, como as aldeias que
nos cercam aqui no Nordeste. Nos anos de mestrado e doutorado me impus como
disciplina só ler os textos da insípida economia política da comunicação,
abrindo mão das delícias da literatura. Quando, já no final, vendo já o ocaso
de Papai, voltei a viver em Itabaiana (nossa Macondo), dedicava alguns momentos
diariamente à leitura de “Viagem à semente”, uma de suas biografias. Antes de
pegar no pesado na aridez de minha tese, gastava os primeiros 30 ou 40 minutos
de cada manhã lendo a vida do Gabo, ali do ladinho do meu velho querido,
sentindo seu cheiro, o olhar cansado, a cumplicidade que todo pai tem com o
primogênito. E de vez em quando eu interrompia as leituras dele (João Correia
leu até praticamente o fim da vida, de forma quase compulsiva), para comentar
uma coisa, fazer alguma comparação com nosso mundo tão realisticamente
fantástico quanto o de Garcia Marquez.
segunda-feira, 17 de março de 2014
Aracaju também é minha
A inevitável força do acaso me jogou para todos os cantos do mundo desde
cedo, de uma maneira tão irremediável, que resultei me sentindo em tantas
cidades e ao mesmo tempo em nenhuma delas. Esse mundo do trabalho e da vida que
nos impõe uma desterritorialização, me fez órfão de endereço fixo. No dizer dos
Titãs: “Não sou de nenhum lugar/ sou de lugar nenhum”. E antes que soe
lamuriento, vos asseguro: isso não é bom nem ruim, melhor ou pior do que
poderia ter sido. Apenas um registro de coisas como o pouco tempo que a vida me
deu para reviver na doce e pequena Macambira os primeiros sinais de vida,
justamente aqueles que nos marca, lapida e garimpa pelo resto de nossos anos.
Anos depois, talvez já muito tarde, busquei em vão retomar laços perdidos, mas,
como a Itabira de Drumond, fotografia na parede, a “minha” cidade já não
existia: Macambira vive na minha memória.
Em Itabaiana cheguei aos dez e fiquei até os dezessete, tangido pela
aprovação em Engenharia na UFS. Mas lá ficaram os demais, a maioria deles, pai
e mãe principalmente, razão que fez dela um razoável porto seguro, onde sei que
tenho cama cativa. A Aracaju que parecia a parada final só me abrigou por três
anos, o suficiente para a Engenharia desistir de mim, antes que eu dela. Fui
viver, conforme Gil e Caetano, na Cidade da Bahia, uma estranha gente que nos
via como “o quintal da Bahia”, proféticas premonições de que um dia, muito
tempo depois, surgiria aqui um grupo de empresários musicais dispostos a nos
devolver a condição de colônia, colonizados que nos mostrávamos entre requebros
e abadás.
Vivi uma Salvador que trazia nos becos da velha cidade o fantasma
ainda fresco de Gláuber Rocha, o cinema “de arte” dos Bairris, as festas na
faculdade de Medicina do Canela, cerveja e pilombeta no Terreiro de Jesus, as
putas do Maciel, o projeto Pixinguinha no TCA, todas as peças de Nelson
Rodrigues na Escola de Teatro da UFBa. A residência estudantil das meninas na
Araújo Pinho, a residência de Jacobina, as mijadas nas centenárias árvores do
Campo Grande. Alegre Bahia onde busquei régua e compasso para outros traços.
Triste era a Bahia oficial que eu ignorei do começo ao fim. Tanto que no
carnaval eu largava antecipadamente minha morada, no Corredor da Vitória, antes
do primeiro baticum. Ia descansar minha cabeça em amores sergipanos numa
Atalaia Nova bucólica, de tantas lendas e tantos ais.
E assim fui por aí, Oropa, França e Bahia. Começando pelo Paraná,
depois Cuba, a francesa São Luís do Maranhão, outro tanto em Maceió, mais cinco
anos entre o Rio Grande do Sul e seis meses em terras de Espanha. Comigo houve
de ser assim: sempre estou indo, sempre voltando. Aracaju nunca me foi
estranha. Aqui, faço cara feia ou bonita sempre que me aprouver, porque sou
dono do meu sorriso. Aqui recomeço como se nunca tivesse nada interrompido.
Aqui sou unha e carne, fogo e paixão, encantamento e enfado, onde minha dialética
se aplica no correr dos dias e noites.
A primeira Aracaju era o lugar para onde Papai ia todos os meses para os
deveres de sua Exatoria em Macambira e voltava com a pasta cheia de maçãs,
aquela fruta nobre, deliciosa, de algum lugar que só poderia ser muito distante
de nossas jacas e pitombas. Era o lugar que eu pensava onde moravam aqueles
artistas do álbum de figurinha Coleção 69, Roberto Carlos, inclusive. Lembro de
Mamãe demonstrando um certo ciúme de Ângela Maria, a cantora, sei lá eu por
quais motivos. Mas, como ela morasse ali onde Papai ia com uma frequência capaz de
criar limo, não tive dúvidas: “Papai deve estar comendo esta moça”. Ele chegava
com sua pasta de documentos e eu corria, antes das minhas irmãs, para pegar uma
das maçãs destinadas aos cinco filhos (Serginho só veio depois, já em
Itabaiana). Jamais, em toda minha vida, senti o cheiro de maçã como o da pasta
de Papai, um maravilhoso aroma também colado à minha memória de forma
definitiva.
Por essa mesma época, comecei a fazer viagens curtas para as visitas a um
dentista, no cruzamento dos calçadões. Papai parava sua imensa Rural na Rua da
Frente, cujo rio Sergipe me foi apresentado por Mamãe como sendo “O Mar”. Hoje,
sabedor de que as palavras não contêm os atos e os pensamentos, sei muito bem
que minha mãe se referia a uma boca de barra, nem tanto rio, nem mar ainda. Depois
vieram outras e outras Aracajus, sobrepondo-as umas sobre as anteriores como
camadas, a minha vida feita aqui, com paradas, idas e retornos, mas com o
sentimento de que acabei grudando nela, como parte de mim, a cidade a quem eu
recorro quando, em algum lugar mais remoto, alguém me pergunta de onde sou.
Para não alongar a resposta, nem tornar minha localização um exercício penoso a
quem pergunta, dou minhas coordenadas: ”Sou de Aracaju, Sergipe, no nordeste do
Brasil”.
segunda-feira, 20 de janeiro de 2014
Alegre Bahia
Aos vinte anos, tudo é festa. Até mesmo a rotina tem uma graça incomum,
que um dia, por fim, nos larga na estrada. De manhã eu caminhava todo o Corredor da
Vitória, contornava o Campo Grande e pegava o Circular R-1 na Araújo Pinho, no
Canela, para uma viagem de quase uma hora até o Centro Administrativo da Bahia,
onde me aguardavam as coroas do Centro de Informações e Estatística da
Secretaria de Planejamento do Estado. Era estagiário, mas era o único homem
reinando num harém de velhotas fogosas, as conversas mais safadas, como nos
romances de Jorge Amado. Depois chegou um estagiário de nível médio, Luis
Moura, hoje aracajuano, instalado no escritório local do Diese. Luis disputava
comigo as atenções da colega Deonísia, uma baixinha ainda mais sibite,
chicleteira e encrenqueira, odiada pelo conselho das chefonas. Nunca fomos
agraciados com os favores da morena.
O estágio era minha salvação de menino pobre, sem recursos para custear
meu custo, quase zerado, de tão modesto. Ganhava menos de um salário mínimo,
filava a bóia e lia diariamente os quatro grandes jornais do país (Folha,
Estadão, JB e Globo). Meio dia, no calor
da Bahia, chacoalhava de volta para o Canela, dormindo nas latas velhas da
viação Salvador Cidade do Sol, direto para as aulas na Facom. Às vezes tava tão
cansado, que escondia o inevitável cochilo por trás de uns velhos óculos de
soldador, daqueles bem pretos, moda entre os maconheiros do circuito “Ex-Tudo”-“Café
Teatro” . Meus colegas, sabendo do truque, costumavam tirá-los do rosto e eu
acordava com a sala inteira zoando aquele pobre sergipano.
Às seis ou sete, caminhava de volta para a Residência Universitária da
UFBa, a lendária R1, dependendo da programação que rolava no flamboyant em
frente à escola, uma espécie de curso paralelo ministrado pelos anarquistas que
ali professavam a negação do jornalismo tradicional. Lá estiveram, para shows e
conversas, dentre outros, Jorge Mautner, Galvão dos Novos Baianos e Léo Jaime
em início de carreira. No caminho, o Campo Grande era lindo (pois é, eu via
beleza e uma certa poesia no céu plúmbeo de Salvador, um crepúsculo quente e
úmido, mas inundado de uma estranha alegria). Passava em revista bancas de
frutas e de jornais e mirava a vizinhança rica da Vitória. Por fim, estava no
lugar que eu chamava de casa, o quarto 15 da R1, a residência de muita
história, glórias e paixões, sexo e política, amor e tragédias. Não raro, quando
ainda restava uma fresta de sol, descíamos a ladeira da Barra, eu e meus irmãozinhos
pobres, para um mergulho no Porto, um tapinha, umas cevas, um xamego. Numa dessas
descidas, encontrei Caetano, Gil e sua
entourage, derramados de frescura, fazendo tipo, trocando bitoquinhas. Um
selvagem criado em Itabaiana não poderia concluir outra coisa: e eles são
viados?
O Porto da Barra foi meu território mítico, o lugar do encantamento e dos
grandes romances. Era ali que debatíamos as coisas do Brasil. Era o fórum da
esquerda light (ou, se querem, festiva sim, sem culpa), dos acertos do finde e
das festas gratuitas numa cidade que ainda não era tão imensa e tão bruta, uma
Salvador que, acreditem, a gente dominava como nossa. Dali saímos uma vez,
véspera de semana santa, direto para o outro lado da ilha, em Berlinque, onde
ouvi a garota-mais-linda-de-todos-os-santos-da-Bahia cantar “Você é linda”, de
Caetano, quando as rádios mal conheciam. Dali saímos, outra vez, para um
acampamento totalmente outsider, com barracas precárias e sem comida, levados
pela vontade de passar o fim de semana fazendo amor com nossas namoradas. Três
dias comendo abóbora crua com arroz doado pelos moradores, e o sexo, a cada sessão,
lavado numa romaria em grupo nas águas da Baía de Todos os Santos. Cabelo ao
vento, gente jovem colorida: roupas pra que te quero. Do outro lado, as luzes
de nossa ribalta soteropolitana tilintavam outras alegrias que nos deixavam
saudosos, a vontade de estar lá também, fruto de uma impermanência latente.
Ontem voltei ao Porto da Barra, trinta anos depois, para um mergulho que
lavou minha alma num território que parece o mesmo, a mesma fauna humana, os
mesmos trejeitos da velha Cidade da Bahia. É incrível, mas avistei vendedores
que conhecia dos anos 80, meninas que se tornaram mães ou avós, ainda com uma graça no jeito de levar a vida, talvez
por obra daquela maresia única, o mesmo cheiro que me invadiu de saudades. Pelo
menos aqui, Caetano, eu não canto “Triste Bahia...”. Porque todo porto é feliz.
sábado, 21 de dezembro de 2013
A majestade do ReiGinaldo Rossi
Tenho andado impaciente
com nosso Brasil, cada vez mais. Talvez a idade diminua a tolerância com nossas
mazelas naturalizadas, o que é uma burrice minha, sem dúvidas, pela incapacidade
em exercer tolerância até como arma de defesa. A raiz do meu enfado reside
nisso: a naturalização dos nossos defeitos. Ontem, 20 de dezembro, tomei um
porre federal para embalar a viagem de Reginaldo Rossi. Gastei cada faixa dos
sete ou oito CDs desse que era, de fato, um grande cantor. Sem querer puxar
assunto com os defensores de uma suposta estética musical, me intriga o fato
dessa banda de intelectuais ignorarem solenemente o fenômeno Rossi. Nada de
mais em passar a vida caetaneando os pós-modernismos, os hermetismos pascais,
mas conseguir passar ao largo das canções de amor e de sofrimento de um
compositor tão rico, é puro esnobismo.
Rossi levou para o túmulo
uma mágoa que jamais conseguiu remover: a pecha de brega, uma idiotice
fabricada pelos formadores das opiniões, incluindo a miúda e rasa imprensa.
Mais importante do que abrir uma discussão sobre isso é a constatação de mais
esse sintoma da esquizofrenia que rege as mentalidades desse Brasil que se arvora a
moderno e grande. Grande no tamanho, pequeno de alma. Na curta história da
música brasileira, tivemos poucos cantores tão talentosos como esse que
pespegaram a fama de O Rei do Brega. Poucos conseguiram retratar com tanta
humanidade as dores e as delícias da vida, particularmente das coisas do
coração e da paixão. Mas é como se ele nem existisse. Melhor: para existir,
tiveram de folclorizá-lo, transformá-lo num sub-produto da cultura, figura
excêntrica, um personagem.
Acho que ele cansou de
dizer que não era nada disso e resolveu encarar as coisas como elas estavam
postas, ou seja, naturalizar o tratamento de imbecil dispensado por gente do
naipe de Faustão, pra ficar no mais vistoso dos galhofeiros. Em terra de sapo,
de cócoras com eles, afinal, era o preço cobrado pelo sucesso, a carreira e os
louro$$ que tanto fascinam os homens e as mulheres. Rossi não deveria mesmo
ficar de fora do circo musical e deixar de desfrutar da merecida glória. Mas
nunca engoliu essa grosseria perpetrada por jornalistas burros e a classe média
brasileira. Brega são vocês! Como pode alguém ouvir os sete ou oito CDs que
ouvi ontem e concluir, depois de tudo, que se trata de uma obra brega? De onde
esses estilistas do acaso tiraram seus conceitos? Não foi em Walter Benjamin
nem em Adorno, claro. De todo modo, a mágoa de Rossi foi com ele no caixão, mas
o espantoso é isso: a continuidade de nossa (nossa, e não dele!) breguice desfilando incólume, às vezes até buscando ares de elegância, como se
vê nas entrevistas das ivetes da praça. Nossa jequice, esta sim, é a religião
da hora, com a péssima música que toca nas ruas e uma televisão porcaria, que
dá ouvidos a iniquidades como o Padre Marcelo, desgraçadamente também Rossi.
Por essas e por tudo o
mais, Rey Rossi, a gente de alguma forma morre um pouco com você. Porque o espetáculo
que fica está cada dia pior.
sábado, 16 de novembro de 2013
Nota de pesar
A Globo News, desde ontem, transmitindo ao vivo a prisão dos envolvidos no processo que ela cunhou (e o resto do país, a reboque, como sempre) como o mensalão. Fico perplexo que não haja um deputado de esquerda do país inteiro, nem mesmo do PT, a ter, não a coragem (porque não o são), mas, pelo menos, a dignidade mínima para discutir o mérito. Engana-se quem pensa que essa investida furiosa e virulenta da velha burguesia nacional, a apodrecida elite brasileira que saqueia este país há exatos 513 anos, faz uma campanha diária, incansável, sistemática e metódica contra os setores de esquerda que assumiram uma pequena parcela do poder (do poder executivo, porque os demais seguem sendo despóticos, ditatoriais). Isso não é contra o PT. É contra todos os que apostaram na utopia de um Brasil livre e independente. A ditadura militar foi substituída por outra muito pior, com a capa de uma legalidade construída pelo aparato jurídico dessas instâncias que movem suas filigranas para conspurcar a democracia, de todas as formas e de forma psicótica, como faz a Globo News. Dá para entender a posição de um oligopólio como o do "doutor" (doutor sou eu, rolabosta!) Roberto Marinho, que trata de dinheiros & interesses. Mas fico sem entender a adesão voluntária e quase delirante de jornalistas que assumem a causa dos patrões, como a senhora Mônica Waldvogel, essa velha matreira com cara de codorna (uma das mulheres mais feias que já vi na vida). Ok, vocês venceram. Lembrando aquele célebre poema de Brecht, já pisaram nosso jardim e mataram todas as rosas. Vou me permitir agora àqueles cinco minutos do rumor e fúria de Shakespeare. Continue ardendo no enxofre do inferno, "doutor" Roberto. E que a maldição dos deuses, a praga dos ciganos, o caldeirão das bruxas e toda sorte de desgraças recaiam sobre todos os seus descendentes. Minha TV está desligada, em sinal de luto, porque não permito que o senhor e os seus façam isso com meu pacato feriado.A Globo News, desde ontem, transmitindo ao vivo a prisão dos envolvidos no processo que ela cunhou (e o resto do país, a reboque, como sempre) como o mensalão. Fico perplexo que não haja um deputado de esquerda do país inteiro, nem mesmo do PT, a ter, não a coragem (porque não o são), mas, pelo menos, a dignidade mínima para discutir o mérito. Engana-se quem pensa que essa investida furiosa e virulenta da velha burguesia nacional, a apodrecida elite brasileira que saqueia este país há exatos 513 anos, faz uma campanha diária, incansável, sistemática e metódica contra os setores de esquerda que assumiram uma pequena parcela do poder (do poder executivo, porque os demais seguem sendo despóticos, ditatoriais). Isso não é contra o PT. É contra todos os que apostaram na utopia de um Brasil livre e independente. A ditadura militar foi substituída por outra muito pior, com a capa de uma legalidade construída pelo aparato jurídico dessas instâncias que movem suas filigranas para conspurcar a democracia, de todas as formas e de forma psicótica, como faz a Globo News. Dá para entender a posição de um oligopólio como o do "doutor" (doutor sou eu, rolabosta!) Roberto Marinho, que trata de dinheiros & interesses. Mas fico sem entender a adesão voluntária e quase delirante de jornalistas que assumem a causa dos patrões, como a senhora Mônica Waldvogel, essa velha matreira com cara de codorna (uma das mulheres mais feias que já vi na vida). Ok, vocês venceram. Lembrando aquele célebre poema de Brecht, já pisaram nosso jardim e mataram todas as rosas. Vou me permitir agora àqueles cinco minutos do rumor e fúria de Shakespeare. Continue ardendo no enxofre do inferno, "doutor" Roberto. E que a maldição dos deuses, a praga dos ciganos, o caldeirão das bruxas e toda sorte de desgraças recaiam sobre todos os seus descendentes. Minha TV está desligada, em sinal de luto, porque não permito que o senhor e os seus façam isso com meu pacato feriado.
terça-feira, 5 de novembro de 2013
Vai Diego Costa, nosso bravo papa-jaca
1) Ainda sábado eu dizia que Joel Silveira é considerado o maior repórter da imprensa brasileira de todos os tempos. Está dito aí abaixo.
2) Diego Costa fez o certo. Felipão fez o de costume: o grunhido de um homem bruto, mau educado, desonesto e mesquinho. Qualificar de "ridícula" a pergunta de um repórter, é muita pretensão, senhor Scolari. O senhor é rico e poderoso, mas é burro.
3) Manzanares e Vaza-Barris, dois rios de minha vida.
Deu no blog de Xico Sá
Carta a Diego Costa
Caríssimo rapaz de Lagarto, tomaste a decisão mais certeira; sem essa de traidor da pátria
Amigo torcedor, amigo secador, peço a devida licença para me dirigir, especialmente, a este brasileiríssimo rapaz de Lagarto, Sergipe, que dentro de campo, doravante, é tão espanhol quanto uma tourada ou um sapateado de flamenco. Caríssimo Diego Costa, tomaste a decisão mais certeira, sem essa de traidor da pátria, como se fora um Calabar durante a invasão holandesa (1630-1654).
Sem essa, meu nego, "no passa nada", só tu sabes o que passaste na tua vida de papa-jaca, como é chamado um autêntico lagartense. Tua pátria é a tua bola e aqui não rolou chance alguma entre os profissas. Aqui tua pátria foi apenas tua várzea. "Perdido en el corazón/ De la grande babylon", eras um clandestino da pelota, como diria Manu Chao, este cantante que também aboliu as linhas dos mapas.
Tua pátria é a do Iniesta --cá entre nós, caro Diego, viste como ele se parece com nosotros nordestinos?
Segundo o site "Cearenses Internacionais", que faz humor sobre a semelhança de variados povos e personagens famosos, o craque do Barça nasceu na praia de Morro Branco, Beberibe (CE), em 1984. Não duvido. Cearense é um bicho que corre mundo.
Brincadeiras globalizadas à parte, o Felipão ficou bravo, o que não é lá mui difícil. O Felipão pôs a questão de ordem, marcha, para mexer com os brios da tropa de Pachecos. "No passa nada", amigo, a Espanha te valoriza, disseste tudo. Aqui és, mesmo depois desta peleja, uma tremenda dúvida. Até para este vagabundo cronista que te escreve, embora veja no teu jeito de marcar gols um quê de Emílio Butragueño --o objetivíssimo espanhol da filosofia "un toque e me voy".
Deste um exemplo, Diego, para os milhares de jovens que saem cada vez mais cedo sem chance nas peneiras da pátria amada, mãe gentil. Sem essa, meu nego, brigam Espanha e Brasil pelos direitos do mar, o mar, porém, meu velho, é das gaivotas que nele sabem voar --que me desculpe pelo arremedo de paródia da música de Milton Nascimento e Leila Diniz.
Caríssimo rapaz de Lagarto, sem essa de traição à pátria, bom foi observar como os espanhóis ficaram orgulhosos pela tua escolha futebolística --sei que seguirás como um brasileiríssimo papa-jaca.
O jornalista e escritor David Trueba, em crônica no "El País", falou bonito. Disse que a tua decisão é motivo de euforia para os espanhóis que vivem grave crise na economia e na autoestima. Com a pegada de chiste e gozação elegante, Trueba exaltou o triunfo sobre a praia de Copacabana, o carnaval da Bahia, as mulheres com adornos de frutas na cabeça, o lema "Ordem e Progresso", a voz de João Gilberto com música de Tom Jobim e versos de Vinicius.
Um legítimo samba-exaltação puxado na castanhola. Aqui, amigo, no máximo farias companhia aos cupins no esquenta-banco de reservas de luxo. Tua pátria é tua bola. O rio Vaza-Barris corre no teu sangue de infância em transfusão com o madrileño Manzanares que te apontou o destino.
"No passa nada". Tua pátria é o universal grito de gol em qualquer língua. Tua pátria é a pequena área. E saibas de uma coisa importante: agora és o papa-jaca mais conhecido do mundo. Deixaste para trás outro filho ilustre da terra, o homem-víbora, Joel Silveira, o maior repórter brasileiro de todos os tempos. Palavra do jornalista pernambucano Geneton Moraes Neto. Aquele abrazo e nos vemos na final do Maraca.
2) Diego Costa fez o certo. Felipão fez o de costume: o grunhido de um homem bruto, mau educado, desonesto e mesquinho. Qualificar de "ridícula" a pergunta de um repórter, é muita pretensão, senhor Scolari. O senhor é rico e poderoso, mas é burro.
3) Manzanares e Vaza-Barris, dois rios de minha vida.
Deu no blog de Xico Sá
Carta a Diego Costa
Caríssimo rapaz de Lagarto, tomaste a decisão mais certeira; sem essa de traidor da pátria
Amigo torcedor, amigo secador, peço a devida licença para me dirigir, especialmente, a este brasileiríssimo rapaz de Lagarto, Sergipe, que dentro de campo, doravante, é tão espanhol quanto uma tourada ou um sapateado de flamenco. Caríssimo Diego Costa, tomaste a decisão mais certeira, sem essa de traidor da pátria, como se fora um Calabar durante a invasão holandesa (1630-1654).
Sem essa, meu nego, "no passa nada", só tu sabes o que passaste na tua vida de papa-jaca, como é chamado um autêntico lagartense. Tua pátria é a tua bola e aqui não rolou chance alguma entre os profissas. Aqui tua pátria foi apenas tua várzea. "Perdido en el corazón/ De la grande babylon", eras um clandestino da pelota, como diria Manu Chao, este cantante que também aboliu as linhas dos mapas.
Tua pátria é a do Iniesta --cá entre nós, caro Diego, viste como ele se parece com nosotros nordestinos?
Segundo o site "Cearenses Internacionais", que faz humor sobre a semelhança de variados povos e personagens famosos, o craque do Barça nasceu na praia de Morro Branco, Beberibe (CE), em 1984. Não duvido. Cearense é um bicho que corre mundo.
Brincadeiras globalizadas à parte, o Felipão ficou bravo, o que não é lá mui difícil. O Felipão pôs a questão de ordem, marcha, para mexer com os brios da tropa de Pachecos. "No passa nada", amigo, a Espanha te valoriza, disseste tudo. Aqui és, mesmo depois desta peleja, uma tremenda dúvida. Até para este vagabundo cronista que te escreve, embora veja no teu jeito de marcar gols um quê de Emílio Butragueño --o objetivíssimo espanhol da filosofia "un toque e me voy".
Deste um exemplo, Diego, para os milhares de jovens que saem cada vez mais cedo sem chance nas peneiras da pátria amada, mãe gentil. Sem essa, meu nego, brigam Espanha e Brasil pelos direitos do mar, o mar, porém, meu velho, é das gaivotas que nele sabem voar --que me desculpe pelo arremedo de paródia da música de Milton Nascimento e Leila Diniz.
Caríssimo rapaz de Lagarto, sem essa de traição à pátria, bom foi observar como os espanhóis ficaram orgulhosos pela tua escolha futebolística --sei que seguirás como um brasileiríssimo papa-jaca.
O jornalista e escritor David Trueba, em crônica no "El País", falou bonito. Disse que a tua decisão é motivo de euforia para os espanhóis que vivem grave crise na economia e na autoestima. Com a pegada de chiste e gozação elegante, Trueba exaltou o triunfo sobre a praia de Copacabana, o carnaval da Bahia, as mulheres com adornos de frutas na cabeça, o lema "Ordem e Progresso", a voz de João Gilberto com música de Tom Jobim e versos de Vinicius.
Um legítimo samba-exaltação puxado na castanhola. Aqui, amigo, no máximo farias companhia aos cupins no esquenta-banco de reservas de luxo. Tua pátria é tua bola. O rio Vaza-Barris corre no teu sangue de infância em transfusão com o madrileño Manzanares que te apontou o destino.
"No passa nada". Tua pátria é o universal grito de gol em qualquer língua. Tua pátria é a pequena área. E saibas de uma coisa importante: agora és o papa-jaca mais conhecido do mundo. Deixaste para trás outro filho ilustre da terra, o homem-víbora, Joel Silveira, o maior repórter brasileiro de todos os tempos. Palavra do jornalista pernambucano Geneton Moraes Neto. Aquele abrazo e nos vemos na final do Maraca.
terça-feira, 24 de setembro de 2013
Deu no Diário do Centro do Mundo : Preso por um post: por que a legislação está mais dura com calúnias no Facebook by Mauro Donato
Para quem esquece que a liberdade de expressão deve resguardar o respeito à imagem e à honra de terceiros. E isso vale para nosso comezinho jornalismo diário e semanal, que, de reforma recorrente, "esquece" de ouvir o outro lado, ou, quando o faz, complementa com comentários injuriosos ou jocosos.
Deu no "Diário do Centro do Mundo"
Preso por um post: por que a legislação está mais dura com calúnias no Facebook
by Mauro Donato
No recente caso ocorrido no bairro do Butantã (SP) em que as irmãs Victorazzo de 13 e 14 anos foram mortas pela própria mãe numa condição envolta em tanta complexidade que uma avaliação psquiátrica tornou-se primeiro passo, um leitor assinado como Leo Dias comentou abaixo da notícia em um grande portal: “Matem essa cachorra na cadeia”.
Há um risco muito grande nesse comportamento, normalmente desprezado ou ignorado. A internet não só não é “terra de ninguém” como pode trazer problemas sérios ao cobrar judicialmente a responsabilidade de quem fala o que quer.
“Ameaça, calúnia, difamação, injúria, são crimes ao vivo ou por meio da internet. Aliás, essa divisão - mundo real ou mundo virtual - não existe. O que quer que tenha repercussão e interesses jurídicos é passível de responsabilização, sendo que no mundo virtual existe a agravante que é a extensão do dano”, diz Gustavo Guimarães Leite, do ZRDF Advogados. “Difamar ou caluniar alguém aos gritos no meio a rua é uma coisa, fazê-lo na internet é outra, a dimensão do dano é exponencial, a quantidade de pessoas suscetíveis ao ato passa a ser muito maior, portanto a gravidade também é maior”.
Não vivemos sob um regime chinês ou mesmo iraniano, cujo acesso ao Facebook está sendo vagarosamente permitido só agora após 4 anos de bloqueio total. Temos liberdade para acessar, opinar e dar pitacos em tudo o que acreditamos ser relevante. Porém muitos passam daquilo que Obama chama de linha vermelha. “A todos é assegurado o direito à livre manifestação, é um direito constitucional. O que não significa que, ao exercê-lo, você possa ultrapassar determinados limites impostos, principalmente ofender terceiros. Configura-se ato ilícito, abuso de direito, que é passível de responsabilização”, afirma Leite.
Engana-se ainda quem acredita estar protegido caso o ataque não seja individualizado. “Antes de mais nada, é preciso haver a denúncia, que pode ser de uma pessoa (para um crime pessoal – de ação condicionada - só a vítima pode denunciar), mas pode ser movida uma ação penal através do Ministério Público, por exemplo”, continua Gustavo Leite.
Foi o risco que correu o estilista Alexandre Herchcovitch. Após participar da manifestação do dia 17 de junho, no dia seguinte seu perfil oficial do Twitter continha a seguinte frase: "Por que não acontecem manifestações no norte e nordeste? É lá que elegem os políticos corruptos do Brasil". A repercussão foi tão negativa, inclusive entre seus seguidores, que Herchcovitch saiu-se com uma explicação ao estilo porta dos fundos, alegando que sua conta pessoal havia sido hackeada.
Cancelou a conta, mas não evitou provar da máxima “quem fala o que quer, ouve o que não quer” que a internet propicia com crueldade: “Eu sugiro que o moço vá para o Senegal, onde dimensões penianas generosas poderão aplacar eventuais desgostos políticos. Bonne chance!”, foi postado por um leitor do G1, comprovando que dois erros não fazem um acerto.
Mesma sorte não teve um advogado paranaense que, trabalhando em um escritório de São Luís do Maranhão, passou a publicar comentários em sua rede social criticando a cultura maranhense. Alegou que o Brasil não evoluiria por causa dos nordestinos e sugeriu que as regiões Norte e Nordeste sejam riscadas do mapa brasileiro, restando apenas Sul e Sudeste. A Ordem dos Advogados instaurou procedimento disciplinar contra o advogado por conduta indevida de xenofobia e ele hoje está em vias de perder seu registro para exercício da atividade.
Na selva cibernética, as empresas também são alvos frequentes e decisões judiciais estão ajudando a protegê-las dos excessos. A Justiça de Piracicaba condenou três mulheres que organizaram através do Facebook um protesto difundindo boicote à rede Habib’s, a pagarem uma indenização de R$ 100 mil (R$ 33,3 mil para cada uma) pois a iniciativa teve "o intuito de abalar a reputação" da empresa e a induzir a "sociedade a não consumir os produtos por ela fornecidos".
O que faz pessoas julgarem um suicida como Champignon, baixista do Carlie Brown Junior, ou que defendam a extradição compulsória de nordestinos após uma reintegração de posse ocorrida no Grajaú à base de bombas de gás da polícia contra mulheres e crianças é algo que deixo para a psiquiatria explicar. Já as consequências, quem explica é a legislação. Cuidado com o que você posta. Pode sim dar cadeia. Bonne chance.
Deu no "Diário do Centro do Mundo"
Preso por um post: por que a legislação está mais dura com calúnias no Facebook
by Mauro Donato
No recente caso ocorrido no bairro do Butantã (SP) em que as irmãs Victorazzo de 13 e 14 anos foram mortas pela própria mãe numa condição envolta em tanta complexidade que uma avaliação psquiátrica tornou-se primeiro passo, um leitor assinado como Leo Dias comentou abaixo da notícia em um grande portal: “Matem essa cachorra na cadeia”.
Há um risco muito grande nesse comportamento, normalmente desprezado ou ignorado. A internet não só não é “terra de ninguém” como pode trazer problemas sérios ao cobrar judicialmente a responsabilidade de quem fala o que quer.
“Ameaça, calúnia, difamação, injúria, são crimes ao vivo ou por meio da internet. Aliás, essa divisão - mundo real ou mundo virtual - não existe. O que quer que tenha repercussão e interesses jurídicos é passível de responsabilização, sendo que no mundo virtual existe a agravante que é a extensão do dano”, diz Gustavo Guimarães Leite, do ZRDF Advogados. “Difamar ou caluniar alguém aos gritos no meio a rua é uma coisa, fazê-lo na internet é outra, a dimensão do dano é exponencial, a quantidade de pessoas suscetíveis ao ato passa a ser muito maior, portanto a gravidade também é maior”.
Não vivemos sob um regime chinês ou mesmo iraniano, cujo acesso ao Facebook está sendo vagarosamente permitido só agora após 4 anos de bloqueio total. Temos liberdade para acessar, opinar e dar pitacos em tudo o que acreditamos ser relevante. Porém muitos passam daquilo que Obama chama de linha vermelha. “A todos é assegurado o direito à livre manifestação, é um direito constitucional. O que não significa que, ao exercê-lo, você possa ultrapassar determinados limites impostos, principalmente ofender terceiros. Configura-se ato ilícito, abuso de direito, que é passível de responsabilização”, afirma Leite.
Engana-se ainda quem acredita estar protegido caso o ataque não seja individualizado. “Antes de mais nada, é preciso haver a denúncia, que pode ser de uma pessoa (para um crime pessoal – de ação condicionada - só a vítima pode denunciar), mas pode ser movida uma ação penal através do Ministério Público, por exemplo”, continua Gustavo Leite.
Foi o risco que correu o estilista Alexandre Herchcovitch. Após participar da manifestação do dia 17 de junho, no dia seguinte seu perfil oficial do Twitter continha a seguinte frase: "Por que não acontecem manifestações no norte e nordeste? É lá que elegem os políticos corruptos do Brasil". A repercussão foi tão negativa, inclusive entre seus seguidores, que Herchcovitch saiu-se com uma explicação ao estilo porta dos fundos, alegando que sua conta pessoal havia sido hackeada.
Cancelou a conta, mas não evitou provar da máxima “quem fala o que quer, ouve o que não quer” que a internet propicia com crueldade: “Eu sugiro que o moço vá para o Senegal, onde dimensões penianas generosas poderão aplacar eventuais desgostos políticos. Bonne chance!”, foi postado por um leitor do G1, comprovando que dois erros não fazem um acerto.
Mesma sorte não teve um advogado paranaense que, trabalhando em um escritório de São Luís do Maranhão, passou a publicar comentários em sua rede social criticando a cultura maranhense. Alegou que o Brasil não evoluiria por causa dos nordestinos e sugeriu que as regiões Norte e Nordeste sejam riscadas do mapa brasileiro, restando apenas Sul e Sudeste. A Ordem dos Advogados instaurou procedimento disciplinar contra o advogado por conduta indevida de xenofobia e ele hoje está em vias de perder seu registro para exercício da atividade.
Na selva cibernética, as empresas também são alvos frequentes e decisões judiciais estão ajudando a protegê-las dos excessos. A Justiça de Piracicaba condenou três mulheres que organizaram através do Facebook um protesto difundindo boicote à rede Habib’s, a pagarem uma indenização de R$ 100 mil (R$ 33,3 mil para cada uma) pois a iniciativa teve "o intuito de abalar a reputação" da empresa e a induzir a "sociedade a não consumir os produtos por ela fornecidos".
O que faz pessoas julgarem um suicida como Champignon, baixista do Carlie Brown Junior, ou que defendam a extradição compulsória de nordestinos após uma reintegração de posse ocorrida no Grajaú à base de bombas de gás da polícia contra mulheres e crianças é algo que deixo para a psiquiatria explicar. Já as consequências, quem explica é a legislação. Cuidado com o que você posta. Pode sim dar cadeia. Bonne chance.
quarta-feira, 24 de julho de 2013
Um brinde a Dominguinhos
A primeira morte
da MPB que curti com reverência e saudade foi Adnorinan Barbosa. Morava ainda
na cidade de São Salvador da Bahia, mas a Folha da Praia, naqueles efervescentes
verões pós abertura, era minha conexão com meu chão (o Poeta Amaral dizia: seus
leitores!). Virou crônica do imberbe estudante de jornalismo na emotiva FDP.
A segunda foi o
maior artista da música brasileira (popular? MPB? Isso é invenção acadêmica,
pois...), o gênio Luiz Gonzaga, maior de todos os tempos e, pelo que tocam aí,
eterno rei. Acho que foi Luiz Eduardo Oliva (pela UFS), - só me ocorre ele
agora - que organizou uma festa-sentinela no alto do bairro América, os
artistas sergipanos se revezando numa inesquecível homenagem ao rei do baião e
de todos os outros ritmos. Despachamos Gonzaga com alegria e festa, apressando
ainda seu assento no panteão de nossa fabulosa música.
Depois só me
tocou o transbordante Waldick, cuja morte me alcançou no meio de um doutorado
agônico, mas que, naquele dia, eu bradei para minhas frágeis convicções com uma
rara lucidez: “hoje perdemos um grande pedaço da vida de todos nós”. Larguei textos
e certezas acadêmicas e fui ao bar do meu amigo Fabiano, na gélida São Leopoldo,
no meu querido e caro Vale do Rio dos Sinos, beber por um dos maiores cantores
da música brasileira. Um poeta que também compunha coisas demasiadamente
humanas. Me vinguei de nossa imprensa coxinha, que torturou esse latin lover
dos palcos do povo e pespegou por cima de seu talento, até o fim da vida, o timbre-preconceito
de “brega” (e ele levou essa mágoa para o túmulo), quando li uma crônica de
Xico Sá.
Dizia (citando
os primeiros versos de “Torturas de amor”): “No cinquentenário da bossa-nova,
sinto muito pelos bons modos jazzísticos que tanto agradaram a classe média do
sr. João Gilberto, mas ninguém me disse mais coisas do que esse homem que
cantava Dostoievski para as putas e para nossas mães ao mesmo tempo”:
“Hoje que a
noite está calma/ E que minha alma esperava por ti. / Apareceste afinal,
torturando esse ser que te adora.”
Hoje, verto meus
copos pela memória de Dominguinhos. Há um disco antológico, registro ao vivo,
de uma apresentação de Gonzaga no teatro João Caetano, em 1971, no Rio, com o
moleque Domingos arrebentando na sanfona, algo como o que fazem agora os dois
filhos sanfoneiros de Erivaldo de Carira. Na passagem de “Numa sala de reboco”
para “O cheiro da Carolina”, o gênio se manifesta ali, num solo que só loucos
por música sabem se tratar de momento único, porque a indústria fonográfica, na
sua ânsia e burrice, não permite esses experimentos se não no acaso de um
teatro, fora de seus cânones comerciais (o ouvido das massas, me perdoem os
revolucionários da última temporada, é pobre e colonizado. Ou pobre porque
colonizado). Essa alegria criativa na música nordestina só é encontrada em
raros, como Oswaldinho, outro gigante (luzes nele, faz favor, para não
chorarmos saudades só na hora da morte). Oswaldinho é filho de Pedro Sertanejo,
um conterrâneo caipira que se impôs no mercado musical do Rio-SP e cujo filho
faz diabruras tocando Beethoven no acordeon. Sanfoneiro tocando Beethoven? Só
se for da linhagem de Januário, essas almas tocadas pelo dom da arte.
Há uma outra boa
história de Dominguinhos, trilha de um amor errante de minha bruta juventude,
que, pelo tamanho da epopeia e preguiça do autor, deixo para o próximo adeus.
Só cito a música, para quem, como eu, quiser viajar nessas promessas de paixão
do nosso forró (isso mesmo: compositores como Humberto Teixeira e Dominguinhos,
entre tantos, souberam derramar grandes histórias de amor entre xotes e
xaxados). É “Eu me lembro”, um xotinho apaixonado que só quem viveu sabe como
toca os mistérios insondáveis do coração.
Uma vez, nos
longínquos 80, encontrei Dominguinhos no calçadão da Laranjeiras, ali por onde
havia uma loja de discos que apoiou imensamente os artistas nordestinos, a Aki
Discos. Numa época em que estrelas como ele deviam ostentar aquela pose artificial
obrigatória às celebridades, aquele matuto, grosso na forma e simples no trato,
caminhava entre aracajuanos com um despojamento tácito, negociado pelos dois
lados, artista e fãs, que, igualmente, o tratavam como alguém que animasse os
forrós dos pinga-pus do Beco dos Côcos, um parente próximo a quem
cumprimentavam com uma gostosa sem-cerimônica: “Digaaaa, Dominguinhos!”. Eu vi
isso e anotei na minha coluna de admiração pelos dois, Gonzaguinha e o
povo-povo do Sergipe profundo.
Este senhor que
hoje passou para o outro lado (que lado? Pois...) é um dos últimos, sem dúvidas.
Mas, como a citação quase forçada de Oswaldinho, talvez para falar de uma
continuidade sem a qual não suportamos, como diz Xico Sá, a bundamolice da
classe média, saio dessa sentinela-bêbada dizendo aos desavisados: graças a
Deus ou ao deus do acaso, gente como Petrúcio Amorim, Maciel Melo e Nando
Cordel anda tecendo outras maravilhas do amor e da paixão. Enganam e encantam
bestalhões como eu, que, tão incrédulo nessas coisas como nas improváveis
conexões com o outro plano, precisam tanto de umas como das outras.
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