O escritor tcheco Franz Kafka, autor, dentre tantas obras célebres de “A Metamorfose”, ficou conhecido pela complexidade de situações que atravessam seus enredos, explorando mecanismos psicológicos considerados absurdos. Dessa visão da vida em sua obra resultou o adjetivo “kafkiano” para designar absurdos, irracionalidades etc. Em terras sergipanas, um modesto banco estadual exibe doses fartas do escritor tcheco na sua agência do Calçadão da rua João Pessoa, pomposamente chamada de Magazine. Desde outubro passado este modesto locutor que vos fala aceitou a espinhosa missão de responder pela administração do condomínio onde me escondo há 25 anos. Desde outubro faço pagamentos mensais, por cheque, esse objeto em extinção no resto do mundo. Mas, se o Banese quer cheque, tome-lhe cheque. Desde então, a tal agência Magazine desenvolve um divertido jogo contra essa alma indefesa. Divertido pra eles, os sádicos funcionários que operam aquela casa dos absurdos. Por algumas vezes tive que assinar novamente cheques encaminhados para pagamentos, por “divergência de assinatura”. Depois de assinar papéis por mais de quatro décadas, caixas da refrigerada Magazine decidem quando minhas firmas são verdadeiras ou falsas. Sabe-se lá quem, talvez Deus, concedeu poderes tão fortes aos desconfiados servidores. Como parte do jogo de diversão dos sádicos caixas, agora, depois de sete meses, resolveram que todo cheque deve trazer duas assinaturas, a desse infeliz síndico – profundamente infeliz! – e de novo personagem, o sub-síndico, que deve ser tirado do sossego de sua quarentena para rabiscar exigências de última hora, invenções inúteis da burocracia baneseana, novas regras do jogo inventado por eles. O resultado dessa história, para não cansá-los mais, é o acúmulo de dívidas, como se meu honesto e pontual condomínio fosse um reles mau pagador, um caloteiro da praça, irresponsável como as medidas de bancários déspotas que vivem de mandar à merda dos direitos do consumidor. O detalhes finais: desde antes da quarentena, dezenas e dezenas de vezes eu tentei falar por telefone com a metida agência, que, de tão convencida, jamais atendeu minhas desesperadas ligações. Agora, com o funcionamento meia-boca, é que não atendem mesmo. Procuro por gerentes, sub-gerentes, sub-subs, um simples contínuo que seja, mas meus gritos não são ouvidos. Sem comunicação por telefone, esse meio inventado ainda no século 19, imagine e-mails, zaps ou instas, essas modernidades que fazem os sub-subs baneseanos arderem de ojeriza. Ir pessoalmente, nem pensar: a repartição fechou. Resumindo, não há peste no mundo que consiga falar com os inacessíveis buRRocratas da agência Kafka, ops, Magazine. Vou cortar os pulsos. Ou mudar de banco.
segunda-feira, 4 de maio de 2020
Anotações sobre o fim do mundo (VIII)
Da biblioteca de Papai, leio "Leandro Maciel – Perante Sergipe", de J. Freire Ribeiro. Vale pela história do grande líder udenista, chefe político do Estado durante anos, até a fragorosa derrota para Gilvan Rocha em 74, nas célebres eleições em que o MDB elegeu uma caçambada de senadores pelo país. Mas é mais do mesmo, a crônica do poder, por um apaixonado militante da causa.
Em “Ninguém Me Contou, Eu Vi”, Sebastião Nery, baiano de Jaguaquara, ex-tudo na imprensa brasileira, ex-líder estudantil, vereador por Belo Horizonte, deputado estadual pela Bahia e federal pelo Rio, naquela fornalha eleita com Brizola em 1982, uma eleição também célebre, porque Brizola era a esquerda no Rio de Janeiro, com os principais intelectuais, artistas e todos os desejavam enterrar o “Chaguismo”, a corrente emedebista no Estado, tão governista que, mesmo numa ditadura, os militares deixaram o Rio sob o comando de Chagas Freitas, do MDB.
Tenho lido outras preciosidades do jornalista Nery, uma figura que depois fez suas escolhas, aderiu a Collor e foi adido cultural em Paris. Mas se o leitor for capaz de passar álcool gel nos preconceitos e focar tão somente no valor histórico, a leitura é uma mão cheia. Mesmo porque, antes do autor fazes tais opções, produziu uma densa obra, como um relato jornalístico por vários países socialistas nos anos 80. Funciona como uma radiografia ou um balanço, naquela quadra, do estágio e dos resultados dos governos socialistas no mundo inteiro.
Nery, antes de virar bicho na ótica da esquerda de plantão, teve uma longa trajetória nesse campo. Por essa época circulou em vários países os Cadernos do Terceiro Mundo, uma proposta interessante de jornalismo alternativo ao mainstream, às grandes agências de notícias e redes de televisão. Nery fez parte dessa história. Os Cadernos circulavam, que eu saiba, na África lusitana, toda a América Latina e, creio, nos países do leste europeu. Seu projeto editorial era liderado por Neiva Moreira, grande jornalista maranhense estabelecido no Rio, ligado a Brizola, que também foi deputado federal numa suplência. Conheci Neiva, que já o lia no Pasquim, nos meus tempos de Maranhão, na TV Difusora. Boa prosa, ele gostava de ir na redação para alguma entrevista ou apenas a troco da boa conversa. Uma figura.
Outro livro de Sebastião Nery é seu relato sobre a Revolução dos Cravos, a liberação portuguesa que pôs fim a 40 anos de Salazarismo, a ditadura encarnada em António de Oliveira Salazar, o equivalente português do ditador espanhol Francisco Franco. A riqueza do texto é o fato do jornalista cumprir aquela máxima da “testemunha ocular da História”, ou seja, ele tava em todos os lugares e na hora em que os fatos se desenrolavam. É incrível a capacidade desse jornalista estar sempre no lugar e na hora certos, em todas as suas coberturas. Na política brasileira não foi diferente e neste “Ninguém Me Contou, Eu Vi”, Nery só confirma o golpe de sorte ou de destreza: está em todas, mas não só observando, se não fazendo parte do enredo.
Para além de fazer um passeio por nossa história contemporânea pelo olhar não acadêmico, ou seja, de um jornalista de jornais, farejo a presença de sergipanos nessa história, que, a rigor, é a nossa história política no século passado. E a menção ao velho Leandro é porque é o único, ao lado de Seixas Dória, que aparece algumas vezes no livro. Outro que é citado algumas vezes é Joel Silveira, disparadamente o sergipano mais influente no cenário nacional no século XX, por tudo que foi e fez, íntimo do poder, mas de uma intimidade útil apenas para contar suas histórias, e não pelo poder em si. Joel, ao contrário, sempre foi um boêmio, desprendido de apegos e disposto mais a cultivar suas feéricas brigas com gente como Jorge Amado, dentre outros.
Mas causa espécie que só esses dois políticos, Leandro e Seixas, dois ex-governadores, apareçam no livro, já que Nery cobre um trecho que vai de Getúlio a Dilma. E, entre os sergipanos, ninguém mais consta. Ninguém é ninguém.
Leandro surge quando era virtualmente o candidato a vice na chapa de Jânio Quadros, o que seria um feito inédito para nossa invisibilidade política. Note-se que tivemos um pouco antes intelectuais absolutamente influentes e respeitados, como Silvio Romero e Gilberto Amado, mas na esfera estrita do poder o que tivemos de mais prestigiado foi a presença de Lourival Fontes no famigerado Departamento de Imprensa e Propaganda de Getúlio Vargas, o DIP da repressão aos opositores ao regime. Mas não foi daquela vez que Sergipe se redimiu de sua opacidade histórica, palavrão que recorro para não usar o incômodo insignificância. Maciel foi desalojado da chapa antes que se ela se efetivasse, ignorado que era pelo próprio Jânio, segundo Nery, que o chamava de “ataúde de chumbo”, ou seja, o atual mala.
Dória, diferente, aparece várias vezes e sempre levado a sério, em reuniões decisivas, com quem decidia, mesmo no campo da oposição. Ele foi deputado ligado à gente como Miguel Arraes, o próprio João Goulart e tantos outros que resistiram à ditadura e exerceram o poder a partir de 1985. Ele mesmo foi preso e cassado em 64, despachado do Palácio Olímpio Campos para Fernando de Noronha. No governo Sarney, da Aliança Democrática feita de PMDB com PFL, Seixas foi presidente da Petromisa e teve influência na política local. Eloquente, mas simples, de vida espartana, nunca deixou de exercer um certo charme entre seus companheiros da esquerda no núcleo do poder nos anos 50 e 60. Conheci Seixinhas, como era chamado por aqui, nos anos em que atuei na sucursal da Tribuna da Bahia e na TV Sergipe, editando e co-apresentando o Bom Dia. Até hoje lamento não ter explorado mais a riqueza da experiência deste sergipano que foi, de fato, um dos poucos que brilharam lá fora.
Anotações sobre o fim do mundo (VII)
O mundo foi tão dominado pelo discurso do produtivismo que até velhos esquerdistas são flagrados volta e meia discutindo prejuízos, queda nas bolsas, falências múltiplas e coisas assim. Como se fosse deles cada centavo supostamente perdido. Digo supostamente, porque a loucura capitalista nos empurrou para a riqueza virtual, a financeirização da vida, que fez tudo se tornar volátil em segundos. A Rússia brigou com os sauditas de noite e a Petrobrás amanhece valendo menos 50 bilhões. Ah, briga resolvida. E a Petrobrás ganha outros tantos no mesmo lapso de tempo. O jornalismo, bastião de resistência ao ordinário – como dizia a amiga Ilma Fontes - entrou nesse jogo, se permitindo roteirizar a chorumela neoliberal, conferindo relevância ao seu diário de iniquidades. Só uma peste que deixa no mesmo nível de insegurança o primeiro ministro inglês, o príncipe Charles e a cachorra de Corí para nos chamar de volta à realidade. Andam dizendo que depois dessa gripe o mundo não será mais o mesmo. Quiçá que sim, afinal, como disse Caetano já há algum tempo: alguma coisa estava fora da ordem. Depois dessa vai ficar mais fácil pensar livre, sacudir velhas ideias caiadas como novas e derrubar certezas que não resistiram a uma gripe. Novamente Caetano: la leche buena toda em mi garganta, la mala leche para los puretas.
Anotações sobre o fim do mundo (VI)
Aproveito também a quarentena para os muito mais de 40 filmes atrasados, que vejo agora um a um, dos diálogos improváveis de Abbas Kiarostami ao cinema soviético, que, depois da debacle da cortina de ferro, começou a despertar meu interesse. E é um grande cinema, com diretores, técnicos e atores sofisticados, que mantêm a tradição iniciada no limiar do século passado, com Eisenstein e tantos outros. Aqui, duas dicas:
Fausto, de F. W. Murnau, baseado na obra do célebre Goethe, que explora o mito do homem que vendeu a alma ao diabo. O filme é de 1926 e é um dos grandes trabalhos de Murnau, um dos mais valorosos representantes do cinema mudo e do chamado cinema expressionista alemão. Além de ser baseado num gigante da literatura universal, o diretor é um pioneiro dos efeitos especiais no cinema e, para alcançar os resultados do filme, desenvolve uma obstinada construção de cada cena, algo praticamente impensável ainda na aurora do cinema no mundo inteiro.
Vassa, história de uma família burguesa da Rússia pré-revolucionária, enfrentando já os prenúncios da nova era política que dominaria o país até... até hoje. O filme baseia-se numa peça de Maksim Gorky, ele mesmo, autor do célebre A Mãe, que fez a cabeça da esquerda mais velha, como este locutor que vos fala. Gorky foi inicialmente um propagandista da revolução e, além de A Mãe, esta peça integra o repertório das obras de arte que o regime russo usou para incrustar seus dogmas. Pouco depois ele se revolta contra o regime de Stalin, mas aí já outra história. Fiquemos com o filme, que vale como registro histórico de um período, para quem quiser conhecer um pouco da história.
sexta-feira, 27 de março de 2020
Anotações sobre o fim do mundo (III)
A falência do chamado socialismo real pode ser comprovada amplamente, ao gosto do freguês: por farta literatura, cinema e as próprias ciências sociais. Na União Soviética e na Cortina de Ferro, essa derrocada passou na TV ao vivo, no mundo inteiro, com a queda do muro, o fuzilamento do casal Ceausescu na Romênia, a desintegração da Iugoslávia e o papa João Paulo II cantando de galo pra comemorar uma vitória quase pessoal. De minha parte, assisti à ruína do socialismo real em Cuba, nos três meses em que morei lá, em 1989, embora Cuba tenha muito que ensinar ao mundo e que, em alguns campos importantes da vida, exiba dados impressionantes. Mas no geral a conta fecha negativa, pelo nível de pobreza apresentado pela quase totalidade da população. Socialismo pra isso não serve, e foi isso que fez seu modelo ruir, ensejando, de quebra, o conceito de socialismo real, como se restasse a esperança de um socialismo utópico perfeito.
Continuo com a visão crítica para a vida e o mundo, mas carrego comigo a impressão de que a ideia de socialismo verdadeiro, aquele que faz jus ao nome e à justiça social em si, só funciona na morte. A morte é demonizada desde que largamos o berço e tomamos conhecimento dela, e não é pra menos, afinal, à exceção dos suicidas, ninguém quer largar o osso e a festa que é só o fato de estar por aqui, mesmo em condições desumanas. Bom ou ruim, antes vivo do que morto, não é assim? Mas era na morte que se materializava a única justiça imparcial, cega, certa e segura. Desde remotas eras, reis, príncipes e faraós tentaram driblá-la, ou disfarçar sua sentença inadiável, sem sucesso.
Aqui nas redes leio texto distribuído pelo amigo espanhol Fernando Roqueta, do autor Ramón Barea, que relaciona as principais vítimas das grandes pestes contemporâneas. A Aids, no começo dos anos 80, que matava viados, putas e drogados. A epidemia de Ebola, em 2016, que atingia negros e os que se metessem por esses países exóticos, ou a grande crise de 2008, que era, afinal, uma calamidade contra os pobres. Assim, agora estamos diante de uma ameaça que foi para o coração da vida ocidental e desequilibrou toda a segurança que os donos do mundo ostentavam até então. Diz ainda o autor que, enquanto o problema estava circunscrito à China, todos eram risos e piadas, na suposta certeza de que esses males de tão longe jamais afetariam nosso confortável e seguro modo de vida ocidental. Eis que estávamos todos enganados, minimizando esse monstro que agora nos morde os calcanhares sob nossos lençóis. O medo é de todos, sem distinção, porque é real. Não foram as duas grandes guerras e outras tantas, nem os cracks de bolsas, invasões, saques e genocídios que fizeram o homem pensar duas vezes. Foi uma ameaça real que não dá segurança absolutamente a ninguém e, por isso mesmo, a mais justa de todas, como a morte.
É a partir destas cinzas que retomaremos um mundo novo. Ou não.
Anotações sobre o fim do mundo (II)
Mais de Marcelo Mirisola em Hosana na Sarjeta
"Ela aferiu a ereção e depois nos grudamos num beijo de língua. No meio do beijo - de olhos fechados, juro - ocorreu-me o seguinte: 'incorporação por incorporação, sou mais a Marisete'. Que, além de ser meu gênio particular, sempre foi parceiro nas merdas em que nos metemos, e nunca me renegou, nem jamais entregaria a guarda prum Paulo Coelho ou pra dona Zíbia Gasparetto em horário comercial.
Pensei comigo: 'Ganhei na lábia, ela tem uma bunda branca, redonda e macia, é engraçada e a breguice dela, até o chapeuzinho de poodle, dentro do contexto, tem lá o seu élan, porra!, ela não sabe que eu sou escritor... nunca leu Dostoiévski e nunca vai ler Cioran, o negócio de Paulinha Denise é dona Zíbia Gasparetto. Ah, obrigado, meu Deus. Uma mulher que jamais vai encher o saco com Clarice Lispector e Amélie Poulain! Caraio, tô livre da ficção se misturando com a realidade!
Paulinha era brega, mas tinha majestade. Uma garota bacana, inteligente, meio abilolada e muito gostosa. A Capitu mareada que tanto pedi a Deus, sem o par de cornos. Agora, diante de tantas novidades, o que mais me incomodava era minha atividade de escritor. Não queria que ela soubesse. Tinha vergonha. Acreditava sinceramente que essa era a raiz de todas as cagadas da minha vida, do acúmulo de todos os erros e infelicidades. Entretanto, eu estava decidido a não mentir, não fazia sentido esconder o lado podre. Se ela quisesse mesmo ser minha mulher, teria de aceitar o pacote completo, eu & meus doze livros publicados. Mesmo porque, se eu não contasse, alguma entidade, digo, algum amigo meu ia aparecer lá em casa e soprar pra ela."
Anotações sobre o fim do mundo (I)
Em condições normais de temperatura e pressão, só a literatura salva. Só ela nos socorre de um mundo modorrento. Ainda mais nos tempos em que ele mesmo, o mundo como ele é, nos ameaça com o velho clichê: ruim com ele, pior sem ele. De modo que, para me acompanhar na solidão compulsória do vírus do fim do mundo, convidei novamente ele, que já vem frequentado muito minha casa nos últimos anos. Marcelo Mirisola e seu último (ou mais recente): Hosana na Sarjeta. Para o distinto público, ofereço esses aperitivos:
"A questão é a seguinte. Em Paulinha caía bem a figura da puta triste, era como se aquela garota de vinte e poucos anos incorporasse a tristeza do mundo quando olhava de dentro dos seus olhos para os olhos de quem lhe pedisse um cigarro, um dedo de prosa ou socorro, e o engraçado é que os incautos, no final das contas, seguiam esse roteiro: cigarro, prosa, socorro. Não foi diferente comigo. Ela absorvia os despojos e as esperanças de quem a solicitava, engolia tudo. Daí emergia sua majestade.
Num belo dia, Paulinha disse que precisava conversar seriamente comigo. Explicou-me que recebia cinco entidades; agora, só lembro da cigana Sarah e de outra chamada tia Alzira, a dengosa. Acho que nem o Fernando Pessoa incorporava tanta gente. O problema é que, por conta de sua quíntupla personalidade, às vezes ela "estava mas não estava" diante de mim... e eu poderia "estar mas não estar" diante de Sarah, a cigana, de tia Alzira e sabe-se lá de quem mais.
Uma noite, Paulinha Denise bebeu além da conta. A cigana Sarah manifestou-se pela primeira vez. baixou majestática e implacável, à queima roupa:
- Você nunca vai amar ninguém nessa vida.
Ainda bem que Paulinha havia me prevenido. Safo, respondi na lata:
- Tá certo, cigana. Mas agora vou te comer, vira de lado aí."
- Você nunca vai amar ninguém nessa vida.
Ainda bem que Paulinha havia me prevenido. Safo, respondi na lata:
- Tá certo, cigana. Mas agora vou te comer, vira de lado aí."
quinta-feira, 25 de julho de 2019
À Unimed, sem carinho
Poucos sabem, mas este locutor que vos fala, como todo mundo, carrega consigo um pequeno inferno. No meu caso, já há alguns anos caminho por longas temporadas para o setor de fisioterapia da Unimed Sergipe, onde me trato de hérnias, tendinites e outras ites, todas elas dolorosas. Há tempos que, entre uma longa espera e outra longa espera, matuto sobre o “modelo de trabalho” desta instituição, na vã esperança de que: 1) ofereça, com minha experiência (e de graça), um diagnóstico minucioso feito por quem entende do babado em questão, afinal, quem mais do que um paciente observador é capaz disso? 2) melhorar o tal modelo, buscando eficiência, modernização e objetividade nas etapas que integram o processo e, por fim: 3) com tudo isso, diminuir meu sofrimento, que inclui, além das dores inevitáveis, a dor de ver o tempo desperdiçado por demoras mal administradas. Sempre fiquei devendo a mim e à Unimed esse precioso relatório, mais valioso do que 30 pesquisas de satisfação. Nunca o fiz, por consideração, pressa ou preguiça. Hoje sou todo seu, Unimed Sergipe, para discutir agora em público aquilo que sua ouvidoria preguiçosa jamais o fez: melhorar o método e otimizar processos. Hoje, 25/07, cheguei míseros dez minutinhos atrasado na sessão que estava marcada para as 13h, suficientes para ter negado o acesso, tão importante nesse momento em que cada dia é um passo importante para diminuir as dores sem o uso de remédios. Dez míseros minutinhos!!! Cacete, eu chego todo dia pontualmente, às vezes até com meia hora de antecedência. E diga-se que, quando chego antes, nem isso me ajuda a ser atendido mais cedo. A Unimed é um mix do pior dos mundos: se você faz o melhor, ela não leva em conta. É uma máquina dura, um robô cego e surdo às reengenharias que milhares de empresas do gênero incorporam às suas rotinas. A Unimed aqui, digo tristemente na condição de freqüentador quase associado, é uma dor constante na pele de quem precisa dos seus serviços.
segunda-feira, 22 de julho de 2019
O fim de mais um pequeno sonho
Ontem à noite chegou ao fim o sonho da torcida tricolor da Serra em ver a gloriosa Associação Olímpica de Itabaiana ascender à série C do campeonato brasileiro. Mais uma vez, ficou faltando um gol. O terrível terceiro gol do Ituano, em Itu, na semana passada, deixou nosso sonho mais distante. Precisávamos ganhar por dois de diferença para decidir nos pênaltis, ou vencer por diferença de três gols. Ficamos a meio caminho ao bater o Ituano por um a zero no nosso castigado Mendonção. Do ponto de vista técnico, foram duas partidas no mata-mata: perdemos lá e ganhamos aqui. Tecnicamente, poderíamos muito bem estar na confortável zona da série C. Moralmente somos vitoriosos, mas, na real, voltamos à planície do campeonato sergipano e à estaca zero na tentativa de sair do limbo em que se encontram centenas de clubes brasileiros praticamente sem chances de sair do inferno. Desde que ficou definido que pegaríamos o Ituano e não, por exemplo, o Floresta de Pernambuco, vi nossas chances se estreitando. Não que faltassem garra e futebol, como, de fato, não faltaram a este heróico plantel de modestos 50 mil reais. O que estava em jogo era o gigante estado de São Paulo contra o pequenino e pobre Sergipe, completamente fora do cenário do futebol nacional, desde que as séries foram se instituindo e nos empurrando gradativamente para a rabada, os piores entre os piores. E São Paulo, com seus esquemas comerciais de patrocínio e financiamento fez valer a força da grana. No jogo de ida em Itu foram fartas promoções, distribuição de ingressos, para mobilizar a cidade na torcida pelo seu time. São Paulo, com quatro grandes clubes praticamente fixos na divisão de elite, mais um ou dois na B e outros tantos na C, ainda brigou caninamente para bater os sergipanos. E não adianta dizer que futebol se ganha no campo, porque, como se sabe, é no campo mesmo que não se ganha. Os tapetões, subornos, pressões e agora o famigerado VAR, tudo isso faz do futebol um terreno tão inescrupuloso quanto o que atribuem à política. Não estou chorando mágoas nem dizendo que fomos roubados. Fomos, sim, vítimas de um modelo predador, que só favorece os mais fortes e cria enormes barreiras à entrada de novos atores. Com isso, além da concentração e da repetição da lógica de mais do mesmo, resulta em campeonatos assimétricos do ponto de vista regional, da geografia, da cultura e da vida brasileira. O modelo vigente não favorece aquela que é a palavra santa em todos os setores da vida no mundo inteiro, a diversidade. É disso que estamos falando e é disso que me ressinto. De resto, vale registrar a garra dos nossos valorosos combatentes. E escolho dois para render as homenagens ao conjunto. Primeiro, ao presidente Alberto Nogueira, a quem, em alguns momentos, reclamei de excessiva tolerância nos embates locais com a federação de futebol, mas que, competente e sábio, paciente e cheio de esperança, tangenciou todas a dificuldades e levou ao time à quase classificação. Ontem Alberto se consagrou um campeão sem título, e, por tudo que fez pelo nosso querido e sofrido Tremendão, entra de vez para a galeria dos grandes da nossa serra. Depois, o técnico Ferreira, ex-jogador e há muitos anos funcionário do clube, um tolerante e educado rapaz que nunca se incomodou em ser o tapa-buracos nas transições de comando técnico. A prata da casa que, toda vez que foi acionado, deu resultados positivos ao time. Agora, convocado de novo, fixou-se de vez com uma capacidade que nem os estrelados treinadores que por aqui passaram conseguiram realizar, com a diferença de receber um salário infinitamente menor do que os medalhões e de colocar a alma em cada treino ou partida. Parabéns, meus amados tricolores serranos.
quinta-feira, 18 de julho de 2019
Umberto Eco e os joão-ninguéns empoderados das redes sociais
A internet e as novas tecnologias, que trouxeram tantas coisas boas, fizeram também isso: empoderaram o sujeito comum, não no sentido de vidas fora de visibilidade, mas aquele personagem que Nelson Rodrigues definiu tão bem nas suas obras, o sujeito opaco, sem brilho, opinião ou caráter, sem perspectivas ou visão da vida. Este Zé Ninguém no sentido mais nocivo emerge do nada, ou melhor, de suas iniquidades, e se transforma em juiz da humanidade, brandindo platitudes sobre tudo com a arrogância dos sábios, perdendo a vergonha de ser quem é, pelo simples fato de não saber olhar para si e se enxergar no oceano de ignorância que sempre foi a sua vida. Oremos. Por todos.
As redes sociais deram voz aos imbecis, afirma Umberto Eco
As redes sociais foram um fenómeno que nos permitiu ter acesso a conteúdos que, de outra forma, seriam muito difíceis de ter conhecimento. Mas… nem tudo são rosas e, a verdade, é que muitas pessoas não estão ‘educadas’ para saberem estar na Internet no geral e nas redes sociais em particular.
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