sexta-feira, 11 de junho de 2010

Três hotéis



Decidido a buscar um hotel no centro, acabei mudando de idéia. Aceitei a sugestão de um baiano e fui parar um pouco ao norte, próximo à estação Begoña. Não tinha internet nem wi fi (aqui se diz “uí fí” – gosto desse jeito dos espanhóis nacionalizarem palavras em inglês). Mas estava tão detonado, depois de uma noite inteira na inflexível poltrona da TAP, que falei para meus pés: daqui não saio mais. Mais tarde, fui dar um bordejo na Porta do Sol e cercanias, comprar frutas para o jantar. Sem dormir um minuto na viagem, a noite do domingo me deixou descansar um poucovocês não têm idéia do valor de uma noite bem dormida, para um insone.




Na segunda-feira fui parar no Hostal Alicante, pertinho da Porta e do “El Corte Inglés”, uma loja de departamento bacanuda, a Mesbla daqui. Foi o tal do relógio adiantado pra me pegar. Na véspera, um velho com cara de gerente puxou conversa comigo. Mas tava pouco interessado em ouvir. Falou do gigantismo do Brasil e disse que, por isso mesmo, não tem controle. E que a corrupção grassa. “Na Europa não tem disso”, disse o sacana. Eu dei por encerrado minha charla. Preconceito no primeiro dia, vovô? Esse Alicante, além do fascismo latente do vovô, cometeu uma fraude: disse que tinha wi fi (como é a pronúncia?), mas... nada. Tinha um pc numa sala, bem disputada. Fiz cara de apressado e uma morena linda, cara de nicaragüense, ficou toda hora dizendo: “ vai, chico, vai”. Ai morena.




O terceiro é onde escrevo essas mal tecladas linhas. Chama-se “El Pilar”, anuncia duas estrelas, que não sei se valem, mas para mim tá de bom tamanho. À tarde fui traçar um Donner kebabb, num simpático restaurante árabe (vixe, será que é árabe mesmo? Vamos pedir a palavra do professor Jorge Carvalho, cidadão do mundo. Não confunda árabe com turco, que vai ver onde a burca torce o rabo). Na TV passava um programa de clips de países árabes, uma espécie de Al Jazeera teen, a MTV do Oriente Médio. Puta programinha ruim. E eu achava que o pior programa de TV do mundo era o Pampa Show, do canal 4 de Porto Alegre. Na saída, com uma chuvinha safada de uns pingos grossos aqui e acolá, dei de cara com elas, as putas. Ai meu Deus, até aqui esses fantasmas atormentam a vida de um rapaz de família. Pelo menos tive o gosto de dizernão” a uma espanhola. Quer dizer, nunca se sabe de onde são essas periguetes... Vai que é uma parenta nossa...









Mozart Santos









Lembram do baiano atrás? Coisas desse mundo redondo e pequeno. No caminho do aeroporto para o centro fui pedir uma informação ao segurança do metrô. O cara atendeu, indicou e, na saída, tirou uma chinfra: “Aposto que é baiano”. Ano não, mas sergipano sim. Daí não demorou mais que 30 segundos até chegarmos no nome do jornalista Mozart Santos, superintendente da TV Sergipe nos anos 80, grande figura, cidadão do mundo, cosmopolita, homem de TV como poucos tivemos em Sergipe. Quando trabalhei com Mozart eu era diretor do Sindijor, grevista recorrente, mas nunca deixei de alimentar uma ponte de amizade com ele, boa conversa e bom copo. Pois não é que o rapaz, Renato Alonso, é sobrinho do nosso homem de TV! Foi o bastante para meia hora de conversa. Não fosse a indicação do apê das meninas, seguramente teria ido ocupar uma habitación na casa do primo Renato. Fica pra outra, rapá.
  

terça-feira, 8 de junho de 2010

As primeiras falsas impressões

As impressões apressadas, de primeira hora, geralmente enganam, mas são também as melhores, pelo choque que nos provocam. No meu caso, não são as primeiras. Creio que esta é a quinta ou sexta vez que venho a Madrid, embora quem me conheça saiba que não guardo registro de nada. Sou capaz de viver um ano num lugar e, meses depois, não saber o caminho. Este sou eu.
Aqui me instalei por três dias em hotéis diferentes, cada dia um, sempre buscando uma melhora. Amanhã me instalo na que será "minha casa" em Madrid, num bairro bacana, ao lado de um parque amplo e do estádio do Atlético de Madrid. Pronto, já sou torcedor deste time, apesar das cores do péssimo Sergipe. Até porque lá jogou, lá pelo século XVII, o grande Julio Iglesias, pegando no gol.
Aqui o verão se ensaia ameaçador. Fui recebido com um bafo quente, parecia o Piauí. Felizmente hoje a tarde choveu um pouco e, como no Rio Grande, quando pinga esfria. Nunca tive problemas com fusos horários, cachaceiro que sempre fui, flanando na noite, mas agora o tal pegou pesado. Desde que cheguei, só faço dormir, quer dizer, tento. Minha infame insônia é capaz de proezas: mesmo com o sono atrasado em, pelo menos, uns 25 anos, só fui pregar os olhos esta noite às oito da manhã. Isso mesmo. Passei a "noite" contando carneiros, lendo a "Piauí". Seguindo o conselho do meu amigo Tonho Grampão, arrisquei até uma punheta. Diz ele que é bom para o sono. Só se for para ele.
Acordei zonzo às doze e meia, mas uma moça mal humorada, com ar de buldogue, me passou um carão. "Vai ficar? Porque já são uma e meia e a diária vence ao meio dia". Eu: "Hein?" Ou eles adiantaram o relógio, ou eu fiquei doido (ou as duas, claro). Saí na rua e... quem tava certo? Yo, yozinho aqui. Porra, os fusos me deixam confusos (ahahah), mas meu relógio é um Swatch legítimo, comprado nas boas casas do ramo na cidade do Porto, há mais de uma década. Não queria falar mal dos espanhóis logo no primeiro texto, mas não resisto: os putos alteram um relógio por causa de trinta dinheiros. Para ser exato, 32 euros. É o que dá se hospedar em freje perto da Porta do Sol.
De tardinha fui ver um quarto num apê onde vive a amiga de uma amiga. Aqui, quem vem para estudar, aluga quartos assim. Além do campo do Atlético, tenho vista para o Palácio Real. Só de sacanagem, vou abrir a janela todo dia e dizer: "Bom dia, Rei". Se o puto me ouvir um dia, vai mandar de lá: "Porque não te calla, cabrón"? Fui com o dono, no seu carro, espanhol típico, classe média baixa, desconfiado. Disse que espera somente que seus inquilinos sejam pessoas "normais". Epa! E eu sou isso? Ahahahah. Depois de mim, duas chicas foram também olhar o outro quarto, que igualmente estava desocupado. Já pensou? Vou morar com três chicas num apê. Pensão para moças.E eu ali no meio. Ahahah. Aquele cheiro de mulé o tempo todo. Nada mal.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

A seleção no Zimbábue e uma matéria a respeito

Nessa quinta, um dia depois do jogo da seleção canarinha no Zimbábue, o UOL faz matéria jornalística sobre a repercussão e aproveita para fazer uma “pan” no país, mostrar mazelas e a política podre do ditador Mugabe. Lembrei de conversa que tive esses dias com amigos que observam, digamos assim, o caráter ideológico da imprensa que se pratica em nossa Pindorama, UOL incluído. Não tratarei dessa empresa, que ora não cabe aqui, mas da matéria em si, rica, com densidade, feita por algum jornalista que, quando foi à escola (de jornalismo), não estava pensando somente em comer a merenda.
Ou seja, o jornalista sai para cobrir uma partida de futebol e aproveita para checar a situação política, a repressão de um ditador, o salário dos trabalhadores do país, enfim, aquelas matérias do tempo em que havia reportagem no jornalismo, de Tão Gomes Pinto, Ricardo Kotscho, Marcos Sá Correa, etc. Não é o jornalismo de “Veja”, que inventa realidades, nem aqueles chapa-brancas da “Carta Capital”, revista caça-níquel, cujo dono teve a sem-vergonhice de fazer um trocadilho com o próprio nome para nomear a empresa. Trata-se de uma mirada honesta de alguém que sabe o papel e o dever de quem usa um crachá dessa profissão que o honestíssimo Gilmar Mendes e aquele supremo treteiro quer acabar.
Enfim, isso me faz lembrar uma discussão que tem proliferado muito nos bancos e eventos acadêmicos, sobre o tal “jornalismo on line”. Tem tantos livros e tanta gente vivendo disso, eu sei, mas, sinceramente, continuo intrigado com o que venha ser esta pomposa categoria. Como se fosse algo além do velho e bom jornalismo que essa matéria referida pratica. Que outra coisa, então, seria o jornalismo on line, se não o bom jornalismo dos Kotchos e Sá Correas, praticado em jornais e aprendido em escolas?

Ah, o link da matéria: http://copadomundo.uol.com.br/2010/ultimas-noticias/2010/06/03/zimbabue-vibra-com-kaka-e-expoe-fragilidades-em-dia-de-festa-com-o-brasil.jhtm

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Gente é pra brilhar

Do poeta Amaral Cavalcanti, editor da Folha da Praia, citado aqui no texto anterior, respondendo a uma provocação deste blogueiro contra poeteiros iniciantes:
- Basta que o poema tenha lhe tocado e já significa. O resto são firulas.
O que não nos merece mais são os harpejos helênicos, o faz de conta que eu digo e você faz de conta que me entende. O ai meu Deus das metáforas olímpicas, os versos lapidares, a poesia desencarnada e o espírito servil. O teor desta, para as exigências de um paladar viciado em excelência, tem paladar juvenil e forma contida. Mas nada que atrapalhe a sua degustação. Sirva-se.

Do personagem Calvero, de Charles Chaplin, em Luzes da Ribalta, fazendo uma confissão ao seu médico, no final da vida:

- A vida não tem sentido. E porque deve ter sentido? A vida é desejo, não razão. Desejo: a razão da existência! Razão pela qual uma rosa quer ser rosa. E quer crescer assim... e pela qual as pedras querem ser duras e perenes. No entanto, o significado das coisas está nas palavras que as explicam. Uma rosa é uma rosa. Depois de tudo. (...)
Bem, creio que estou morrendo, doutor. Mas, quem é que sabe... Já morri tantas vezes...

terça-feira, 1 de junho de 2010

A Folha caiu na rede

Praia de Atalaia - Década de 70

O jornal Folha da Praia completa trinta anos com um fato marcante: inaugura um site com o melhor de suas crônicas, opiniões e entrevistas. Fico feliz, por várias razões. Primeiro, porque há anos brigo com o editor Amaral Cavalcante pela implantação do site. Menos mal que veio agora. Mas o mais grandioso é aproveitar os limites quase infinitos da internet para ampliar o material impresso, inclusive com a promessa de uma volta às antigas edições. E aí este locutor que vos tecla entra na história. Foi na alternativa e fogosa FDP onde comecei a escrever, antes mesmo de pisar os pés na Facom da UFBA, nos longínquos anos de 1980. Foi na Folha que virei gente, se é que virei. Foi lá que aprendi a escrever, se é que aprendi. Com gente como Fernando Sávio, como ele mesmo dizia, meu pai profissional, o mordaz e poético texto de Ilma Fontes e o auxílio luxuoso de um editor como Amaral, me dando semanalmente os toques que às vezes rareavam nas aulas do curso de jornalismo. Nas cachaçadas com o poeta Amaral, eu sempre comparava a FDP com o legendário Pasquim, de Ziraldo e Jaguar, combativo alternativo que mordia os calcanhares dos generais da ditadura. A nossa nanica Folha também sempre foi um desaguadouro do pensamento de esquerda, que, salvo momentos da velha Gazeta de Orlando Dantas, não tinha onde se expressar. Mas a nossa foi mais safada e atrevida, isso eu garanto, com o testemunho de quem viveu a festiva redação da rua São Cristóvão, no edifício SCAS, em cima da Transbrasil. Porque nasceu no frescor daquele fervilhante verão de 1981, da volta de Gabeira, da transgressão nos litorais, de cima a baixo. Aqui foi a Praia dos Artistas, ainda com o cheiro da maresia do Colodiano, quem fez nossa pequena revolução dos costumes. O rico e disputado acervo fotográfico guardado nas velhas caixas de sapato que o diga. A FDP nasceu ali, de esquerda, safada e malandra, como as meninas e seus biquines vazando pelinhos pubianos que encantaram uma geração nas suas páginas eletrizantes. Onde ali, nas mesmas páginas, briguei com tanta gente, com minha mania de reformador do mundo.