terça-feira, 8 de junho de 2010

As primeiras falsas impressões

As impressões apressadas, de primeira hora, geralmente enganam, mas são também as melhores, pelo choque que nos provocam. No meu caso, não são as primeiras. Creio que esta é a quinta ou sexta vez que venho a Madrid, embora quem me conheça saiba que não guardo registro de nada. Sou capaz de viver um ano num lugar e, meses depois, não saber o caminho. Este sou eu.
Aqui me instalei por três dias em hotéis diferentes, cada dia um, sempre buscando uma melhora. Amanhã me instalo na que será "minha casa" em Madrid, num bairro bacana, ao lado de um parque amplo e do estádio do Atlético de Madrid. Pronto, já sou torcedor deste time, apesar das cores do péssimo Sergipe. Até porque lá jogou, lá pelo século XVII, o grande Julio Iglesias, pegando no gol.
Aqui o verão se ensaia ameaçador. Fui recebido com um bafo quente, parecia o Piauí. Felizmente hoje a tarde choveu um pouco e, como no Rio Grande, quando pinga esfria. Nunca tive problemas com fusos horários, cachaceiro que sempre fui, flanando na noite, mas agora o tal pegou pesado. Desde que cheguei, só faço dormir, quer dizer, tento. Minha infame insônia é capaz de proezas: mesmo com o sono atrasado em, pelo menos, uns 25 anos, só fui pregar os olhos esta noite às oito da manhã. Isso mesmo. Passei a "noite" contando carneiros, lendo a "Piauí". Seguindo o conselho do meu amigo Tonho Grampão, arrisquei até uma punheta. Diz ele que é bom para o sono. Só se for para ele.
Acordei zonzo às doze e meia, mas uma moça mal humorada, com ar de buldogue, me passou um carão. "Vai ficar? Porque já são uma e meia e a diária vence ao meio dia". Eu: "Hein?" Ou eles adiantaram o relógio, ou eu fiquei doido (ou as duas, claro). Saí na rua e... quem tava certo? Yo, yozinho aqui. Porra, os fusos me deixam confusos (ahahah), mas meu relógio é um Swatch legítimo, comprado nas boas casas do ramo na cidade do Porto, há mais de uma década. Não queria falar mal dos espanhóis logo no primeiro texto, mas não resisto: os putos alteram um relógio por causa de trinta dinheiros. Para ser exato, 32 euros. É o que dá se hospedar em freje perto da Porta do Sol.
De tardinha fui ver um quarto num apê onde vive a amiga de uma amiga. Aqui, quem vem para estudar, aluga quartos assim. Além do campo do Atlético, tenho vista para o Palácio Real. Só de sacanagem, vou abrir a janela todo dia e dizer: "Bom dia, Rei". Se o puto me ouvir um dia, vai mandar de lá: "Porque não te calla, cabrón"? Fui com o dono, no seu carro, espanhol típico, classe média baixa, desconfiado. Disse que espera somente que seus inquilinos sejam pessoas "normais". Epa! E eu sou isso? Ahahahah. Depois de mim, duas chicas foram também olhar o outro quarto, que igualmente estava desocupado. Já pensou? Vou morar com três chicas num apê. Pensão para moças.E eu ali no meio. Ahahah. Aquele cheiro de mulé o tempo todo. Nada mal.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

A seleção no Zimbábue e uma matéria a respeito

Nessa quinta, um dia depois do jogo da seleção canarinha no Zimbábue, o UOL faz matéria jornalística sobre a repercussão e aproveita para fazer uma “pan” no país, mostrar mazelas e a política podre do ditador Mugabe. Lembrei de conversa que tive esses dias com amigos que observam, digamos assim, o caráter ideológico da imprensa que se pratica em nossa Pindorama, UOL incluído. Não tratarei dessa empresa, que ora não cabe aqui, mas da matéria em si, rica, com densidade, feita por algum jornalista que, quando foi à escola (de jornalismo), não estava pensando somente em comer a merenda.
Ou seja, o jornalista sai para cobrir uma partida de futebol e aproveita para checar a situação política, a repressão de um ditador, o salário dos trabalhadores do país, enfim, aquelas matérias do tempo em que havia reportagem no jornalismo, de Tão Gomes Pinto, Ricardo Kotscho, Marcos Sá Correa, etc. Não é o jornalismo de “Veja”, que inventa realidades, nem aqueles chapa-brancas da “Carta Capital”, revista caça-níquel, cujo dono teve a sem-vergonhice de fazer um trocadilho com o próprio nome para nomear a empresa. Trata-se de uma mirada honesta de alguém que sabe o papel e o dever de quem usa um crachá dessa profissão que o honestíssimo Gilmar Mendes e aquele supremo treteiro quer acabar.
Enfim, isso me faz lembrar uma discussão que tem proliferado muito nos bancos e eventos acadêmicos, sobre o tal “jornalismo on line”. Tem tantos livros e tanta gente vivendo disso, eu sei, mas, sinceramente, continuo intrigado com o que venha ser esta pomposa categoria. Como se fosse algo além do velho e bom jornalismo que essa matéria referida pratica. Que outra coisa, então, seria o jornalismo on line, se não o bom jornalismo dos Kotchos e Sá Correas, praticado em jornais e aprendido em escolas?

Ah, o link da matéria: http://copadomundo.uol.com.br/2010/ultimas-noticias/2010/06/03/zimbabue-vibra-com-kaka-e-expoe-fragilidades-em-dia-de-festa-com-o-brasil.jhtm

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Gente é pra brilhar

Do poeta Amaral Cavalcanti, editor da Folha da Praia, citado aqui no texto anterior, respondendo a uma provocação deste blogueiro contra poeteiros iniciantes:
- Basta que o poema tenha lhe tocado e já significa. O resto são firulas.
O que não nos merece mais são os harpejos helênicos, o faz de conta que eu digo e você faz de conta que me entende. O ai meu Deus das metáforas olímpicas, os versos lapidares, a poesia desencarnada e o espírito servil. O teor desta, para as exigências de um paladar viciado em excelência, tem paladar juvenil e forma contida. Mas nada que atrapalhe a sua degustação. Sirva-se.

Do personagem Calvero, de Charles Chaplin, em Luzes da Ribalta, fazendo uma confissão ao seu médico, no final da vida:

- A vida não tem sentido. E porque deve ter sentido? A vida é desejo, não razão. Desejo: a razão da existência! Razão pela qual uma rosa quer ser rosa. E quer crescer assim... e pela qual as pedras querem ser duras e perenes. No entanto, o significado das coisas está nas palavras que as explicam. Uma rosa é uma rosa. Depois de tudo. (...)
Bem, creio que estou morrendo, doutor. Mas, quem é que sabe... Já morri tantas vezes...

terça-feira, 1 de junho de 2010

A Folha caiu na rede

Praia de Atalaia - Década de 70

O jornal Folha da Praia completa trinta anos com um fato marcante: inaugura um site com o melhor de suas crônicas, opiniões e entrevistas. Fico feliz, por várias razões. Primeiro, porque há anos brigo com o editor Amaral Cavalcante pela implantação do site. Menos mal que veio agora. Mas o mais grandioso é aproveitar os limites quase infinitos da internet para ampliar o material impresso, inclusive com a promessa de uma volta às antigas edições. E aí este locutor que vos tecla entra na história. Foi na alternativa e fogosa FDP onde comecei a escrever, antes mesmo de pisar os pés na Facom da UFBA, nos longínquos anos de 1980. Foi na Folha que virei gente, se é que virei. Foi lá que aprendi a escrever, se é que aprendi. Com gente como Fernando Sávio, como ele mesmo dizia, meu pai profissional, o mordaz e poético texto de Ilma Fontes e o auxílio luxuoso de um editor como Amaral, me dando semanalmente os toques que às vezes rareavam nas aulas do curso de jornalismo. Nas cachaçadas com o poeta Amaral, eu sempre comparava a FDP com o legendário Pasquim, de Ziraldo e Jaguar, combativo alternativo que mordia os calcanhares dos generais da ditadura. A nossa nanica Folha também sempre foi um desaguadouro do pensamento de esquerda, que, salvo momentos da velha Gazeta de Orlando Dantas, não tinha onde se expressar. Mas a nossa foi mais safada e atrevida, isso eu garanto, com o testemunho de quem viveu a festiva redação da rua São Cristóvão, no edifício SCAS, em cima da Transbrasil. Porque nasceu no frescor daquele fervilhante verão de 1981, da volta de Gabeira, da transgressão nos litorais, de cima a baixo. Aqui foi a Praia dos Artistas, ainda com o cheiro da maresia do Colodiano, quem fez nossa pequena revolução dos costumes. O rico e disputado acervo fotográfico guardado nas velhas caixas de sapato que o diga. A FDP nasceu ali, de esquerda, safada e malandra, como as meninas e seus biquines vazando pelinhos pubianos que encantaram uma geração nas suas páginas eletrizantes. Onde ali, nas mesmas páginas, briguei com tanta gente, com minha mania de reformador do mundo.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

O bode no cinema

Quem leu “A festa do bode”, de Vargas Llosa, sabe que estou falando de um dos melhores livros da literatura latinoamericana. O brilhante Llosa conta a história do ditador da República Dominicana, Rafael Leônidas Trujillo, pelo olhar de Uranita, filha de um dos mangangões nos 30 anos em que o general ocupou o poder.
Nas telas, “O ditador”, dirigido por Luís Llosa (deve ser filho, mas não achei a confirmação numa só fonte da internê). Trata-se de uma das raras adaptações que não envergonham o livro. Ao contrário, o diretor enriquece os personagens e faz o que é mais difícil na dramaturgia: dá o recheio psicológico a cada um deles, situando-os na tragédia social que representou a ditadura de Trujillo na bela República Dominicana.
Mas além de uma direção firme, dos bons atores e de uma delicada reconstituição dos anos 50 e 60, o filme é ainda uma aula de história e política. Cair em desgraça, como se diz por aqui, no governo de Trujillo, não é diferente de experimentar o ostracismo em qualquer governo modernoso de hoje, mesmo os que se pretendem democráticos.
Por fim, o diabo manda avisar: Trujillo, que detinha 70% de todas as terras do país e 90% da indústria, morreu atravessado por dezenas de balas disparadas por agentes e ex-agentes secretos de sua própria polícia. Nada mais humano do que uma história dessas.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

A vida é festa

(Publicado na Folha da Praia, em agosto de 2009)

Não sei o que seria do bravo povo brasileiro e deste solitário exilado se não fossem as noites de alegria propiciadas pela Lucianta Ximenes. A moça se supera a cada dia. E quer o quê? Que ela faça alguma coisa? Fazer, fazer, quem faz é a turma do Pânico, que tem de dar literalmente a cara a tapa para tirar umas graças. Lucianta não. É a mulé do dono, porra. Quer o quê, mais?
Na segunda, 25/8, Anta convidou a última celebridade dos últimos 15 segundos: uma tal Mulé Melão, outra aleijada, igual à Melancia. Meu Deus: aquilo é show de horrores. Nem o pior dos papadores de mocréias aproveitava as curvas da celulótica Melão. E qual o mérito da moça, qual? Nada, absolutamente nada. Dá lá uns sacolejos, grita “créu” ou algo parecido, ameaça botar pra fora os gigantescos melões e pronto: acabou o show.
Anta, mulé de rico, é socialite paulistana, mas é miserável de estilo, carente de amigos bacanas. Na falta, ela se vira com umas bichinhas fechosas. Tem um rapaz lá, um fascistinha empombado, que se apresenta como jornalista e, em nome de seu “jornalismo”, assaca contra a pobre Melão. Passa o programa tentando fazer a moça confessar que é de programa, uma puta, portanto. Como Lucianta é só festa, o programa acaba em funk. E todos rebolam ao som do MC (cuidado: a pronúncia é Ême Cí), inclusive o afetado e a peituda. Viva a grande lareira eletrônica!

terça-feira, 25 de maio de 2010

A política sem graça

(Publicado na "Folha da Praia" em agosto de 2009, mas, em ano eleitoral, não custa avisar de novo).

Os fazedores de programas políticos na TV, somados ao Ministério Público, conseguiram o que queriam: tornaram o processo político uma coisa insípida, asséptica. Os primeiros o fazem por conveniência, atendendo clamores dos patrões candidatos, que, por sua vez, só desejam ganhar as eleições. Não importa como, ou melhor, pode ser na base do besteirol publicitário, a transformação de políticos com história em homens sem história, presente ou futuro. São bobalhões em estúdios televisivos, dizendo bobagens que ninguém entende, nem eles, na esperança que se traduza em votos. Isto pode até ocorrer, mas a conta um dia será paga. Não duvidem: a despolitização da sociedade é um perigo que a ligeireza remunerada dos tais marqueteiros (essa palavra nem existe, portanto, não existe também a coisa) quer impor goela adentro.
Quanto aos primeiros, não tenho a menor dúvida de que cumprem a Constituição, por obrigação, mas, por dentro, o coração se debate toda vez que têm de aturar essa coisa menor que é a política. Torcem ardorosamente para alguma coisa dar errado, pretexto para uma medida "legal" contra esses aprorrinhadores candidatos.

domingo, 23 de maio de 2010

Por que o Espaço Público?

Há alguns anos criei um blog, mas logo em seguida, por falta de estímulo e a compreensão que tenho agora, acabei abandonando no caminho. Desde 2006, quando saí de Sergipe para fazer o mestrado (depois o doutorado) no Rio Grande do Sul, acabei negligenciando minha colaboração, a começar pela vibrante Folha da Praia, alternativo que fez história no jornalismo sergipano e ainda hoje, trintona em forma, contribui com a formação de opinião no estado. Agora, prestes a iniciar mais uma jornada, achei que a ideia do blog estava amadurecendo. Blog e twitter de vez, num dia só, o dia de hoje.Quer dizer, o twitter eu já tinha, desde o começo do ano, mas esse perigoso desinteresse pelas novas ferramentas me fez entrar de manhã e sair de tarde.
Acontece que, para o bem e para o mal, a vida real, ou o mundo da vida, no dizer de Habermas, corre por aqui, este novo espaço público que se configura diariamente, sem, no entanto, revogar as velhas formas de vida (ainda bem!). A intenção de começar um blog nessa nova jornada, o doutorado sanduíche que inicio agora em junho, era a chance de juntar tudo isso: fazer um relato político-literário-acadêmico de minha vivência em Madri, na Universidade Carlos III, me manter ligado às raízes e, por fim, reinserir minha participação no debate público, no meu caso, a partir do jornalismo.
A obsolescência de antigas ferramentas e a crise do jornalismo clássico, cujos cânones são gradativamente desconsiderados em favor de uma espetacularização da notícia e sua subsunção ao mundo dos negócios, tudo isso nos anima a nós, militantes históricos dos movimentos de esquerda, a seguir buscando um mundo mais justo. Em Sergipe, essa ressaca rebate sobre nossa imprensa de maneira violenta, mas deixarei para tratar disto em outros momentos. Apenas cumpre dizer agora que é justamente nessas fases de nevoeiro político e ideológico que urge nossa intervenção. E aqui estou para isso.
P.S.: Não me preocupei em estabelecer regras de interação aqui neste espaço. Amante do debate aberto, convido todos à participação livre, sem restrições. Só não tolerarei os atos que resultem em ofensa e baixo nível. Isto, a velha e boa ética resolve. E não é difícil identificar o bom do mau combate.